sexta-feira, 15 de maio de 2026

HÉTERO SIGILO

Quatro vezes na minha vida tive a mesma sensação: não estou sozinho no mundo. 

Fora de ordem, aqui estão: quando assisti ao comício do meu candidato à presidência da república e vi que pensamos todos iguais no coletivo; quando entrei para a associação de produtores culturais e vi que todos sofremos igual como produtores; quando entrei pela primeira vez em uma boate LGBT e vi que existiam pessoas iguais a mim; e ontem, ao assistir ao espetáculo Hétero Sigilo e senti novamente várias emoções (que eu tinha guardado só comigo) e vi que eu não passei por aquilo tudo sozinho. Aconteceu também com outras pessoas exatamente as mesmas coisas!

Depois da temporada de estreia de grande sucesso, o monólogo Hetero Sigilo está em cartaz no Teatro Gláucio Gil em curta temporada. Corram!

Com texto e atuação de Bernardo Dugin, a peça conta a história de um menino que se descobre feliz, se envergonha e aprende que sua liberdade é vigiada, aceita e age como a sociedade ordena, sofre, vira o oposto do que sua natureza manda, sofre, se engana, acha um caminho de fuga para viver duas vidas paralelas, sofre, se revolta, mas... aos poucos... começa a descobrir que o amor e a liberdade de ser quem se é, é maior e mais prazeroso do que seguir o que a sociedade, pais, família, irmãos te obrigam a ser.

Uma vez em um jantar em família, uma tia me perguntou: E as namoradas? E eu respondi: a senhora é cega ou está me sacaneando? A gargalhada dos primos parceiros, a vergonha dos adultos, a minha segurança, a confiança dos meus primos menores em mim, a aprovação de tios modernos, a desconversa, o meu empoderamento naquele dia foram sentidos por todos.

O texto de Hétero Sigilo é muito bem escrito. Contado em parcelas de anos-faixas de idades, Bernado Dugin (autor) traz uma dramaturgia que vai crescendo ao longo da história do personagem, onde as mudanças são vistas, sentidas a presenciadas por todos. Sabemos onde vamos chegar, mas não sabemos como nem o fim da história. O famoso arco dramático tão falado nos livros de roteiro, a mesma imagem do início igual a do fim da peça, a construção das frases, a linha da história, os pequenos conflitos, tudo é muito bem amarrado, pensado e escrito. Ótimo o texto.

No palco, um gigantesco espermatozoide ao fundo, duas cadeiras, uma mesa com rodinhas e objetos compõem a cena. Nello Marrese (mestre!) assina a cenografia e o figurino, composto por roupas leves e confortáveis, em tom neutro, valorizando o corpo e a história. A luz de Daniela Sanches traz recortes, quadrados, focos e colorido muito bem casada com cenografia e direção. A trilha sonora de Frederico Puppi é sempre elegante, certeira e necessária.

João Fonseca é o diretor. (Acho que João Fonseca é o diretor de teatro mais citado neste blog-opinião... seria ele um dos meus favoritos?). Em Hetero Sigilo, João traz aquela direção que eu admiro: respeitosa, calma, marcas leves e necessárias para contar a história da evolução do personagem. Cadeiras que viram personagens e bancos de carro, a ocupação do espaço permitindo uma movimentação justificada. É delicado e preocupado com a verdade cênica. Lindo. Junto com João, é destaque também a direção de movimento de Vanessa Garcia com as ótimas coreografias de danças, briga e sexo. André Celant é o assistente de direção e ajuda a amarrar as pontas para que a peça fique redondinha.

Bernardo Dugin é o ator. Sua atuação é segura, tranquila, confiante e conta uma história importante. A mudança do personagem percebemos ao longo da peça. De criança-viada a adolescente problema, de hétero agressivo a hétero sigilo, de homem social para homo defensor da sua natureza. É linda a cena da descoberta do amor no amigo igual na escola e a dor de ter excluído o amigo por pressão social. É divertida a cena de roubar a namorada do desafeto. É intensa a cena do seu personagem brinquedo-sexual-fuga. É comovente a sua liberação do pai. É emocionante a sua descoberta do amor. Bernardo não tem pressa para contar a história. Ele vibra ao poder passar cada pedacinho da história com a certeza de que a mensagem chegou ao público. Sua atuação é merecedora de aplausos de pé.

Na produção, O Delirante Produções. Azul Scorzelli na assistência de produção, Paula Catunda e Catharina Rocha na assessoria de imprensa sempre com ótimos espetáculos à mão.

Hetero Sigilo é um pseudônimo muito comum em salas de batepapo, aplicativos de encontros, redes sociais voltadas para alivio imediato sexual. É fetiche recorrente, antigo e atual. E é também título de um espetáculo de teatro onde mostra que não se está sozinho no mundo silenciado pela sociedade. É tudo verdade. Entendedores entenderão! Vida longa a Hétero Sigilo! Aplausos de pé. Viva o teatro!


sexta-feira, 3 de abril de 2026

CAMINHO DE CASA

Sempre começo a escrever sobre uma peça que eu gostei, e recomendo, contando como o espetáculo se ligou na minha vida e porque merece estar neste blog - seleção de peças de teatro imperdíveis.

Deve existir algum estudo sobre comportamentos erráticos e perturbadores de pais com seus filhos, mães com suas filhas, quando jovens, que são devidamente explicados pelo desenvolvimento de alguma doença fisica desses pais na vida madura ou na terceira idade.

Não tive uma relação boa com meu pai, mas, no fim das contas, eu cuidei dele quando precisou. Na minha familia também existe caso de mãe que maltratava a filha, mas foi ela mesma quem cuidou da mãe no fim.

Sigo no TikTok uma nora que cuida da sogra com Alzheimer. A paciência da nora é maior do que a de Jó! O bacana do perfil é mostrar como agir em momentos de irritação, esquecimento e lembrança.

Está em cartaz na Arena do SESC Copacabana, Caminho de Casa. A peça é composta de recortes da vida entre mãe e filha. Mãe que perde a memória, fica confusa, agride, se desculpa, não reconhece, repete varias vezes a mesma coisa... e uma filha, que suporta o momento da mãe da melhor forma que pode. Em sua juventude, a mãe agredia verbalmente a filha, acusava de preferir ao pai, jogava na cara da filha o “tudo que fiz por você” o tempo todo. Vemos a evolução da doença, idas ao médico, embates, a paciencia da filha no limite, as cobranças e as mágoas. A filha tem tudo para abandonar a mãe, mas é ela quem cuida quando a mãe perde seu bem mais precioso, a sua memória.

O texto, de Renata Mizhari é ótimo. O inicio da mãe rememorando os numeros de telefone, já sabendo que irá esquece-los algum dia, o parcelamento dos momentos presente, passado, sala de espera de médico, faz com que a dramaturgia não siga uma linha lógica, mas isso pouco importa, pois a cada pequeno momento, a cada pequeno embate, a cada situação, temos uma micro-dramaturgia que se liga num todo. É de emocionar mesmo algumas falas ditas pelas personagens e Renata tem o dom de usar o dia a dia, o coloquial, de uma forma belíssima no teatro.

O cenário de Tuca Benvenutti é composto de objetos necessários para contar a história com uma ótima presença de um bebedouro que permite mostrar o esquecimento, acalmar os ânimos e, ao mesmo tempo, saciar a sede das atrizes!! Cadeiras e plantas são objetos da história: sala de espera, sala de casa, plantas são personagens. A mesa com o microfone parece aquele local onde os atendentes ficam sentados chamando o numero da senha do paciente e dizendo a sala do consultório a ser ocupada! – recentemente passei por isto com minha mãe, então a referência está mais que fresquinha na cabeça!!

O figurino de Teresa Abreu, único, é elegante, leve e ao mesmo tempo sóbrio para a mãe e branco para a filha, que reflete luz, ilumina, indica pureza. A iluminação de Nina Balbi ajuda a contar a história com corredores, focos e mudança de tom entre presente-passado-consultório. Ótimo trabalho. Temos ainda a luxuosa direção de movimento de Laura Sami que cria junto com as atrizes micro expressões faciais e ao mesmo tempo largos movimentos corporais. Azulllllll cria literalmente uma trilha sonora do começo ao fim. O som do dia a dia, o som da sala de espera, as músicas que trazem memória. Tudo funciona.

Miwa Yanagizawa é a diretora. Um trabalho minucioso, certeiro. Em vários momentos da peça observamos as atrizes seguras com o texto e uma dinâmica de cena bem construída para um espaço de arena. Tem duas cenas que me deixaram boquiaberto tamanha simplicidade e profundidade. A primeira, consultório de psicólogo. Embora narrado pela filha, duas plantas são colocadas lado a lado em frente à mesa de centro. Em determinado momento, é solicitado que a mãe saia para que a filha possa conversar com a psicóloga. Uma das plantas é trocada de local, sendo estacionada bem distante, como se a filha simplesmente estivesse re-arrumando a casa. Simbólico e consciente. Outra cena, a filha sentada na sala de espera aguardando a chamada da senha, olha e murmura para a mãe sentada distante. Gestos e palavras ditas apenas com os lábios, sem som. A cada chamado da filha, a mãe vira o rosto, como uma criança pirracenta. As duas se entendem, nós, público, entendemos tudo!! Uma beleza!! Sem falar na condução da história onde o afeto, carinho, raiva e mágoa estão presentes o tempo todo nas entonações e caminhadas. Um trabalho sensível e competente. Adessa Martins é a diretora assistente.

Juliana França é a filha. Tem aqui um desafio grande. Contracenar com a gigante Kelzy Ecard e dar vida à uma filha magoada, preocupada, dividida entre perdão e rancor, amor não correspondido e ao mesmo tempo doido para ser compartilhado. Juliana não se rende à personagem muito menos à colega de cena, encara os dois desafios com qualidade, técnica, sensibilidade e muita coragem. Um ótimo trabalho de composição. (No fim da peça, ficou clara a sua dedicação e angústia quando ela correu para abraçar a propria filha que estava na plateia. Neste gesto ela se desmonta e ao mesmo tempo faz o que a personagem queria que sua mãe tivesse feito com ela). Belíssimo trabalho.

Kelzy Ecard é a gigante da hora. Vindo de grandes e diferentes trabalhos no teatro – ora cantando Chico Buarque, ora ao lado de um marido/namorado que encara uma doença terminal – Kelzy se firma como uma das grandes e melhores atrizes deste momento. Nesta peça, ela, a mãe, varia entre gargalhada e choro compulsivo. Muda drasticamente entre um esquecimento para uma lembrança através de uma música. Não reconhece a filha e trata uma desconhecida como tal. A cena em que se perde na rua, esquece o Caminho de Casa, é minimalista, forte, séria, emocionante, tensa e a plateia fica atônica, doida para ajudar aquela senhora perdida – em todos os sentidos. Kelzy traz uma verdade poucas vezes vista em teatro ultimamente. Ela não interpreta, vive. Sofre verdadeiramente. E é essa verdade intensa que faz deste espetáculo um de seus trabalhos mais marcantes na sua trajetória de 35 anos de carreira como atriz. (Ela não se lembra, mas a conheci no Projac. Eu, analista de projetos, ela, produtora de artes. Ali ela já era essa mulher amada por todos e competente).

Aplausos ainda para as produtoras Christina Carvalho e Natália Dias, neste projeto do Teatro de Nós Produções Artísticas; Catharina Rocha e Paula Catunda sempre com bons espetáculos nas mãos na assessoria de imprensa; Nathália Alves nas Mídias Sociais, e Janaina Ferreira na Identidade Visual.

A gente sabe quando um trabalho é construído com amor e união. Sabemos quando uma peça foi pensada desde a primeira leitura até a estreia nos mínimos detalhes. O que vem do palco para o público é forte, intenso e real. O abraço coletivo da equipe na hora dos aplausos diz tudo.

Caminho de Casa nos faz pensar em como estamos cuidando dos nossos parentes que estão perdendo as memórias, suas lembranças, e faz com que aprendamos a ter paciência e tornar a vida deles menos confusa. É o teatro que eu gosto: verdadeiro, humano, vivo, que traz reflexão e aponta caminhos. Imperdível, impecável e inesquecível. Aplausos de pé. Viva o teatro!!


terça-feira, 10 de março de 2026

ÓPERA DO MALANDRO

Senta que lá vem textão.

Em 2003 assistir à Ópera do Malandro, no Teatro Carlos Gomes (RJ) me causou fortes emoções. Comprei o CD da peça e sei as músicas de cor. Em 2014 assisti a outra montagem, basicamente só com homens. E agora marquei presença na montagem de Ópera do Malando, em São Paulo, sob a batuta e visão de Jorge Farjalla, reafirmando o musical brasileiro como um dos melhores de todos os tempos.

É impressionante como, a cada tempo que passa, a obra fica mais perto da vida real! Máfia entre os deputados, traficante na Faria Lima, bicheiro entre vereadores... a cada novo vazamento do celular de um tal dono de banco novamente preso, detalhes sórdidos de planos de espancamento de jornalista e funcionária e chantagens com ministros supremos e presidentes de partidos, aparecem na mídia e conferem à Ópera do Malandro o selo de “Brasil como ele é”.

O saguão do Teatro Renault está totalmente instagramável e tem uma lojinha para comprar memória física! A sala de apresentação tem um cenário à vista, uma grande porta de galpão onde acontecerá a história, incluindo aí as letras em vermelho formando o título da peça. 

Ao começar, um personagem se abaixa e saúda o seu orixá. Suas palmas abrem caminhos, pedem autorização. De certa forma o som lembra as cajadadas de Molière. É um pedido, “nos abençoe”, “nos proteja”.

A porta se abre e vemos a cenografia com escadas e caixas que se movem, atendendo perfeitamente ao propósito da peça. O cenário é assinado por Cris Azner, com adereços e objetos de Clau Carmo. A arte gráfica é de Kelson Spalato .

E já no primeiro número musical chega o elenco num figurino de muito bom gosto, moderno, criativo e cheio de cores, referências, criação de Úga Agú e Jorge Farjalla. O que chama a atenção é o visagismo de Sinome Momo com rostos pintados de base branca e cores fortes nos olhos e bocas. A referência ao teatro brechtiano é clara. A maquiagem funciona como uma máscara, tornando os personagens meio humanos, ajudando a segurar a iluminação, mantendo as expressões dos atores visíveis mesmo a distância. Gabriele Souza é a designer de luz que assina com competência e qualidade a iluminação do que assistimos. 

Na direção musical, Gui Leal nos oferece logo na abertura um mix do que virá somado a “O Sino da Igrejinha” e “Vai Malandra”. Somos brindados com os malandros dançando tango com Vogue de Madonna. Vem daí uma rica referência não só da icônica apresentação de Madonna no MTV Awards com o início do movimento vogue das casas de travestis e trans – como podemos ver no seriado Pose. Folhetim e Muchachas de Copacabana são tocadas na sequência, valorizando não só Fichinha como todas as garotas do bordel. 

Falar dos malandros é aplaudir Isaac Belfort por seu Barrabás, Mateus Ribeiro, ótimo com voz de fumante Phillip Morris, Patrick Amstalden como o bebum Johnny Walker, Paulo Viel por seu Big Ben e Hipólyto por seu General Eletric. Falar das muchachas é aplaudir Marya Bravo por sua Dóris Pelanca, Ana Luiza Ferraira pela divertida Fichinha, Larissa Grajauskas por Jussara Pé de Anjo, Marina Mathey por sua Dorinha Tubão – que administra o bordel, Carol Botelho por sua Mimi Bibelô e Giu Mallen por Shirley Paquete.

A direção coreográfica de Leilane Teles nos faz querer estar no palco e dançar com o elenco.

Com a inclusão duas músicas de Chico Buarque na história, “Atrás da Porta” e “Tatuagem”, em um belíssimo dueto entre Lúcia (Andrezza Massei) e Teresinha (Carol Costa), Jorge Farjalla traz a antiga namorada para o primeiro ato, mostrando que o malandro a dispensa para ficar com filha do cafetão. Isso é ótimo, pois “faltava” nas montagens anteriores a existência prévia de Lúcia na vida de Max (José Loreto). Ela aparecia “do nada” no segundo ato como uma “louca” dizendo que ele a abandonara e cantava as vantagens que ela tinha sobre ele duelando com Teresinha. Agora ficou completo! O designer de som é de Randal Juliano.

Valéria Barcellos nos traz a melhor Geni já vistas nos palcos brasileiros. Desde sua entrada com uma gigantesca bolsa de muambas, fazendo uma cena divertidíssima com Vitória Régia (Totia Meireles) e Fernandes Duran (Ernani Moraes), onde entuba um perfume meia boca dizendo que é o suprassumo da riqueza, e a nouveau riche (como diria minha avó), ou a emergente (como chamaria aquela colunista social carioca nos anos 90), cai como uma patinha. Sem falar no salamaleque que Geni faz para contar do casamento da filha do casal com o malandro Max. Seu número musical, talvez o mais icônico da peça, é plena emoção. Nunca ante na história deste país eu me levantei a plenos pulmões e gritei “bravo” e aplaudi de pé um número musical NO MEIO DA PEÇA!! Refaço os gritos e aplausos para Valéria Barcellos.

Nesta montagem, as mulheres se mostram muito mais poderosas que os homens. Teresinha (Carol Costa – sempre segura e firme, atenta, ágil, sábia, além de cantar que é uma beleza!) manda em Max e nos funcionários depois que ele foge; Vitória (Totia Meireles – perfeita, voz, atuação, canto... céus como sou fã!) manda no marido e nas meninas do bordel. Geni (Valéria Barcellos) manda em todo mundo. Fichinha (Ana Luiza Ferreira – ótima, engraçada e canta que é uma beleza!) manda em Max e sua chegada é de abalar quarteirão. Doris Pelanca (Marya Bravo – seu número cantado em Alemão é belíssimo!) se revolta, vai pra sarjeta e retorna por cima com uma mensagem importante. São todas as Pombas Giras presentes e homenageadas em cena.

Na parte masculina do elenco, Amaury Lorenzo nos engana com tamanha perfeição com seu delegado Chaves/Tigrão que ficamos na dúvida se era ele mesmo ou um ator substituto! Adorei isso! Que beleza de atuação! José Loreto é o Max Overseas que podemos ver em qualquer esquina, rua, calçada da Lapa carioca. Loreto se estiver caracterizado e andar pelo famoso bairro, vão achar que é um dos milhares de personagens conhecidos da região e isto é um grande mérito do seu trabalho. Ernani Moraes é o proprio mafioso Fernandes Duran com sua voz de trovão e humor debochado mandando em todos, menos nelas! São o povo da rua, os Exus.

A visão, direção, proposta, talento, estudos de Jorge Farjalla para esta montagem é o que torna o espetáculo um acontecimento único no teatro brasileiro. Mais seguro e firme, mais maduro e culto, embora as referências sejam imensas, nesta peça ele é objetivo e, embora não captemos todas as mensagens, 90% do que se passa em sua cabeça é abocanhado pelo público. E agora, para ele, o futuro espetáculo se torna um desafio maior ainda. Sempre subindo degraus cada vez maiores, a sua visão de Ópera do Malando é um salto grande em qualidade, competência e talento. Tudo que foi escrito neste texto é da cabeça dele, o mérito das belezas todas, é dele. O que virá depois? Um monólogo com uma cadeira e um pino de luz? 

Graças aos irmãos Daniella e Marco Griesi, parceiros do Farjalla em suas propostas artísticas, temos esta peça em cartaz em São Paulo até o próximo domingo. O patrocínio da Petrobras é a prova de que o Brasil sabe fazer musicais de qualidade igual e acima dos musicais da Broadway.

Finalizei este texto sem ler o programa da peça. Agora que o li, é exatamente o que lá está escrito por Jorge Farjalla e é exatamente o que eu vi no palco. Portanto... escrito em palavras e posto em cena! Agora é correr pro Teatro Renault pois só tem mais um fim de semana. Assista e me agradeça depois. Viva o teatro musical brasileiro! Vida longa à Ópera do Malandro! Viva o teatro!

sábado, 15 de novembro de 2025

O HOMEM DECOMPOSTO

A humanidade está louca. E dividida. Em três partes, não necessariamente iguais. Os que pensam no coletivo como forma de melhorar a vida, os que pensam em enriquecer e fazem do coletivo sua força escrava e os que vivem sem lado nenhum e tentam sobreviver da melhor forma possível. É como diz o prólogo de Antígona, escrito por Millôr Fernandes “...Ainda não acreditamos que no final / O bem sempre triunfa. Mas já começamos a crer, emocionados, / Que, no fim, o mal nem sempre vence. O mais difícil da luta / É descobrir o lado em que lutar.”

Pois eu escolhi lutar ao lado daqueles que pensam no coletivo como salvação para a humanidade. A visão “outro lado”, na briga do “nós contra eles”, acha que o lado de lá é louco, é lixo, é decomposto. E não é uma visão exclusiva do lado de cá, do lado que pertenço. Os “do lado de lá” também pensam que nós, os progressistas, os coletivistas, estamos loucos, decompostos, lixo.

Pensamentos numa hora dessas?

Em julho de 2012 chegou ao Brasil o livro “Teatro Decomposto ou o Homem-lixo”, da obra de Matéi Visniec publicada em francês. Matéi Visniec é dramaturgo e teatrólogo. Meu primeiro contato foi na montagem de O Espectador, no teatro Poeira, com consagradas atrizes brasileiras. Paixão imediata pelo texto.

Agora, está em cartaz, no Teatro Laura Alvim, da casa que leva também o nome, o espetáculo O Homem Decomposto. A peça tem alguns dos monólogos e diálogos contidos no livro “Teatro Decomposto ou o Homem-Lixo” e, diz a apresentação do livro “(...) não se contenta em construir uma ordem e um retrato, e sim em tocar diretamente a matéria viva do cotidiano”. Interpretei esta frase como um “vamos mostrar a humanidade de uma forma desconstruída e decomposta, tal qual olhamos para aquela turma do lado de lá, que reza para pneus e coloca celular na cabeça chamando os ET’s... Para o espetáculo, a tradução utilizada é de Luiza Jatobá, a tradutora do livro.

Ary Coslov é o diretor. Quando se abrem as cortinas, temos uma representação da Santa Ceia, de Michelângelo e a cena por si só já chama a atenção e nos induz a acreditar que o homem é o mesmo desde os primórdios, épocas sem tecnologia, onde o “retrato” (a obra, a foto, a imagem) era captada por alguem que já sabia da decomposição e lixo do humano (cada qual a sua época...) Ary nos traz uma direção extremamente moderna, ágil, divertida e criativa. Enlouquece os atores nos seus monólogos e os descansa com direito até água nas cadeiras laterais. Referências musicais, visuais e jornalísticas estão à disposição do público. Como a já citada reza para ETs com telefones na cabeça, o que leva a plateia a entrar no jogo proposto. Um trabalho belíssimo de direção unitária, de conjunto, de imagens ditas e sublinhadas, delicadas, elegantes e seguindo à risca a proposta de Matéi “monólogos que convidam a construir um conjunto, o autor quis impor ao diretor uma única restrição: a liberdade absoluta”. Ary está livre para criar, porém rígido no texto. Os atores seguem linha por linha, palavra por palavra e está aí a beleza desta direção: movimento e palavra.

Colaborações impecáveis da equipe técnica: Wanderley Gomes nos figurinos macacão (operários da arte!), a luz sempre perfeita de Aurélio de Simoni, a trilha sonora de Ary Coslov e Gabriel Fomm, a direção de movimento de Lavinia Bizzotto e Alexandre Maia.

O mais que talentoso elenco, impecáveis nas falas, na composição de personagens, na postura cênica, no amor à arte, respeito ao colega, seguem metodicamente as ordens do autor e do diretor: liberdade absoluta, embora vigiados!

Guida Viana (é sempre um prazer e um aprendizado vê-la atuando) nos faz gargalhar e emocionar com O Homem Cavalo e a vendedora do produto Lavagem Cerebral.

Dani Barros (cada dia melhor, mais completa!) nos envolve com borboletas imaginárias de A Louca Tranquila e divide com a plateia o prazer deste texto.

Marcelo Aquino nos faz perder o fôlego com O Corredor e se compadecer com o homem das maqunias que cata corpos.

Junior Vieira (excelente em todos os momentos que atua!) nos faz viver como um Homem da Maçã e o Revolucionário (Voz na luz ofuscante)

E, não menos importante, o gigante Mário Borges com sua defesa de O Homem do Círculo, que “abre os trabalhos” dos monólogos, emocionando e criando imediata empatia do público. E encerra com chave de ouro num grito silencioso dentro do círculo construído no inicio da peça, fechando as pontas, “linkando” tudo que foi dito.

Teatro é o nome que se dá a O Homem Decomposto. Tudo que se pode localizar em livros de arte dramática, dicionário de teatro, estão em cena. Todos os itens existentes em todas as escolas de teatro pelo país estão nesta peça. É obrigatório cada estudante, cada amente do teatro, cada apaixonado por texto e oratória assistir ao espetáculo, pois envolve o espectador de tal maneira, e com tanta subjetividade e subtextos, que fica claro o que se quer mostrar: a que ponto a humanidade é capaz de chegar – e se já não estivermos à beira do “chegamos”...

O Homem Decomposto tem comédia, tem ironia, tem interpretação de texto, tem sabedoria, tem arte, tem trabalho de grupo, tem amor envolvido. A direção de produção é de Celso Lemos com Bárbara Montes Claros na produção executiva. Um espetáculo de altíssimo nível, inteligente e sábio. Desejo mais que vida longa, que seja assistido por muitos, assimilado por todos. E, quem sabe, num futuro, possamos deixar de ver o outro lado como homens descompostos e nos tornemos uma só sociedade, coletiva, una e progressista. Aplausos de pé. Viva o Teatro!