Um dia sem sorriso é um dia desperdiçado (Charles Chaplin).
Abençoado aquele que faz com que seus companheiros riam (Alcorão). Os Deuses
adoram uma boa piada (Aristóteles). Se estas três referencias não foram
suficientes, posso citar tantas outras mais para te fazer crer que só o humor
salva. Dizem que é o amor, mas, pra mim, uma gargalhada salva uma vida.
Está em cartaz, no Theatro Net Rio, "Mamonas”, um musical-homenagem
ao grupo Mamonas Assassinas, contando a história e a trajetória dos garotos de
Guarulhos, como se juntaram e os caminhos que os levaram até a fama. Assinado
por Walter Daguerre, baseado ou não na frase de Aristóteles, a peça começa com
os Deuses escalando os próprios Mamonas Assassinas para voltarem à Terra e
trazer alegria e risos nesse momento “tão dreprê” que vivemos em nosso país, em
nossa cidade. Abusando de referencias modernas, bom humor e inteligência, o
texto já pode ser considerado um dos melhores escritos para musicais
biográficos, uma vez que zomba do próprio gênero, utiliza palavras em moda
(spoiler), sem perder as referências da época em que o grupo fez sucesso.
A trilha sonora, conhecida e bastante cantada por todos -
Mina, seus cabelo é da hora – quem nunca? – contém outras referências dos anos
90, como Capital Inicial, Titãs, Paralamas e Renato Russo. Ótima sacada para
contextualizar a época em que se passam as ações.
A cenografia de Nello Marrese, craque, dá leveza e
facilidade ao espetáculo, onde os personagens principais precisam correr,
pular, gastar energia. Destaque para as cortinas com projeções (vídeos da
Honeypot Filmes). O figurino de Fábio Namatame recria a época e a irreverência dos
cantores com perfeição. O design de luz, assinado por Wagner Freire, acerta nos
momentos que alterna dramaturgia com show. Destaque para o design de maquiagem
e cabelo, de Anderson Bueno, que recriou um Jô Soares perfeito no palco. Ainda
merecem aplausos a direção musical de Miguel Briamonte e seus músicos fiéis.
José Possi Neto, mestre na arte dramática, um dos melhores
diretores de teatro que acompanho, deixa os atores à vontade para que, assim
como os Mamonas, sejam o mais ousados e brincalhões em cena, porém sua força
como diretor está em manter o alto astral da peça todo o tempo, com mãos de
ferro, mesmo nos momentos de bagunça, sabendo que o mais importante é mostrar a
garra dos novos talentos em cena, fazer a plateia se divertir e contar uma
história interrompida abruptamente pelas mãos dos Deuses. Ótimo trabalho de
direção, muito bem auxiliado pelas coreografias de Vanessa Guillen.
Os atores Bernardo Berro e Patrick Amstalden estão
fantásticos! Por momentos roubam a cena dos Mamonas com suas interpretações de
Jô Soares e Anjo Gabriel, respectivamente. Ainda compõem o elenco Marco
Azevedo, Rafael Aragão, Maria Clara Manesco, Nina Sato, Reginaldo Sama, Vanessa
Mello, André Odin e Gabriela Germano.
Sem duvida alguma a grande descoberta são os cinco atores
que incorporam os Mamonas Assassinas: Ruy Brissac (Dinho) dá show, emociona
quando entra. É o Dinho no palco. Yudi Tamashiro (Bento), o japa da turma,
carismático e divertidíssimo. Adriano Tunes (Julio), Arthur Ienzura (Sérgio) e
Elcio Bonazzi (Samuel) seguram a peteca do grupo e suas interpretações estão à
altura dos fantásticos Mamonas. Sem duvida um grupo de jovens atores dedicados,
competentes e talentosos que nos faz ter a certeza de que a renovação dos
atores de teatro é necessária e que estamos cada vez mais assistindo a
profissionais da mais alta classe sendo formados e se apresentando. Aplausos
emocionados.
A irreverência dos Mamonas Assassinas, o politicamente
incorreto, a liberdade de expressão, muito policiados e criticados hoje em dia
pela patrulha da Web é muito bem vindo nesse momento borocoxô do brasileiro.
A falta de esperança é geral. A crise
nos pega com força, os teatros andam vazios, assim como lojas que fecham,
cinemas às moscas, livros empoeirados esperando compradores. Lógico que um ou
outro gênero se salva da crise: os
youtubers. Graças à eles, os teatros andam recebendo novas plateias e contamos
com essa turma para divulgar o verdadeiro teatro.
Que imenso prazer assistir ao musical sobre os Mamonas
Assassinas. Como é bom relembrar os anos 90, trazer a alegria sem compromisso
para o palco. Mostrar aos jovens que o humor independe de época, e sim boa
vontade. A liberdade de expressão necessária.
Aplausos para os produtores Rose Danley, Túlio Rivadavia e
Marcio Sam, para o patrocinador Banco do Brasil Seguridade, que acreditaram no
projeto, tiveram forças para levantar equipe e apoios e trazer para nós este
espetáculo brilhante, com o auxílio da necessária Lei Rouanet do Ministério da
Cultura.
Já deu a sua risada hoje? Aproveite o fim de semana que se
aproxima e vá ao teatro. Vá rir. Viva o teatro, viva Mamonas Assassinas!
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