terça-feira, 10 de março de 2026

ÓPERA DO MALANDRO

Senta que lá vem textão.

Em 2003 assistir à Ópera do Malandro, no Teatro Carlos Gomes (RJ) me causou fortes emoções. Comprei o CD da peça e sei as músicas de cor. Em 2014 assisti a outra montagem, basicamente só com homens. E agora marquei presença na montagem de Ópera do Malando, em São Paulo, sob a batuta e visão de Jorge Farjalla, reafirmando o musical brasileiro como um dos melhores de todos os tempos.

É impressionante como, a cada tempo que passa, a obra fica mais perto da vida real! Máfia entre os deputados, traficante na Faria Lima, bicheiro entre vereadores... a cada novo vazamento do celular de um tal dono de banco novamente preso, detalhes sórdidos de planos de espancamento de jornalista e funcionária e chantagens com ministros supremos e presidentes de partidos, aparecem na mídia e conferem à Ópera do Malandro o selo de “Brasil como ele é”.

O saguão do Teatro Renault está totalmente instagramável e tem uma lojinha para comprar memória física! A sala de apresentação tem um cenário à vista, uma grande porta de galpão onde acontecerá a história, incluindo aí as letras em vermelho formando o título da peça. 

Ao começar, um personagem se abaixa e saúda o seu orixá. Suas palmas abrem caminhos, pedem autorização. De certa forma o som lembra as cajadadas de Molière. É um pedido, “nos abençoe”, “nos proteja”.

A porta se abre e vemos a cenografia com escadas e caixas que se movem, atendendo perfeitamente ao propósito da peça. O cenário é assinado por Cris Azner, com adereços e objetos de Clau Carmo. A arte gráfica é de Kelson Spalato .

E já no primeiro número musical chega o elenco num figurino de muito bom gosto, moderno, criativo e cheio de cores, referências, criação de Úga Agú e Jorge Farjalla. O que chama a atenção é o visagismo de Sinome Momo com rostos pintados de base branca e cores fortes nos olhos e bocas. A referência ao teatro brechtiano é clara. A maquiagem funciona como uma máscara, tornando os personagens meio humanos, ajudando a segurar a iluminação, mantendo as expressões dos atores visíveis mesmo a distância. Gabriele Souza é a designer de luz que assina com competência e qualidade a iluminação do que assistimos. 

Na direção musical, Gui Leal nos oferece logo na abertura um mix do que virá somado a “O Sino da Igrejinha” e “Vai Malandra”. Somos brindados com os malandros dançando tango com Vogue de Madonna. Vem daí uma rica referência não só da icônica apresentação de Madonna no MTV Awards com o início do movimento vogue das casas de travestis e trans – como podemos ver no seriado Pose. Folhetim e Muchachas de Copacabana são tocadas na sequência, valorizando não só Fichinha como todas as garotas do bordel. 

Falar dos malandros é aplaudir Isaac Belfort por seu Barrabás, Mateus Ribeiro, ótimo com voz de fumante Phillip Morris, Patrick Amstalden como o bebum Johnny Walker, Paulo Viel por seu Big Ben e Hipólyto por seu General Eletric. Falar das muchachas é aplaudir Marya Bravo por sua Dóris Pelanca, Ana Luiza Ferraira pela divertida Fichinha, Larissa Grajauskas por Jussara Pé de Anjo, Marina Mathey por sua Dorinha Tubão – que administra o bordel, Carol Botelho por sua Mimi Bibelô e Giu Mallen por Shirley Paquete.

A direção coreográfica de Leilane Teles nos faz querer estar no palco e dançar com o elenco.

Com a inclusão duas músicas de Chico Buarque na história, “Atrás da Porta” e “Tatuagem”, em um belíssimo dueto entre Lúcia (Andrezza Massei) e Teresinha (Carol Costa), Jorge Farjalla traz a antiga namorada para o primeiro ato, mostrando que o malandro a dispensa para ficar com filha do cafetão. Isso é ótimo, pois “faltava” nas montagens anteriores a existência prévia de Lúcia na vida de Max (José Loreto). Ela aparecia “do nada” no segundo ato como uma “louca” dizendo que ele a abandonara e cantava as vantagens que ela tinha sobre ele duelando com Teresinha. Agora ficou completo! O designer de som é de Randal Juliano.

Valéria Barcellos nos traz a melhor Geni já vistas nos palcos brasileiros. Desde sua entrada com uma gigantesca bolsa de muambas, fazendo uma cena divertidíssima com Vitória Régia (Totia Meireles) e Fernandes Duran (Ernani Moraes), onde entuba um perfume meia boca dizendo que é o suprassumo da riqueza, e a nouveau riche (como diria minha avó), ou a emergente (como chamaria aquela colunista social carioca nos anos 90), cai como uma patinha. Sem falar no salamaleque que Geni faz para contar do casamento da filha do casal com o malandro Max. Seu número musical, talvez o mais icônico da peça, é plena emoção. Nunca ante na história deste país eu me levantei a plenos pulmões e gritei “bravo” e aplaudi de pé um número musical NO MEIO DA PEÇA!! Refaço os gritos e aplausos para Valéria Barcellos.

Nesta montagem, as mulheres se mostram muito mais poderosas que os homens. Teresinha (Carol Costa – sempre segura e firme, atenta, ágil, sábia, além de cantar que é uma beleza!) manda em Max e nos funcionários depois que ele foge; Vitória (Totia Meireles – perfeita, voz, atuação, canto... céus como sou fã!) manda no marido e nas meninas do bordel. Geni (Valéria Barcellos) manda em todo mundo. Fichinha (Ana Luiza Ferreira – ótima, engraçada e canta que é uma beleza!) manda em Max e sua chegada é de abalar quarteirão. Doris Pelanca (Marya Bravo – seu número cantado em Alemão é belíssimo!) se revolta, vai pra sarjeta e retorna por cima com uma mensagem importante. São todas as Pombas Giras presentes e homenageadas em cena.

Na parte masculina do elenco, Amaury Lorenzo nos engana com tamanha perfeição com seu delegado Chaves/Tigrão que ficamos na dúvida se era ele mesmo ou um ator substituto! Adorei isso! Que beleza de atuação! José Loreto é o Max Overseas que podemos ver em qualquer esquina, rua, calçada da Lapa carioca. Loreto se estiver caracterizado e andar pelo famoso bairro, vão achar que é um dos milhares de personagens conhecidos da região e isto é um grande mérito do seu trabalho. Ernani Moraes é o proprio mafioso Fernandes Duran com sua voz de trovão e humor debochado mandando em todos, menos nelas! São o povo da rua, os Exus.

A visão, direção, proposta, talento, estudos de Jorge Farjalla para esta montagem é o que torna o espetáculo um acontecimento único no teatro brasileiro. Mais seguro e firme, mais maduro e culto, embora as referências sejam imensas, nesta peça ele é objetivo e, embora não captemos todas as mensagens, 90% do que se passa em sua cabeça é abocanhado pelo público. E agora, para ele, o futuro espetáculo se torna um desafio maior ainda. Sempre subindo degraus cada vez maiores, a sua visão de Ópera do Malando é um salto grande em qualidade, competência e talento. Tudo que foi escrito neste texto é da cabeça dele, o mérito das belezas todas, é dele. O que virá depois? Um monólogo com uma cadeira e um pino de luz? 

Graças aos irmãos Daniella e Marco Griesi, parceiros do Farjalla em suas propostas artísticas, temos esta peça em cartaz em São Paulo até o próximo domingo. O patrocínio da Petrobras é a prova de que o Brasil sabe fazer musicais de qualidade igual e acima dos musicais da Broadway.

Finalizei este texto sem ler o programa da peça. Agora que o li, é exatamente o que lá está escrito por Jorge Farjalla e é exatamente o que eu vi no palco. Portanto... escrito em palavras e posto em cena! Agora é correr pro Teatro Renault pois só tem mais um fim de semana. Assista e me agradeça depois. Viva o teatro musical brasileiro! Vida longa à Ópera do Malandro! Viva o teatro!

sábado, 15 de novembro de 2025

O HOMEM DECOMPOSTO

A humanidade está louca. E dividida. Em três partes, não necessariamente iguais. Os que pensam no coletivo como forma de melhorar a vida, os que pensam em enriquecer e fazem do coletivo sua força escrava e os que vivem sem lado nenhum e tentam sobreviver da melhor forma possível. É como diz o prólogo de Antígona, escrito por Millôr Fernandes “...Ainda não acreditamos que no final / O bem sempre triunfa. Mas já começamos a crer, emocionados, / Que, no fim, o mal nem sempre vence. O mais difícil da luta / É descobrir o lado em que lutar.”

Pois eu escolhi lutar ao lado daqueles que pensam no coletivo como salvação para a humanidade. A visão “outro lado”, na briga do “nós contra eles”, acha que o lado de lá é louco, é lixo, é decomposto. E não é uma visão exclusiva do lado de cá, do lado que pertenço. Os “do lado de lá” também pensam que nós, os progressistas, os coletivistas, estamos loucos, decompostos, lixo.

Pensamentos numa hora dessas?

Em julho de 2012 chegou ao Brasil o livro “Teatro Decomposto ou o Homem-lixo”, da obra de Matéi Visniec publicada em francês. Matéi Visniec é dramaturgo e teatrólogo. Meu primeiro contato foi na montagem de O Espectador, no teatro Poeira, com consagradas atrizes brasileiras. Paixão imediata pelo texto.

Agora, está em cartaz, no Teatro Laura Alvim, da casa que leva também o nome, o espetáculo O Homem Decomposto. A peça tem alguns dos monólogos e diálogos contidos no livro “Teatro Decomposto ou o Homem-Lixo” e, diz a apresentação do livro “(...) não se contenta em construir uma ordem e um retrato, e sim em tocar diretamente a matéria viva do cotidiano”. Interpretei esta frase como um “vamos mostrar a humanidade de uma forma desconstruída e decomposta, tal qual olhamos para aquela turma do lado de lá, que reza para pneus e coloca celular na cabeça chamando os ET’s... Para o espetáculo, a tradução utilizada é de Luiza Jatobá, a tradutora do livro.

Ary Coslov é o diretor. Quando se abrem as cortinas, temos uma representação da Santa Ceia, de Michelângelo e a cena por si só já chama a atenção e nos induz a acreditar que o homem é o mesmo desde os primórdios, épocas sem tecnologia, onde o “retrato” (a obra, a foto, a imagem) era captada por alguem que já sabia da decomposição e lixo do humano (cada qual a sua época...) Ary nos traz uma direção extremamente moderna, ágil, divertida e criativa. Enlouquece os atores nos seus monólogos e os descansa com direito até água nas cadeiras laterais. Referências musicais, visuais e jornalísticas estão à disposição do público. Como a já citada reza para ETs com telefones na cabeça, o que leva a plateia a entrar no jogo proposto. Um trabalho belíssimo de direção unitária, de conjunto, de imagens ditas e sublinhadas, delicadas, elegantes e seguindo à risca a proposta de Matéi “monólogos que convidam a construir um conjunto, o autor quis impor ao diretor uma única restrição: a liberdade absoluta”. Ary está livre para criar, porém rígido no texto. Os atores seguem linha por linha, palavra por palavra e está aí a beleza desta direção: movimento e palavra.

Colaborações impecáveis da equipe técnica: Wanderley Gomes nos figurinos macacão (operários da arte!), a luz sempre perfeita de Aurélio de Simoni, a trilha sonora de Ary Coslov e Gabriel Fomm, a direção de movimento de Lavinia Bizzotto e Alexandre Maia.

O mais que talentoso elenco, impecáveis nas falas, na composição de personagens, na postura cênica, no amor à arte, respeito ao colega, seguem metodicamente as ordens do autor e do diretor: liberdade absoluta, embora vigiados!

Guida Viana (é sempre um prazer e um aprendizado vê-la atuando) nos faz gargalhar e emocionar com O Homem Cavalo e a vendedora do produto Lavagem Cerebral.

Dani Barros (cada dia melhor, mais completa!) nos envolve com borboletas imaginárias de A Louca Tranquila e divide com a plateia o prazer deste texto.

Marcelo Aquino nos faz perder o fôlego com O Corredor e se compadecer com o homem das maqunias que cata corpos.

Junior Vieira (excelente em todos os momentos que atua!) nos faz viver como um Homem da Maçã e o Revolucionário (Voz na luz ofuscante)

E, não menos importante, o gigante Mário Borges com sua defesa de O Homem do Círculo, que “abre os trabalhos” dos monólogos, emocionando e criando imediata empatia do público. E encerra com chave de ouro num grito silencioso dentro do círculo construído no inicio da peça, fechando as pontas, “linkando” tudo que foi dito.

Teatro é o nome que se dá a O Homem Decomposto. Tudo que se pode localizar em livros de arte dramática, dicionário de teatro, estão em cena. Todos os itens existentes em todas as escolas de teatro pelo país estão nesta peça. É obrigatório cada estudante, cada amente do teatro, cada apaixonado por texto e oratória assistir ao espetáculo, pois envolve o espectador de tal maneira, e com tanta subjetividade e subtextos, que fica claro o que se quer mostrar: a que ponto a humanidade é capaz de chegar – e se já não estivermos à beira do “chegamos”...

O Homem Decomposto tem comédia, tem ironia, tem interpretação de texto, tem sabedoria, tem arte, tem trabalho de grupo, tem amor envolvido. A direção de produção é de Celso Lemos com Bárbara Montes Claros na produção executiva. Um espetáculo de altíssimo nível, inteligente e sábio. Desejo mais que vida longa, que seja assistido por muitos, assimilado por todos. E, quem sabe, num futuro, possamos deixar de ver o outro lado como homens descompostos e nos tornemos uma só sociedade, coletiva, una e progressista. Aplausos de pé. Viva o Teatro!

domingo, 19 de outubro de 2025

O LEGADO

Ainda não tive contato direto com a obra de Caio Fernando Abreu. Apesar de ter dois livros dele em casa, não os li, ainda. Ok, admito esta a falha de caráter de leitor... Com justificativas, me defendo. Minha paixão por romances policiais é intensa. Descobrir o assassino me tira da vida real assoberbada e atribulada. Então, Caio Fernando Abreu foi ficando ali, presente porém na espera pelo dia de ser selecionado para habitar a cabeceira da cama, local onde os livros da vez dormem ao meu lado.

Os anos 80 e 90 são marcados pela a epidemia da AIDS que tomou conta do mundo e matou um bocado de gente. Entre elas: Lauro Corona, Sandra Bréa e Renato Russo. Cazuza fez questão de que acompanhássemos seu dia a dia e sua luta. Madonna entrou na defesa dos portadores, Princesa Diana mudou a história ao abraçar doentes no hospital. O filme Filadélfia tomou as telas do mundo abrindo espaço para o assunto. A médica Márcia Rachid lançou Sentença de Vida em 2020 contando histórias vividas por ela em seus atendimentos, desde a chegada do vírus até o acompanhamento de tratamentos. O livro virou peça em 2023 pelas mãos de Gilberto Gawronski. E Caio Fernando Abreu também foi uma das milhares de vidas ceifadas.

Está em cartaz no teatro de arena do SESC Copacabana, O Legado. Escrita e dirigida por Renato Farias, o espetáculo é um encontro de três gerações de homens gays e as relações com a AIDS. Como aquela epidemia afetou e afeta ainda hoje o mundo. O que Caio Fernando Abreu nos ensinou sobre a forma de amar de sua época, e como seus escritos reverberam até hoje, é o seu legado. E a peça conta algumas histórias de amor, relações que podem ser saudáveis mesmo convivendo com o vírus, a sexualidade nos dias de ontem e de hoje e as relações entre a geração que viu amigos partirem e a geração atual que sabe das histórias, mas não viveu o medo e as partidas. Numa mistura de ficção com realidade, o texto parte da encenação de peça “Pela Noite” (texto de Caio Fernando Abreu) e as cartas trocadas entre o ator que propôs a montagem há 30 anos e agora, nesta nova montagem que é uma celebração dos 30 anos da Companhia de Teatro Íntimo.

O texto é bem dinâmico, ágil, atual, bem pensado e escrito com qualidade. Os diálogos rápidos tem passagens bem emotivas sem cair no óbvio ou no melodrama. É muito bom ver o texto do Renato Farias sendo dito numa arena repleta de pessoas, pois o texto comunica, informa, exemplifica, construindo uma narrativa e uma carpintaria teatral que leva o público a ficar grudado no que está sendo dito.

É também do proprio Renato a direção da peça. E é excelente. Com várias cenas caprichadas, tanto de amor, quanto de brigas, entradas triunfais de personagens, discussões, tudo é bem ensaiado e representado. Renato se preocupa com a dicção do elenco e conseguimos entender tudo o que todos estão dizendo, coisa rara hoje em dia! A cena dos três amigos de geração 80 que ora são representados pela geração 2000, juntos, os 9 em cena, ora um, ora outro, mudando as falas, mas mantendo personagens, no momento em que contam os motivos pelos quais – os da geração 80 – evitam tocar no assunto AIDS, é digna de prêmio! Renato também aproveita tudo o que o mundo gay dispõe e apresenta nos dias de hoje: shows de drag, vogue, drogas, sexo grupal, amores medrosos, desafios, invejas, corpos sarados versus corpos normais, enfim, todo o universo gay está sendo muito bem representado nesta história-legado-retrato. 

Orlando Caldeira assina uma direção de movimento perfeita para as épocas retratadas na peça, a disposição dos atores e seus movimentos corporais em todos os momentos. Um belíssimo casamento entre direção e direção de movimento.

A direção de arte de Thiago Mendonça nos mostra, na entrada do público, um monte de livros num centro de um gigantesco tapete vermelho, mas este monte se desfaz em pequenas partes que viram pufes com compartimentos secretos escondendo objetos de cena. Ótimo! O figurino de Ùga agÚ é bastante confortável e referencial. A marca Adidas das calças para todos mostra que, embora corpos diferentes, todos se juntam em algo que os faz iguais. Destaque para o figurino do show que Márcio Januário e Aleh Silva dão no palco, como se estivéssemos numa cena do seriado Pose. A luz de Daniela Sanches é belíssima, como sempre, e contribui imensamente nas cenas de sexo, brigas, dores e amores. Tudo isso abraçado pela trilha sonora de Diego Moraes.

O elenco de 9 atores: Dodi Cardoso, Márcio Januário, Renato Farias, Alain Catein, Orlando Caldeira, Thiago Mendonça, Aleh Silva, Gabriel Contente e João Manoel também está dividido por gerações diferentes, mas nada disso importa, pois todos, ao seu momento, têm espaço para dar o recado. E todos, todos, todos, estão totalmente entregues, seguros, com o texto na ponta da língua, sabem as entonações de cada palavra e como se comportarem cenicamente. São colegas e cúmplices neste espetáculo. Estão ali mostrando seus trabalhos individuais, mas o coletivo é quem ganha. São amigos encenando uma história de todos. São pedaços de um grupo social que ainda sofre separadamente com preconceitos e ataques e se defendem juntos, pois, sabemos que “nada é mais forte do que todos nós juntos”. Se pudesse dar um leve destaque, apenas indicar dois atores que me fizeram captar as atenções, digo que Dodi Cardoso e Thiago Mendonça fizeram meus olhos ficarem mais atentos e emocionados em algumas cenas, gestos e ações. 

Citei rapidamente o seriado Pose, que também abriu portas colocando pessoas trans como protagonistas de um seriado de grande impacto cujo tema é similar à peça. Mas é de Caio Fernando Abreu que vem a grande inspiração, pois, no fundo, no fundo, o que está se falando em cena é sobre amor, parceria, relações verdadeiras entre homens, parcerias de anos, cuja maior vontade e acerto é contar uma história que sirva para ontem, hoje e amanhã.

O Legado fala sobre todos os enfrentamentos de pessoas LGBTQIA+ e merece ser visto por aqueles que ainda resistem a acreditar que somos todos iguais perante a lei e que ninguém merece ser discriminado por qualquer que seja a sua condição. Então, vá já para o SESC Copacabana, engula seu preconceito, abra-se para uma história divertida, emocionante, inteligente e impecavelmente contada por esses 9 atores, pela equipe criativa, pela dramaturgia e direção e por uma produção da Bloco Pi Produções (com Damiana Inês na direção de produção e Wesley Mey e Alain Catein na produção executiva) de alto nível. Aplauso de pé. Viva o teatro!


sexta-feira, 10 de outubro de 2025

DONATELLO

Alois Alzheimer, o psiquiatra que nomeou a doença que descobriu, está enterrado em Frankfurt, na Alemanha. Ele faleceu em 1915 e foi sepultado no cemitério de Westend. Eu estive lá em 2017 com Oliver Erb, amigo alemão, em um passeio – sim, alemães passeiam e se exercitam no cemitério – e mentalmente cumprimentei Alzheimer ao passar por seu jazigo.

A notícia é fresquinha: “O Alzheimer antes da memória falhar. Exames são capazes de detectar alterações biológicas que levam à doença e ajudar na prevenção. Os novos testes não detectam o Alzheimer diretamente, mas rastreiam alterações químicas associadas ao processo neurodegenerativo. (...) “O Alzheimer é responsável por 60 a 70% dos casos de demência, afetando (...) cerca de 1,5 milhão de brasileiros. Com o envelhecimento populacional, prevê-se que o número de casos triplique até 2050, tornando o diagnóstico precoce não apenas um avanço científico, mas uma necessidade de saúde pública.” (O Globo, 10/10/2025 – Receita de Médico – Ludhmila Hajjar).

Está em cartaz no Teatro Gláucio Gil, quintas e sextas às 20h, o espetáculo Donatello. Vitor Rocha é o autor do texto, das letras e o ator da história sobre o momento entre o início da doença, a evolução, como ficam os familiares, e como isto impacta na vida de quem sofre com o mal e dos parentes próximos. A peça já começa falando sobre lembranças, memórias e recordações. Vitor busca apoio da plateia para palavras e nomes que marcam a vida de alguns espectadores. As lembranças vão surgindo em nós antes mesmo do inicio da história. E nos 5 primeiros minutos, eu já estava me controlando para não virar um vale de lágrimas ali mesmo, sem nem mergulhar no que viria a seguir.

O personagem principal começa como criança que sempre vai a uma sorveteria com o avô. Ambos têm no sorvete seu “alimento” favorito. E é justamente neste local de boas memórias e sabores que a doença se manifesta pela primeira vez. Ao entender a situação, dias depois, resolve ajudá-lo, não com a sua recuperação, mas não perder as suas memórias, lembranças. O que ele faz? Associa sabores de sorvete a lembranças boas. Assim, ao tomar aquele sorvete, daquele sabor, imediatamente se recordará do momento importante registrado e nominado. Memórias. 

Vemos o menino sofrer com a mudança do comportamento da família, principalmente do avô. Vemos o menino se tornar adolescente, adulto, começar a trabalhar, abrir mão dos estudos para cuidar do avô, ajudar em casa. A convivência com seu pai, que está sofrendo a mudança do pai dele (avô do menino) é tratada na peça de forma bonita e verdadeira. 

A que ponto, qual a quantidade de amor que temos e podemos doar para alguém em troca de nossa vida própria? O personagem se doa para o avô de uma forma tão humana e tão bonita que nos faz pensar o quanto ruim e desatentos somos com nossos pais, parentes, amigos, amores. 

A cada nova história vivida pelo personagem, a cada boa memória construída, um sabor de sorvete é associado a ela. 

O cenário, composto de móveis de madeira (mesa, cadeira, chapeleiro/cabideiro) é o necessário para contar aquela história. Ainda temos uma bicicleta que funciona muito para dar movimento e objetos/adereços de cena, com destaque para a mini-bicicleta que é uma lindeza! O figurino é parte integrante da história, pois o avô é representado por um casaco/capote. Sempre que o personagem pega aquele capote, sabemos que o avô está presente. Tanto o cenário quanto o figurino, não achei na ficha técnica o nome de quem assina, mas Batata Rodrigues assina a cenotécnica. Então, aplausos para você! Wagner Pinto assina uma iluminação certeira, com recortes e momentos de introspecção favoráveis ao desenrolar da história. Muito boa.

Vitor também criou as letras das músicas que completam o texto da peça. Criativas, divertidas e com um perfeito toque de espetáculos musicais, divide com Elton Towersey a ótima trilha sonora da peça, muito bem tocada por Felipe Sushi no teclado. Felipe também participa em alguns momentos da peça como elenco de apoio em perfeita sintonia com Vitor. O design de som é de Paulo Altafim.

Cabe à Victória Ariante a direção da peça. Victória cria ótimas marcas, usa todo o espaço cênico, aproveita os móveis, abusa da boa vontade do pianista! Mantém a forma doce e contida do menino ao longo de toda peça, mesmo o personagem se envelhecendo. A gente percebe que o menino ficou parado naquela sorveteria no dia do primeiro esquecimento do avô. Victória constrói o espetáculo antes do terceiro sinal e faz com que todos nós transbordemos de emoção durante e depois da peça. 

E Vitor Rocha, com sua atuação, nos apresenta e presenteia com um menino que acompanha o desenrolar da história sob os olhos do adolescente e do adulto. E isto passa para a plateia. Não sei se o objetivo era esse, ou se o mega carisma de Vitor Rocha nos faz acreditar que o menino da história é parte dele (do ator). Carisma e talento de um ator, autor e letrista que já já estará nas telas de cinema ou streaming, e ainda com espetáculos consagrados nos teatros brasileiros.

Vitor e Victória... Vitoriosos. (Trocadilho ridículo da piada de salão daquele tio do pavê...)

Donatello é um monólogo musical onde a emoção, a memória, o talento, delicadeza, afeto, descoberta e sensibilidade andam de mãos dadas. Confesso que tive que me segurar várias vezes para o choro não vazar pelos olhos. Mas por dentro, eu tava... E isto é um ótimo sinal. A peça toca, comunica, explica, envolve. Todos temos memórias e sentimos aquele medo de perde-las. O que somos sem nossas histórias, conhecimentos adquiridos, vivência, experiências guardadas? Meu segundo maior medo – altura sem proteção vence – é perder a memória. A peça usa o Alzheimer para falar sobre comportamento, conexões e como devemos usar e abusar de estar perto de quem escolhemos e nos escolheram para estar do lado.

Aplausos também para Lucas Drummond (diretor de produção) e Ana Paula Marinho (produtora executiva) que trazem esta beleza de espetáculo para o Rio de Janeiro, no ótimo Teatro Gláucio Gil. Sem sombra de dúvida, um dos melhores espetáculos que já passaram por esse palco. Emoção garantida, sentimentos renovados. Aplausos de pé. Viva o teatro!!