sexta-feira, 15 de maio de 2026

HÉTERO SIGILO

Quatro vezes na minha vida tive a mesma sensação: não estou sozinho no mundo. 

Fora de ordem, aqui estão: quando assisti ao comício do meu candidato à presidência da república e vi que pensamos todos iguais no coletivo; quando entrei para a associação de produtores culturais e vi que todos sofremos igual como produtores; quando entrei pela primeira vez em uma boate LGBT e vi que existiam pessoas iguais a mim; e ontem, ao assistir ao espetáculo Hétero Sigilo e senti novamente várias emoções (que eu tinha guardado só comigo) e vi que eu não passei por aquilo tudo sozinho. Aconteceu também com outras pessoas exatamente as mesmas coisas!

Depois da temporada de estreia de grande sucesso, o monólogo Hetero Sigilo está em cartaz no Teatro Gláucio Gil em curta temporada. Corram!

Com texto e atuação de Bernardo Dugin, a peça conta a história de um menino que se descobre feliz, se envergonha e aprende que sua liberdade é vigiada, aceita e age como a sociedade ordena, sofre, vira o oposto do que sua natureza manda, sofre, se engana, acha um caminho de fuga para viver duas vidas paralelas, sofre, se revolta, mas... aos poucos... começa a descobrir que o amor e a liberdade de ser quem se é, é maior e mais prazeroso do que seguir o que a sociedade, pais, família, irmãos te obrigam a ser.

Uma vez em um jantar em família, uma tia me perguntou: E as namoradas? E eu respondi: a senhora é cega ou está me sacaneando? A gargalhada dos primos parceiros, a vergonha dos adultos, a minha segurança, a confiança dos meus primos menores em mim, a aprovação de tios modernos, a desconversa, o meu empoderamento naquele dia foram sentidos por todos.

O texto de Hétero Sigilo é muito bem escrito. Contado em parcelas de anos-faixas de idades, Bernado Dugin (autor) traz uma dramaturgia que vai crescendo ao longo da história do personagem, onde as mudanças são vistas, sentidas a presenciadas por todos. Sabemos onde vamos chegar, mas não sabemos como nem o fim da história. O famoso arco dramático tão falado nos livros de roteiro, a mesma imagem do início igual a do fim da peça, a construção das frases, a linha da história, os pequenos conflitos, tudo é muito bem amarrado, pensado e escrito. Ótimo o texto.

No palco, um gigantesco espermatozoide ao fundo, duas cadeiras, uma mesa com rodinhas e objetos compõem a cena. Nello Marrese (mestre!) assina a cenografia e o figurino, composto por roupas leves e confortáveis, em tom neutro, valorizando o corpo e a história. A luz de Daniela Sanches traz recortes, quadrados, focos e colorido muito bem casada com cenografia e direção. A trilha sonora de Frederico Puppi é sempre elegante, certeira e necessária.

João Fonseca é o diretor. (Acho que João Fonseca é o diretor de teatro mais citado neste blog-opinião... seria ele um dos meus favoritos?). Em Hetero Sigilo, João traz aquela direção que eu admiro: respeitosa, calma, marcas leves e necessárias para contar a história da evolução do personagem. Cadeiras que viram personagens e bancos de carro, a ocupação do espaço permitindo uma movimentação justificada. É delicado e preocupado com a verdade cênica. Lindo. Junto com João, é destaque também a direção de movimento de Vanessa Garcia com as ótimas coreografias de danças, briga e sexo. André Celant é o assistente de direção e ajuda a amarrar as pontas para que a peça fique redondinha.

Bernardo Dugin é o ator. Sua atuação é segura, tranquila, confiante e conta uma história importante. A mudança do personagem percebemos ao longo da peça. De criança-viada a adolescente problema, de hétero agressivo a hétero sigilo, de homem social para homo defensor da sua natureza. É linda a cena da descoberta do amor no amigo igual na escola e a dor de ter excluído o amigo por pressão social. É divertida a cena de roubar a namorada do desafeto. É intensa a cena do seu personagem brinquedo-sexual-fuga. É comovente a sua liberação do pai. É emocionante a sua descoberta do amor. Bernardo não tem pressa para contar a história. Ele vibra ao poder passar cada pedacinho da história com a certeza de que a mensagem chegou ao público. Sua atuação é merecedora de aplausos de pé.

Na produção, O Delirante Produções. Azul Scorzelli na assistência de produção, Paula Catunda e Catharina Rocha na assessoria de imprensa sempre com ótimos espetáculos à mão.

Hetero Sigilo é um pseudônimo muito comum em salas de batepapo, aplicativos de encontros, redes sociais voltadas para alivio imediato sexual. É fetiche recorrente, antigo e atual. E é também título de um espetáculo de teatro onde mostra que não se está sozinho no mundo silenciado pela sociedade. É tudo verdade. Entendedores entenderão! Vida longa a Hétero Sigilo! Aplausos de pé. Viva o teatro!


sexta-feira, 3 de abril de 2026

CAMINHO DE CASA

Sempre começo a escrever sobre uma peça que eu gostei, e recomendo, contando como o espetáculo se ligou na minha vida e porque merece estar neste blog - seleção de peças de teatro imperdíveis.

Deve existir algum estudo sobre comportamentos erráticos e perturbadores de pais com seus filhos, mães com suas filhas, quando jovens, que são devidamente explicados pelo desenvolvimento de alguma doença fisica desses pais na vida madura ou na terceira idade.

Não tive uma relação boa com meu pai, mas, no fim das contas, eu cuidei dele quando precisou. Na minha familia também existe caso de mãe que maltratava a filha, mas foi ela mesma quem cuidou da mãe no fim.

Sigo no TikTok uma nora que cuida da sogra com Alzheimer. A paciência da nora é maior do que a de Jó! O bacana do perfil é mostrar como agir em momentos de irritação, esquecimento e lembrança.

Está em cartaz na Arena do SESC Copacabana, Caminho de Casa. A peça é composta de recortes da vida entre mãe e filha. Mãe que perde a memória, fica confusa, agride, se desculpa, não reconhece, repete varias vezes a mesma coisa... e uma filha, que suporta o momento da mãe da melhor forma que pode. Em sua juventude, a mãe agredia verbalmente a filha, acusava de preferir ao pai, jogava na cara da filha o “tudo que fiz por você” o tempo todo. Vemos a evolução da doença, idas ao médico, embates, a paciencia da filha no limite, as cobranças e as mágoas. A filha tem tudo para abandonar a mãe, mas é ela quem cuida quando a mãe perde seu bem mais precioso, a sua memória.

O texto, de Renata Mizhari é ótimo. O inicio da mãe rememorando os numeros de telefone, já sabendo que irá esquece-los algum dia, o parcelamento dos momentos presente, passado, sala de espera de médico, faz com que a dramaturgia não siga uma linha lógica, mas isso pouco importa, pois a cada pequeno momento, a cada pequeno embate, a cada situação, temos uma micro-dramaturgia que se liga num todo. É de emocionar mesmo algumas falas ditas pelas personagens e Renata tem o dom de usar o dia a dia, o coloquial, de uma forma belíssima no teatro.

O cenário de Tuca Benvenutti é composto de objetos necessários para contar a história com uma ótima presença de um bebedouro que permite mostrar o esquecimento, acalmar os ânimos e, ao mesmo tempo, saciar a sede das atrizes!! Cadeiras e plantas são objetos da história: sala de espera, sala de casa, plantas são personagens. A mesa com o microfone parece aquele local onde os atendentes ficam sentados chamando o numero da senha do paciente e dizendo a sala do consultório a ser ocupada! – recentemente passei por isto com minha mãe, então a referência está mais que fresquinha na cabeça!!

O figurino de Teresa Abreu, único, é elegante, leve e ao mesmo tempo sóbrio para a mãe e branco para a filha, que reflete luz, ilumina, indica pureza. A iluminação de Nina Balbi ajuda a contar a história com corredores, focos e mudança de tom entre presente-passado-consultório. Ótimo trabalho. Temos ainda a luxuosa direção de movimento de Laura Sami que cria junto com as atrizes micro expressões faciais e ao mesmo tempo largos movimentos corporais. Azulllllll cria literalmente uma trilha sonora do começo ao fim. O som do dia a dia, o som da sala de espera, as músicas que trazem memória. Tudo funciona.

Miwa Yanagizawa é a diretora. Um trabalho minucioso, certeiro. Em vários momentos da peça observamos as atrizes seguras com o texto e uma dinâmica de cena bem construída para um espaço de arena. Tem duas cenas que me deixaram boquiaberto tamanha simplicidade e profundidade. A primeira, consultório de psicólogo. Embora narrado pela filha, duas plantas são colocadas lado a lado em frente à mesa de centro. Em determinado momento, é solicitado que a mãe saia para que a filha possa conversar com a psicóloga. Uma das plantas é trocada de local, sendo estacionada bem distante, como se a filha simplesmente estivesse re-arrumando a casa. Simbólico e consciente. Outra cena, a filha sentada na sala de espera aguardando a chamada da senha, olha e murmura para a mãe sentada distante. Gestos e palavras ditas apenas com os lábios, sem som. A cada chamado da filha, a mãe vira o rosto, como uma criança pirracenta. As duas se entendem, nós, público, entendemos tudo!! Uma beleza!! Sem falar na condução da história onde o afeto, carinho, raiva e mágoa estão presentes o tempo todo nas entonações e caminhadas. Um trabalho sensível e competente. Adessa Martins é a diretora assistente.

Juliana França é a filha. Tem aqui um desafio grande. Contracenar com a gigante Kelzy Ecard e dar vida à uma filha magoada, preocupada, dividida entre perdão e rancor, amor não correspondido e ao mesmo tempo doido para ser compartilhado. Juliana não se rende à personagem muito menos à colega de cena, encara os dois desafios com qualidade, técnica, sensibilidade e muita coragem. Um ótimo trabalho de composição. (No fim da peça, ficou clara a sua dedicação e angústia quando ela correu para abraçar a propria filha que estava na plateia. Neste gesto ela se desmonta e ao mesmo tempo faz o que a personagem queria que sua mãe tivesse feito com ela). Belíssimo trabalho.

Kelzy Ecard é a gigante da hora. Vindo de grandes e diferentes trabalhos no teatro – ora cantando Chico Buarque, ora ao lado de um marido/namorado que encara uma doença terminal – Kelzy se firma como uma das grandes e melhores atrizes deste momento. Nesta peça, ela, a mãe, varia entre gargalhada e choro compulsivo. Muda drasticamente entre um esquecimento para uma lembrança através de uma música. Não reconhece a filha e trata uma desconhecida como tal. A cena em que se perde na rua, esquece o Caminho de Casa, é minimalista, forte, séria, emocionante, tensa e a plateia fica atônica, doida para ajudar aquela senhora perdida – em todos os sentidos. Kelzy traz uma verdade poucas vezes vista em teatro ultimamente. Ela não interpreta, vive. Sofre verdadeiramente. E é essa verdade intensa que faz deste espetáculo um de seus trabalhos mais marcantes na sua trajetória de 35 anos de carreira como atriz. (Ela não se lembra, mas a conheci no Projac. Eu, analista de projetos, ela, produtora de artes. Ali ela já era essa mulher amada por todos e competente).

Aplausos ainda para as produtoras Christina Carvalho e Natália Dias, neste projeto do Teatro de Nós Produções Artísticas; Catharina Rocha e Paula Catunda sempre com bons espetáculos nas mãos na assessoria de imprensa; Nathália Alves nas Mídias Sociais, e Janaina Ferreira na Identidade Visual.

A gente sabe quando um trabalho é construído com amor e união. Sabemos quando uma peça foi pensada desde a primeira leitura até a estreia nos mínimos detalhes. O que vem do palco para o público é forte, intenso e real. O abraço coletivo da equipe na hora dos aplausos diz tudo.

Caminho de Casa nos faz pensar em como estamos cuidando dos nossos parentes que estão perdendo as memórias, suas lembranças, e faz com que aprendamos a ter paciência e tornar a vida deles menos confusa. É o teatro que eu gosto: verdadeiro, humano, vivo, que traz reflexão e aponta caminhos. Imperdível, impecável e inesquecível. Aplausos de pé. Viva o teatro!!


terça-feira, 10 de março de 2026

ÓPERA DO MALANDRO

Senta que lá vem textão.

Em 2003 assistir à Ópera do Malandro, no Teatro Carlos Gomes (RJ) me causou fortes emoções. Comprei o CD da peça e sei as músicas de cor. Em 2014 assisti a outra montagem, basicamente só com homens. E agora marquei presença na montagem de Ópera do Malando, em São Paulo, sob a batuta e visão de Jorge Farjalla, reafirmando o musical brasileiro como um dos melhores de todos os tempos.

É impressionante como, a cada tempo que passa, a obra fica mais perto da vida real! Máfia entre os deputados, traficante na Faria Lima, bicheiro entre vereadores... a cada novo vazamento do celular de um tal dono de banco novamente preso, detalhes sórdidos de planos de espancamento de jornalista e funcionária e chantagens com ministros supremos e presidentes de partidos, aparecem na mídia e conferem à Ópera do Malandro o selo de “Brasil como ele é”.

O saguão do Teatro Renault está totalmente instagramável e tem uma lojinha para comprar memória física! A sala de apresentação tem um cenário à vista, uma grande porta de galpão onde acontecerá a história, incluindo aí as letras em vermelho formando o título da peça. 

Ao começar, um personagem se abaixa e saúda o seu orixá. Suas palmas abrem caminhos, pedem autorização. De certa forma o som lembra as cajadadas de Molière. É um pedido, “nos abençoe”, “nos proteja”.

A porta se abre e vemos a cenografia com escadas e caixas que se movem, atendendo perfeitamente ao propósito da peça. O cenário é assinado por Cris Azner, com adereços e objetos de Clau Carmo. A arte gráfica é de Kelson Spalato .

E já no primeiro número musical chega o elenco num figurino de muito bom gosto, moderno, criativo e cheio de cores, referências, criação de Úga Agú e Jorge Farjalla. O que chama a atenção é o visagismo de Sinome Momo com rostos pintados de base branca e cores fortes nos olhos e bocas. A referência ao teatro brechtiano é clara. A maquiagem funciona como uma máscara, tornando os personagens meio humanos, ajudando a segurar a iluminação, mantendo as expressões dos atores visíveis mesmo a distância. Gabriele Souza é a designer de luz que assina com competência e qualidade a iluminação do que assistimos. 

Na direção musical, Gui Leal nos oferece logo na abertura um mix do que virá somado a “O Sino da Igrejinha” e “Vai Malandra”. Somos brindados com os malandros dançando tango com Vogue de Madonna. Vem daí uma rica referência não só da icônica apresentação de Madonna no MTV Awards com o início do movimento vogue das casas de travestis e trans – como podemos ver no seriado Pose. Folhetim e Muchachas de Copacabana são tocadas na sequência, valorizando não só Fichinha como todas as garotas do bordel. 

Falar dos malandros é aplaudir Isaac Belfort por seu Barrabás, Mateus Ribeiro, ótimo com voz de fumante Phillip Morris, Patrick Amstalden como o bebum Johnny Walker, Paulo Viel por seu Big Ben e Hipólyto por seu General Eletric. Falar das muchachas é aplaudir Marya Bravo por sua Dóris Pelanca, Ana Luiza Ferraira pela divertida Fichinha, Larissa Grajauskas por Jussara Pé de Anjo, Marina Mathey por sua Dorinha Tubão – que administra o bordel, Carol Botelho por sua Mimi Bibelô e Giu Mallen por Shirley Paquete.

A direção coreográfica de Leilane Teles nos faz querer estar no palco e dançar com o elenco.

Com a inclusão duas músicas de Chico Buarque na história, “Atrás da Porta” e “Tatuagem”, em um belíssimo dueto entre Lúcia (Andrezza Massei) e Teresinha (Carol Costa), Jorge Farjalla traz a antiga namorada para o primeiro ato, mostrando que o malandro a dispensa para ficar com filha do cafetão. Isso é ótimo, pois “faltava” nas montagens anteriores a existência prévia de Lúcia na vida de Max (José Loreto). Ela aparecia “do nada” no segundo ato como uma “louca” dizendo que ele a abandonara e cantava as vantagens que ela tinha sobre ele duelando com Teresinha. Agora ficou completo! O designer de som é de Randal Juliano.

Valéria Barcellos nos traz a melhor Geni já vistas nos palcos brasileiros. Desde sua entrada com uma gigantesca bolsa de muambas, fazendo uma cena divertidíssima com Vitória Régia (Totia Meireles) e Fernandes Duran (Ernani Moraes), onde entuba um perfume meia boca dizendo que é o suprassumo da riqueza, e a nouveau riche (como diria minha avó), ou a emergente (como chamaria aquela colunista social carioca nos anos 90), cai como uma patinha. Sem falar no salamaleque que Geni faz para contar do casamento da filha do casal com o malandro Max. Seu número musical, talvez o mais icônico da peça, é plena emoção. Nunca ante na história deste país eu me levantei a plenos pulmões e gritei “bravo” e aplaudi de pé um número musical NO MEIO DA PEÇA!! Refaço os gritos e aplausos para Valéria Barcellos.

Nesta montagem, as mulheres se mostram muito mais poderosas que os homens. Teresinha (Carol Costa – sempre segura e firme, atenta, ágil, sábia, além de cantar que é uma beleza!) manda em Max e nos funcionários depois que ele foge; Vitória (Totia Meireles – perfeita, voz, atuação, canto... céus como sou fã!) manda no marido e nas meninas do bordel. Geni (Valéria Barcellos) manda em todo mundo. Fichinha (Ana Luiza Ferreira – ótima, engraçada e canta que é uma beleza!) manda em Max e sua chegada é de abalar quarteirão. Doris Pelanca (Marya Bravo – seu número cantado em Alemão é belíssimo!) se revolta, vai pra sarjeta e retorna por cima com uma mensagem importante. São todas as Pombas Giras presentes e homenageadas em cena.

Na parte masculina do elenco, Amaury Lorenzo nos engana com tamanha perfeição com seu delegado Chaves/Tigrão que ficamos na dúvida se era ele mesmo ou um ator substituto! Adorei isso! Que beleza de atuação! José Loreto é o Max Overseas que podemos ver em qualquer esquina, rua, calçada da Lapa carioca. Loreto se estiver caracterizado e andar pelo famoso bairro, vão achar que é um dos milhares de personagens conhecidos da região e isto é um grande mérito do seu trabalho. Ernani Moraes é o proprio mafioso Fernandes Duran com sua voz de trovão e humor debochado mandando em todos, menos nelas! São o povo da rua, os Exus.

A visão, direção, proposta, talento, estudos de Jorge Farjalla para esta montagem é o que torna o espetáculo um acontecimento único no teatro brasileiro. Mais seguro e firme, mais maduro e culto, embora as referências sejam imensas, nesta peça ele é objetivo e, embora não captemos todas as mensagens, 90% do que se passa em sua cabeça é abocanhado pelo público. E agora, para ele, o futuro espetáculo se torna um desafio maior ainda. Sempre subindo degraus cada vez maiores, a sua visão de Ópera do Malando é um salto grande em qualidade, competência e talento. Tudo que foi escrito neste texto é da cabeça dele, o mérito das belezas todas, é dele. O que virá depois? Um monólogo com uma cadeira e um pino de luz? 

Graças aos irmãos Daniella e Marco Griesi, parceiros do Farjalla em suas propostas artísticas, temos esta peça em cartaz em São Paulo até o próximo domingo. O patrocínio da Petrobras é a prova de que o Brasil sabe fazer musicais de qualidade igual e acima dos musicais da Broadway.

Finalizei este texto sem ler o programa da peça. Agora que o li, é exatamente o que lá está escrito por Jorge Farjalla e é exatamente o que eu vi no palco. Portanto... escrito em palavras e posto em cena! Agora é correr pro Teatro Renault pois só tem mais um fim de semana. Assista e me agradeça depois. Viva o teatro musical brasileiro! Vida longa à Ópera do Malandro! Viva o teatro!

sábado, 15 de novembro de 2025

O HOMEM DECOMPOSTO

A humanidade está louca. E dividida. Em três partes, não necessariamente iguais. Os que pensam no coletivo como forma de melhorar a vida, os que pensam em enriquecer e fazem do coletivo sua força escrava e os que vivem sem lado nenhum e tentam sobreviver da melhor forma possível. É como diz o prólogo de Antígona, escrito por Millôr Fernandes “...Ainda não acreditamos que no final / O bem sempre triunfa. Mas já começamos a crer, emocionados, / Que, no fim, o mal nem sempre vence. O mais difícil da luta / É descobrir o lado em que lutar.”

Pois eu escolhi lutar ao lado daqueles que pensam no coletivo como salvação para a humanidade. A visão “outro lado”, na briga do “nós contra eles”, acha que o lado de lá é louco, é lixo, é decomposto. E não é uma visão exclusiva do lado de cá, do lado que pertenço. Os “do lado de lá” também pensam que nós, os progressistas, os coletivistas, estamos loucos, decompostos, lixo.

Pensamentos numa hora dessas?

Em julho de 2012 chegou ao Brasil o livro “Teatro Decomposto ou o Homem-lixo”, da obra de Matéi Visniec publicada em francês. Matéi Visniec é dramaturgo e teatrólogo. Meu primeiro contato foi na montagem de O Espectador, no teatro Poeira, com consagradas atrizes brasileiras. Paixão imediata pelo texto.

Agora, está em cartaz, no Teatro Laura Alvim, da casa que leva também o nome, o espetáculo O Homem Decomposto. A peça tem alguns dos monólogos e diálogos contidos no livro “Teatro Decomposto ou o Homem-Lixo” e, diz a apresentação do livro “(...) não se contenta em construir uma ordem e um retrato, e sim em tocar diretamente a matéria viva do cotidiano”. Interpretei esta frase como um “vamos mostrar a humanidade de uma forma desconstruída e decomposta, tal qual olhamos para aquela turma do lado de lá, que reza para pneus e coloca celular na cabeça chamando os ET’s... Para o espetáculo, a tradução utilizada é de Luiza Jatobá, a tradutora do livro.

Ary Coslov é o diretor. Quando se abrem as cortinas, temos uma representação da Santa Ceia, de Michelângelo e a cena por si só já chama a atenção e nos induz a acreditar que o homem é o mesmo desde os primórdios, épocas sem tecnologia, onde o “retrato” (a obra, a foto, a imagem) era captada por alguem que já sabia da decomposição e lixo do humano (cada qual a sua época...) Ary nos traz uma direção extremamente moderna, ágil, divertida e criativa. Enlouquece os atores nos seus monólogos e os descansa com direito até água nas cadeiras laterais. Referências musicais, visuais e jornalísticas estão à disposição do público. Como a já citada reza para ETs com telefones na cabeça, o que leva a plateia a entrar no jogo proposto. Um trabalho belíssimo de direção unitária, de conjunto, de imagens ditas e sublinhadas, delicadas, elegantes e seguindo à risca a proposta de Matéi “monólogos que convidam a construir um conjunto, o autor quis impor ao diretor uma única restrição: a liberdade absoluta”. Ary está livre para criar, porém rígido no texto. Os atores seguem linha por linha, palavra por palavra e está aí a beleza desta direção: movimento e palavra.

Colaborações impecáveis da equipe técnica: Wanderley Gomes nos figurinos macacão (operários da arte!), a luz sempre perfeita de Aurélio de Simoni, a trilha sonora de Ary Coslov e Gabriel Fomm, a direção de movimento de Lavinia Bizzotto e Alexandre Maia.

O mais que talentoso elenco, impecáveis nas falas, na composição de personagens, na postura cênica, no amor à arte, respeito ao colega, seguem metodicamente as ordens do autor e do diretor: liberdade absoluta, embora vigiados!

Guida Viana (é sempre um prazer e um aprendizado vê-la atuando) nos faz gargalhar e emocionar com O Homem Cavalo e a vendedora do produto Lavagem Cerebral.

Dani Barros (cada dia melhor, mais completa!) nos envolve com borboletas imaginárias de A Louca Tranquila e divide com a plateia o prazer deste texto.

Marcelo Aquino nos faz perder o fôlego com O Corredor e se compadecer com o homem das maqunias que cata corpos.

Junior Vieira (excelente em todos os momentos que atua!) nos faz viver como um Homem da Maçã e o Revolucionário (Voz na luz ofuscante)

E, não menos importante, o gigante Mário Borges com sua defesa de O Homem do Círculo, que “abre os trabalhos” dos monólogos, emocionando e criando imediata empatia do público. E encerra com chave de ouro num grito silencioso dentro do círculo construído no inicio da peça, fechando as pontas, “linkando” tudo que foi dito.

Teatro é o nome que se dá a O Homem Decomposto. Tudo que se pode localizar em livros de arte dramática, dicionário de teatro, estão em cena. Todos os itens existentes em todas as escolas de teatro pelo país estão nesta peça. É obrigatório cada estudante, cada amente do teatro, cada apaixonado por texto e oratória assistir ao espetáculo, pois envolve o espectador de tal maneira, e com tanta subjetividade e subtextos, que fica claro o que se quer mostrar: a que ponto a humanidade é capaz de chegar – e se já não estivermos à beira do “chegamos”...

O Homem Decomposto tem comédia, tem ironia, tem interpretação de texto, tem sabedoria, tem arte, tem trabalho de grupo, tem amor envolvido. A direção de produção é de Celso Lemos com Bárbara Montes Claros na produção executiva. Um espetáculo de altíssimo nível, inteligente e sábio. Desejo mais que vida longa, que seja assistido por muitos, assimilado por todos. E, quem sabe, num futuro, possamos deixar de ver o outro lado como homens descompostos e nos tornemos uma só sociedade, coletiva, una e progressista. Aplausos de pé. Viva o Teatro!

domingo, 19 de outubro de 2025

O LEGADO

Ainda não tive contato direto com a obra de Caio Fernando Abreu. Apesar de ter dois livros dele em casa, não os li, ainda. Ok, admito esta a falha de caráter de leitor... Com justificativas, me defendo. Minha paixão por romances policiais é intensa. Descobrir o assassino me tira da vida real assoberbada e atribulada. Então, Caio Fernando Abreu foi ficando ali, presente porém na espera pelo dia de ser selecionado para habitar a cabeceira da cama, local onde os livros da vez dormem ao meu lado.

Os anos 80 e 90 são marcados pela a epidemia da AIDS que tomou conta do mundo e matou um bocado de gente. Entre elas: Lauro Corona, Sandra Bréa e Renato Russo. Cazuza fez questão de que acompanhássemos seu dia a dia e sua luta. Madonna entrou na defesa dos portadores, Princesa Diana mudou a história ao abraçar doentes no hospital. O filme Filadélfia tomou as telas do mundo abrindo espaço para o assunto. A médica Márcia Rachid lançou Sentença de Vida em 2020 contando histórias vividas por ela em seus atendimentos, desde a chegada do vírus até o acompanhamento de tratamentos. O livro virou peça em 2023 pelas mãos de Gilberto Gawronski. E Caio Fernando Abreu também foi uma das milhares de vidas ceifadas.

Está em cartaz no teatro de arena do SESC Copacabana, O Legado. Escrita e dirigida por Renato Farias, o espetáculo é um encontro de três gerações de homens gays e as relações com a AIDS. Como aquela epidemia afetou e afeta ainda hoje o mundo. O que Caio Fernando Abreu nos ensinou sobre a forma de amar de sua época, e como seus escritos reverberam até hoje, é o seu legado. E a peça conta algumas histórias de amor, relações que podem ser saudáveis mesmo convivendo com o vírus, a sexualidade nos dias de ontem e de hoje e as relações entre a geração que viu amigos partirem e a geração atual que sabe das histórias, mas não viveu o medo e as partidas. Numa mistura de ficção com realidade, o texto parte da encenação de peça “Pela Noite” (texto de Caio Fernando Abreu) e as cartas trocadas entre o ator que propôs a montagem há 30 anos e agora, nesta nova montagem que é uma celebração dos 30 anos da Companhia de Teatro Íntimo.

O texto é bem dinâmico, ágil, atual, bem pensado e escrito com qualidade. Os diálogos rápidos tem passagens bem emotivas sem cair no óbvio ou no melodrama. É muito bom ver o texto do Renato Farias sendo dito numa arena repleta de pessoas, pois o texto comunica, informa, exemplifica, construindo uma narrativa e uma carpintaria teatral que leva o público a ficar grudado no que está sendo dito.

É também do proprio Renato a direção da peça. E é excelente. Com várias cenas caprichadas, tanto de amor, quanto de brigas, entradas triunfais de personagens, discussões, tudo é bem ensaiado e representado. Renato se preocupa com a dicção do elenco e conseguimos entender tudo o que todos estão dizendo, coisa rara hoje em dia! A cena dos três amigos de geração 80 que ora são representados pela geração 2000, juntos, os 9 em cena, ora um, ora outro, mudando as falas, mas mantendo personagens, no momento em que contam os motivos pelos quais – os da geração 80 – evitam tocar no assunto AIDS, é digna de prêmio! Renato também aproveita tudo o que o mundo gay dispõe e apresenta nos dias de hoje: shows de drag, vogue, drogas, sexo grupal, amores medrosos, desafios, invejas, corpos sarados versus corpos normais, enfim, todo o universo gay está sendo muito bem representado nesta história-legado-retrato. 

Orlando Caldeira assina uma direção de movimento perfeita para as épocas retratadas na peça, a disposição dos atores e seus movimentos corporais em todos os momentos. Um belíssimo casamento entre direção e direção de movimento.

A direção de arte de Thiago Mendonça nos mostra, na entrada do público, um monte de livros num centro de um gigantesco tapete vermelho, mas este monte se desfaz em pequenas partes que viram pufes com compartimentos secretos escondendo objetos de cena. Ótimo! O figurino de Ùga agÚ é bastante confortável e referencial. A marca Adidas das calças para todos mostra que, embora corpos diferentes, todos se juntam em algo que os faz iguais. Destaque para o figurino do show que Márcio Januário e Aleh Silva dão no palco, como se estivéssemos numa cena do seriado Pose. A luz de Daniela Sanches é belíssima, como sempre, e contribui imensamente nas cenas de sexo, brigas, dores e amores. Tudo isso abraçado pela trilha sonora de Diego Moraes.

O elenco de 9 atores: Dodi Cardoso, Márcio Januário, Renato Farias, Alain Catein, Orlando Caldeira, Thiago Mendonça, Aleh Silva, Gabriel Contente e João Manoel também está dividido por gerações diferentes, mas nada disso importa, pois todos, ao seu momento, têm espaço para dar o recado. E todos, todos, todos, estão totalmente entregues, seguros, com o texto na ponta da língua, sabem as entonações de cada palavra e como se comportarem cenicamente. São colegas e cúmplices neste espetáculo. Estão ali mostrando seus trabalhos individuais, mas o coletivo é quem ganha. São amigos encenando uma história de todos. São pedaços de um grupo social que ainda sofre separadamente com preconceitos e ataques e se defendem juntos, pois, sabemos que “nada é mais forte do que todos nós juntos”. Se pudesse dar um leve destaque, apenas indicar dois atores que me fizeram captar as atenções, digo que Dodi Cardoso e Thiago Mendonça fizeram meus olhos ficarem mais atentos e emocionados em algumas cenas, gestos e ações. 

Citei rapidamente o seriado Pose, que também abriu portas colocando pessoas trans como protagonistas de um seriado de grande impacto cujo tema é similar à peça. Mas é de Caio Fernando Abreu que vem a grande inspiração, pois, no fundo, no fundo, o que está se falando em cena é sobre amor, parceria, relações verdadeiras entre homens, parcerias de anos, cuja maior vontade e acerto é contar uma história que sirva para ontem, hoje e amanhã.

O Legado fala sobre todos os enfrentamentos de pessoas LGBTQIA+ e merece ser visto por aqueles que ainda resistem a acreditar que somos todos iguais perante a lei e que ninguém merece ser discriminado por qualquer que seja a sua condição. Então, vá já para o SESC Copacabana, engula seu preconceito, abra-se para uma história divertida, emocionante, inteligente e impecavelmente contada por esses 9 atores, pela equipe criativa, pela dramaturgia e direção e por uma produção da Bloco Pi Produções (com Damiana Inês na direção de produção e Wesley Mey e Alain Catein na produção executiva) de alto nível. Aplauso de pé. Viva o teatro!


sexta-feira, 10 de outubro de 2025

DONATELLO

Alois Alzheimer, o psiquiatra que nomeou a doença que descobriu, está enterrado em Frankfurt, na Alemanha. Ele faleceu em 1915 e foi sepultado no cemitério de Westend. Eu estive lá em 2017 com Oliver Erb, amigo alemão, em um passeio – sim, alemães passeiam e se exercitam no cemitério – e mentalmente cumprimentei Alzheimer ao passar por seu jazigo.

A notícia é fresquinha: “O Alzheimer antes da memória falhar. Exames são capazes de detectar alterações biológicas que levam à doença e ajudar na prevenção. Os novos testes não detectam o Alzheimer diretamente, mas rastreiam alterações químicas associadas ao processo neurodegenerativo. (...) “O Alzheimer é responsável por 60 a 70% dos casos de demência, afetando (...) cerca de 1,5 milhão de brasileiros. Com o envelhecimento populacional, prevê-se que o número de casos triplique até 2050, tornando o diagnóstico precoce não apenas um avanço científico, mas uma necessidade de saúde pública.” (O Globo, 10/10/2025 – Receita de Médico – Ludhmila Hajjar).

Está em cartaz no Teatro Gláucio Gil, quintas e sextas às 20h, o espetáculo Donatello. Vitor Rocha é o autor do texto, das letras e o ator da história sobre o momento entre o início da doença, a evolução, como ficam os familiares, e como isto impacta na vida de quem sofre com o mal e dos parentes próximos. A peça já começa falando sobre lembranças, memórias e recordações. Vitor busca apoio da plateia para palavras e nomes que marcam a vida de alguns espectadores. As lembranças vão surgindo em nós antes mesmo do inicio da história. E nos 5 primeiros minutos, eu já estava me controlando para não virar um vale de lágrimas ali mesmo, sem nem mergulhar no que viria a seguir.

O personagem principal começa como criança que sempre vai a uma sorveteria com o avô. Ambos têm no sorvete seu “alimento” favorito. E é justamente neste local de boas memórias e sabores que a doença se manifesta pela primeira vez. Ao entender a situação, dias depois, resolve ajudá-lo, não com a sua recuperação, mas não perder as suas memórias, lembranças. O que ele faz? Associa sabores de sorvete a lembranças boas. Assim, ao tomar aquele sorvete, daquele sabor, imediatamente se recordará do momento importante registrado e nominado. Memórias. 

Vemos o menino sofrer com a mudança do comportamento da família, principalmente do avô. Vemos o menino se tornar adolescente, adulto, começar a trabalhar, abrir mão dos estudos para cuidar do avô, ajudar em casa. A convivência com seu pai, que está sofrendo a mudança do pai dele (avô do menino) é tratada na peça de forma bonita e verdadeira. 

A que ponto, qual a quantidade de amor que temos e podemos doar para alguém em troca de nossa vida própria? O personagem se doa para o avô de uma forma tão humana e tão bonita que nos faz pensar o quanto ruim e desatentos somos com nossos pais, parentes, amigos, amores. 

A cada nova história vivida pelo personagem, a cada boa memória construída, um sabor de sorvete é associado a ela. 

O cenário, composto de móveis de madeira (mesa, cadeira, chapeleiro/cabideiro) é o necessário para contar aquela história. Ainda temos uma bicicleta que funciona muito para dar movimento e objetos/adereços de cena, com destaque para a mini-bicicleta que é uma lindeza! O figurino é parte integrante da história, pois o avô é representado por um casaco/capote. Sempre que o personagem pega aquele capote, sabemos que o avô está presente. Tanto o cenário quanto o figurino, não achei na ficha técnica o nome de quem assina, mas Batata Rodrigues assina a cenotécnica. Então, aplausos para você! Wagner Pinto assina uma iluminação certeira, com recortes e momentos de introspecção favoráveis ao desenrolar da história. Muito boa.

Vitor também criou as letras das músicas que completam o texto da peça. Criativas, divertidas e com um perfeito toque de espetáculos musicais, divide com Elton Towersey a ótima trilha sonora da peça, muito bem tocada por Felipe Sushi no teclado. Felipe também participa em alguns momentos da peça como elenco de apoio em perfeita sintonia com Vitor. O design de som é de Paulo Altafim.

Cabe à Victória Ariante a direção da peça. Victória cria ótimas marcas, usa todo o espaço cênico, aproveita os móveis, abusa da boa vontade do pianista! Mantém a forma doce e contida do menino ao longo de toda peça, mesmo o personagem se envelhecendo. A gente percebe que o menino ficou parado naquela sorveteria no dia do primeiro esquecimento do avô. Victória constrói o espetáculo antes do terceiro sinal e faz com que todos nós transbordemos de emoção durante e depois da peça. 

E Vitor Rocha, com sua atuação, nos apresenta e presenteia com um menino que acompanha o desenrolar da história sob os olhos do adolescente e do adulto. E isto passa para a plateia. Não sei se o objetivo era esse, ou se o mega carisma de Vitor Rocha nos faz acreditar que o menino da história é parte dele (do ator). Carisma e talento de um ator, autor e letrista que já já estará nas telas de cinema ou streaming, e ainda com espetáculos consagrados nos teatros brasileiros.

Vitor e Victória... Vitoriosos. (Trocadilho ridículo da piada de salão daquele tio do pavê...)

Donatello é um monólogo musical onde a emoção, a memória, o talento, delicadeza, afeto, descoberta e sensibilidade andam de mãos dadas. Confesso que tive que me segurar várias vezes para o choro não vazar pelos olhos. Mas por dentro, eu tava... E isto é um ótimo sinal. A peça toca, comunica, explica, envolve. Todos temos memórias e sentimos aquele medo de perde-las. O que somos sem nossas histórias, conhecimentos adquiridos, vivência, experiências guardadas? Meu segundo maior medo – altura sem proteção vence – é perder a memória. A peça usa o Alzheimer para falar sobre comportamento, conexões e como devemos usar e abusar de estar perto de quem escolhemos e nos escolheram para estar do lado.

Aplausos também para Lucas Drummond (diretor de produção) e Ana Paula Marinho (produtora executiva) que trazem esta beleza de espetáculo para o Rio de Janeiro, no ótimo Teatro Gláucio Gil. Sem sombra de dúvida, um dos melhores espetáculos que já passaram por esse palco. Emoção garantida, sentimentos renovados. Aplausos de pé. Viva o teatro!!


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

FUTURO

Qualquer texto escrito ontem já pode ser considerado “de época”. Escrever sobre o agora, o que vemos acontecer, sobre política, televisão, seriado, memes é uma forma de fotografar os acontecimentos. Parece óbvio. E é. Por isso mesmo que escrever sobre o agora, com a linguagem do agora e se manter atual é tão dificil. E é isso que o Leandro Muniz faz com a sua peça Futuro, em cartaz no Teatro Firjan SESI, no centro do Rio. Leandro está tão atual no que diz em cena, que seu espetáculo permanece, por um bom tempo, moderno e atual. Explico.

Futuro é um apanhado de situações divertidas onde um autor se propõe a revisitar um texto antigo e dar modernidade a este. E pede ajuda à inteligência artificial, ao algoritmo. Assim, ideias inusitadas surgem. Numa delas, o autor insere um prompt (é assim que chamamos uma “ordem” que damos a uma inteligência artificial) que busca misturar clássicos aleatórios de sucesso da dramaturgia, do cinema e da literatura, como por exemplo “Tietanic”, misturando Tieta com Titanic, sempre em busca do texto perfeito, do sucesso garantido.

Leandro também é o diretor e brinca consigo mesmo, ora como autor, ora como diretor, ora como personagem, se zombando e se confirmando. Como escrever uma peça de sucesso? Ele pergunta ao algoritmo. Este devolve uma peça onde mistura alguns dos sucessos atuais dos palcos brasileiros: Ficções (com Vera Holtz), Tom na Fazenda e King Kong Fran. Assim, entra em cena uma personagem de peruca loura com máscara de macaco e um balde de terra molhada. Quem assistiu às tres peças citadas aqui, vai sacar a piada do personagem. Não quero dar spoiler, mas tem vários trocadilhos entre memes, palavras da moda, como “prompt”, “bet”, “live”, “burnout”, “selfie”, “ozempic”... se misturando a Nelson Rodrigues e Shakespeare, só para citar alguns autores de sucesso.

É preciso destacar a cena em que o casal resolve lavar roupa suja, pedir desculpa um ao outro, através de prompts solicitados ao Chat GPT ou ao Gemini. O diálogo se dá assim: “escreva um texto onde eu peço desculpas a ele, mas sem ser piegas, porém mantendo a firmeza e uma paixão recolhida”. “Escreva um texto para ela, dizendo o quanto sinto sua falta, mas não deixe transparecer a minha inferioridade nem minha ansiedade”. E nós, plateia, sabemos exatamente o que sairia da Inteligencia Artificial e seria dito no palco. Mesmo sendo apenas prompt.

A busca pela perfeição, seja em corpos ou textos, nos já torna dependentes da Inteligência Artificial. Por falar nisso, você já deu bom dia para a sua favorita hoje? Apenas esta gentileza já consome energia e água.

No palco, o criativo cenário-luz ou a luz-cenário de Paulo Denizot dá o tom da modernidade e atualidade. O figurino de Ticiana Passos coloca os atores neutros e confortáveis. E Fabiano Kieger é sempre brilhante na trilha sonora e nas paródias.

Ainda na parte da direção, Leandro pega toda sua verve de humor acumulado com espetáculos brilhantes do passado e faz os atores de gato e sapato, se revezando em cena quase com esquetes curtos ao estilo “Ta no ar” onde pequeninas cenas se alternavam como se o telespectador estivesse com controle remoto mudando de canal. É importante destacar a parceria da direção com a direção de movimento (Carol Pires) e a assistência de direção (Adassa Martins).

O elenco é de amigos talentosos que merecem todo o aplauso caloroso. Bia Guedes, Dani Fontan, Márcio Machado, Victor Maia e Tulanih. Cada um, ao seu tempo, brilha e arranca gargalhadas. É impossível destacar uma ou outra cena de cada um. Eles aproveitam tudo! E se eu falar de uma cena, vai perder a graça quando você sentar na plateia para assistir. Então, aceite esta dica, já prepare sua mão para bater palmas sem fim para esses atores que são o suprassumo do humor carioca. Ótimos.

Voltando ao inicio confuso deste texto, a peça Futuro parece que fala de algum futuro próximo que irá acontecer, mas Leandro, elenco, equipe criativa, está falando do agora, do já. Este texto não vai envelhecer tão cedo. É dificílimo falar sobre o agora, nesta época em que tudo muda muito rapido. Ontem éramos só viciados em redes sociais, hoje somos dependentes da Inteligência Artificial para quase tudo. Ninguém faz uma busca no google. Já pede ao Chat GPT, Gemini, Grok ou outra de sua preferência, que faça logo uma lista. Desde lugares para visitar numa viagem até textos para uma monografia de fim de curso. A “I.A.” já faz tudo para nós. Mas... a que preço? Até quando vamos passar informações sem sermos dominados fisicamente pelas “I.A.’s”? Está certo chamar as “I.A.” no plural? Serão muitas ou todas serão uma só, nos dominando? Está ai a reflexão que o espetáculo Futuro deixa para nós. Para o já. Para o agora.

Um espetáculo importantíssimo para a cena teatral carioca, falando do futuro no presente, com uma qualidade técnica de alto nível. A produção é de Gabriel Garcia, com fôlego de algoritmo para manter o pé no chão diante de tanta criatividade.

Tenha fôlego e mente aberta para captar as milhares de referências que você verá no palco. Corra para o teatro e divirta-se muito! Viva o Teatro!!


domingo, 5 de outubro de 2025

O FORMIGUEIRO

Quem nunca ficou calado para escutar a briga no apartamento vizinho que atire a primeira pedra. Moro no último andar de um predio familiar onde a área de serviços dá para um vão interno do prédio e parece que o som sobe por ele. Escuta-se de tudo. Do assovio no banho ao barraco entre entes queridos e odiados. Abaixo de mim – e torço para não ser um leitor deste blog! – tem uma mãe que aguenta os destemperos da filha. Eventualmente a mãe cansa das barbaridades e revida. Páh! Não, não é um tabefe, é uma frase dita entre dentes rangidos que atingem a garota no seu ponto mais doloroso. E faz-se o silêncio no vão comum de áreas de serviço, banheiros e cozinhas.

Pois – prepare-se para a frase clichê – como a vida imita a arte (na verdade, arte é reflexo da vida), Thiago Marinho escreveu e dirige a peça O Formigueiro - em cartaz no teatro Gláucio Gil até 27 de outubro – que não pode e não deve ser resumido a um super-barraco, lavação de roupa suja entre irmãos. É muito mais que isso. É a vida real cheia de mentiras brandas que viram problemas graves, desentendimentos de berço, ciúmes disfarçados, fragilidades construídas, autocentrismos exacerbados. No aniversário da mãe, três irmãos se encontram para a comemoração. Outra irmã perde o voo e não chega. Histórias do passado sobem à tona e transbordam, se misturando com histórias presentes que complementam sofrimentos, marcas, dores e afetos mal resolvidos. O texto é ótimo. Mesmo. A construção da peça, que não é fácil, tem momentos de puro humor, dramas bem construídos, longos textos para os atores intercalados com diálogos e “triálogos” muito rápidos. É uma carpintaria bem pensada, onde um futuro desentendimento do meio da peça começa a ser construído na segunda fala do inicio do espetáculo. Técnico e sensível, o texto alterna entre problemas e soluções, acumula mistérios e tudo se resolve no fim, deixando o público ansioso por um novo encontro de todos.

Thiago também assina a direção, com supervisão de João Fonseca (que todos sabem, sou mega fã). Tudo pensado para valorizar as interpretações e o texto. Marcas naturais, não há nada gratuito ali. Desde a abertura da peça, onde a cadeira de rodas da mãe passa de mão em mão, até a presente-ausência da mãe, representada pelo xale e a cadeira de rodas; o vídeo das férias em Guarapari, a disposição do cenário, o figurino casual, a luz certeira, a trilha, o tom do elenco. Thiago, por ser autor, sabe a importância e a desimportância de cada cena e conduz o elenco por um caminho crescente de tensão e libertação de mágoas, sem deixar de mostrar que a cumplicidade daqueles irmãos é verdadeira. É destaque também a positiva parceria com a direção de movimento (Victoria Ariante).

O cenário (Victor Aragão e Clarah Borges) é interessante, pois nos ambienta em um apartamento porém com paredes de escadas independentes, umas mais altas, outras nem tanto, cujo simbolismo fica por conta da interpretação de cada espectador. Na minha doida imaginação, são as escaladas da vida de cada um ali presente. Caminhos que, ora altos, ora baixos, indicam os rumos que tomamos com nossas escolhas. O figurino (Luísa Galvão) é de bom gosto e bastante condizente com aquele momento. A iluminação (Felipe Medeiros) sabe o momento de auxiliar a comédia e deixar o drama mais forte. A trilha sonora (Ifátóki Maíra Freitas) mescla momento de tensão com uma única música conhecida por todos, o que faz o público sair cantando e entendendo tudo que foi mostrado ali.

Os quatro atores, Diego de Abreu (Cláudio Márcio), Lucas Drummond (Victor), Roberta Brisson (Joana) e Rodrigo Fagundes (Luiz) – em ordem alfabética – sabem muito bem como interpretar cada personagem. São atores que acreditam no que dizem, aceitam os sentimentos dos personagens e defendem suas causas com competência. Diego de Abreu é o marido que chega pelo meio da peça e muda a dinâmica do espetáculo trazendo mais humor e barraco para que a “a trama se adense”. Lucas Drummond começa como um personagem frágil, mas que, no desenrolar da peça, se mostra um dos mais sensatos, sensível e ciente da realidade entre os irmãos. Seu personagem vai num arco crescente de força e libertação, mas sem manter o respeito, o carinho e a raiva entre seus irmãos. Roberta Brisson, única mulher em cena, carrega o peso de ser mãe, filha, irmã e talvez a mais forte e sábia entre todos, mas sua força esconde uma baixíssima autoestima, com a vontade gigante de ser livre e viver sua vida, mas escondendo isso na tentativa de controlar a vida dos outros. Mesmo enquanto a sua vida está na beira no precipício. Rodrigo Fagundes, super conhecido por suas atuações em comédias e novelas, sempre no núcleo cômico, aqui tem a belíssima oportunidade de mostrar seu imenso talento em fazer um papel dramático, com todas as nuances disponíveis no texto. E ele aproveita tudo: desde o assoprar de uma colher de pau, brincando se deve ou não provar o strogonoff até a revelação de sua falência pessoal. É dura a vida de quem fica cuidando de parente com doença neurológica. Rodrigo aproveita este personagem para mostrar, mais uma vez, que é brilhante. O quarteto e o conjunto são ótimos.

Segredos de família, histórias que surgem e que não sabemos, sentimentos guardados ao longo de muitos anos, desgostos e invejas. Todos conhecemos alguém que tem, ou mesmo você, caro leitor, deva ter alguma coisa aí guardada contigo. O Formigueiro faz com que a plateia seja aquele vizinho escutando o barraco do lado, olhando pela janela da área de serviço o desenrolar do assunto gritado, sendo cúmplice de tudo aquilo que é dito no palco e apoiando mentalmente ora um, ora outro personagem. E no momento seguinte criticando a ação daquele mesmo personagem que há pouco havia apoiado. Céus! Como somos problemáticos!

O Formigueiro é um exemplo de espetáculo que prende o público, dialoga imediatamente com todos os presentes, reúne uma equipe extremamente competente e apresenta um teatro da melhor qualidade. Imperdível em todos os sentidos. É como se estivéssemos participando de uma terapia coletiva, uma constelação familiar ao vivo e à cores, onde podemos sair do teatro e imediatamente pensar em fazer uma análise de nossa vida familiar e como nos comportamos diante dos parentes.

Corra para o teatro. O Formigueiro chega para se somar à safra de espetáculos de alta qualidade com profundidade, ótimo elenco, equipe criativa competente, texto e direção de grande sabedoria. Aplausos de pé. Viva o teatro!!


domingo, 21 de setembro de 2025

MACBETH LADY MACBETH

“Está nos autos, excelência!”, disse aquele relator do STF para o dissidente colega topetudo ao negar, diante da primeira turma, o óbvio, o documentado e auditável. Houve sim uma tentativa de matar o presidente eleito e o membro do STF. Mandaram até um cabra ficar de tocaia. Mas, na hora H, o putrefato mandatário da nação abortou a missão. Outro exemplo: uma pastora, mãe adotiva de mais de dez crianças, combina com um jovem filho-amante matar o marido para ele assumir o trono de rei da casa. Mataram. Descobriu-se e hoje, a pastora que usava peruca padece numa cela sem maquiagem, sem beleza, sem carinho, sem coberta, num tapete atrás da porta... alias, quase isso. Noticiaram recentemente que a tal está de namoro firme com uma detenta do Talavera Bruce.

Isto posto, tá aí em cima a justificativa para a peça Macbeth Lady Macbeth, em cartaz no Mezanino do SESC Copacabana até dia 05 de outubro. Muitos acham que Shakespeare é um autor do passado, mas ele, visionário, sabe que a humanidade não muda... é a mesma... A peça ainda é atual e fala sobre a banalidade da brutalidade dos dias de hoje. Planeja-se matar um ser humano como quem olha a barata e pensa em pisá-la. Ou se mata um companheiro como quem ataca um mosquito com sua raquete elétrica. 

É assim: “Após retornar vitorioso de uma guerra, o general Macbeth é recebido com a profecia de três bruxas: “Salve, Macbeth, que um dia há de ser rei”. Motivado por essa previsão e em parceria com sua companheira Lady Macbeth, o casal planeja e executa o assassinato do rei Duncan. Macbeth e Lady Macbeth lidam com a realização de seus desejos, mas também com o peso de sentimentos inescapáveis à existência humana.” Esta é a sinopse da peça que assistimos. E tem muito mais aí por trás e vou te contar a seguir.

Quando entramos, os atores estão performando cenas que parecem aleatórias. Movimentos e expressões seguem uma ordem e, ao se repetirem diante da entrada do público, conseguimos saber o que está sendo dito sem dizer. Alegria dela, medo dele, parceria no bater de mãos hi-five em cima. O cenário composto de uma grande mesa e duas cadeiras, é cheio de simbolismo. Sabemos, pelas inúmeras reconstruções de época vistas no cinema, que ali estamos falando de séculos muito passados. Cálices de prata, barro e madeira, frutas verdadeiras e falsas, pratos, folhagens. É lindo o cenário iluminado. Nota-se raízes de plantas nas pernas das mesas, crescidas ao longo do tempo, mostrando a solidez dos reinos, da parceria dos atores, da cumplicidade de Macbeth e sua Lady. O figurino também é bonito e inteligente pois usa materiais modernos para dar vida ao longínquo passado. Destaque para uma capa, um manto, escondido nas costas do ator que é revelado quando Macbeth vira Rei. Ainda sobre a roupa de Macbeth ficou clara a referência da cota de malha medieval. Ambos são assinados por Teresa Abreu. Ótimos.

A luz de Nina Balbi também é muito criativa para um palco cujo teto é baixíssimo! Destaque para os refletores elipsoidais que, sobre uma estrutura escondida com pano preto, iluminam, horizontalmente, toda a mesa no meio do palco, projetando sombras (memórias, fantasmas...) na cortina do fundo. Excelente! 

A trilha de Marcelo H é certeira. Sons, músicas incidentais de tensão, a referência ao filme “A Grande Beleza” na música tocada para o baile oferecido pelos protagonistas “Far L’ Amore” (Bob Sinclar sobre canção original de Raffaella Carrà) – “Aah, a far l'amore cominicia tu” (Aah, a fazer amor comece você), tudo a ver com este casal bandido, assassino e cúmplice!

Miwa Yanagizawa dirige a peça. A sagacidade de usar a intimidade dos atores para os personagens, a cumplicidade, o jeito de falar do dia a dia de ambos, a movimentação... tudo funciona. É durante a peça que notamos que o prólogo, mudo, a performance, nada mais era do que os atores passando a peça no silêncio, uma pré-peça, onde um “cenas dos próximos capítulos” prévio já mostrava para a plateia as marcas e expressões. Ótima também a alternância do texto, ora dito por um ora por outro, o mesmo texto, na carta inicial enviada por Macbeth para sua Lady, o jeito como ele a escreve, o jeito com ela a lê. Também ótima a troca de papeis com mesmo texto no medo do pós-assassinato. Tudo amarrado e pensado. A loucura dos dois, o baile, o romance... Miwa sabe que os atores usam cada vírgula para expressar sentimentos e contar aquela breve história. O coloquial no falar do texto clássico de Shakespeare é o que aproxima o público jovem (somos todos jovens diante do “Bardo de Avon”, apelido dado ao mestre da dramaturgia). Aplausos e mais aplausos.

Cláudia Ventura e Alexandre Dantas, atores da peça. É um deleite vê-los em cena. Tudo que foi escrito acima (perdoem o tamanho...) só é possivel porque os dois são feras, fodas e fantásticos atores. O domínio que têm de si, de sua palavra, de seus sentimentos, de suas expressões faciais e corporais está dito, mostrado, em cena. Tudo é bom. Do olhar cúmplice à piada da masturbação – Macbeth Alexandre masturba sua Lady Cláudia, porém erra o ponto G e acaricia a cadeira... gargalhadas! O carinho de Lady Cláudia quando Macbeth Alexandre se amedronta ao voltar para seu quarto com o punhal ainda sujo de sangue. A proteção de Lady quando seu marido surta na festa... Sou mais que fã e admirador. Sou aluno e aprendiz da dupla. Com esta peça, a sua Cia FaláCia comemora 35 anos de estrada. E muito bem comemorados.

O que vemos não é Macbeth e sua Lady cúmplices. São Cláudia e Alexandre cumplices. Só mesmo um casal que se curte, se admira e embarca na roubada, na aventura e na glória, um casal que tem tamanho lastro e intimidade pode apresentar um espetáculo desta monta, como diria Odette, aquela.

Para finalizar, (UFA!) corram, corram e corram para assistir a este espetáculo. É sensacional por todos os motivos ditos acima. É quando a gente assiste a espetáculos como este que a alegria e a certeza de estar na profissão certa se renova. Excelente. Bravo!


sábado, 20 de setembro de 2025

A PÉROLA NEGRA DO SAMBA

Dia 19 de setembro é o Dia Nacional do Teatro. E, não óbvio, e “quem me conhece sabe”, que o meu lugar favorito no mundo é uma sala de teatro, lá estava eu no Teatro Carlos Gomes, centro do Rio de Janeiro, onde assisti a grandes espetáculos que marcaram minha vida nas plateias, para assistir ao novo musical dirigido e escrito a quatro mãos por Luiz Antonio Pilar e Leonardo Bruno, “A Pérola Negra do Samba”, em homenagem a Jovelina Pérola Negra.

Pilar é um mestre em retratar histórias de grandes artistas, como Candeia, Ataulfo Alves, Leci Brandão, entre outros, não só no teatro, mas também na tv e no cinema. Leonardo Bruno é jornalista especialista em música popular e carnaval. Sem dúvida um encontro de bambas que só podia dar certo.

O musical conta de forma criativa e divertida a história de Jovelina, desde pequena, passando pela juventude até entrar na maior idade onde começa a frequentar rodas de samba e se apaixona pelo pagode. Daí em diante, tem que assistir para saber os mínimos detalhes. É hilária a cena de Jovelina pequena correndo pela casa. Um acerto gigante a criação das personagens Cebola e a Diretora da Gravadora. O roteiro nos faz mergulhar nas canções, emoções e a vida de Jovelina, com sua força de mãe e mulher, seu medo de entrar numa vida de artista e a consagração ainda atual.

O cenário de Lorena Lima é composto de caixotes modernos e coloridos de feira que são muito úteis para o desenrolar da história e formam também um bonito fundo de palco. O figurino de Rute Alvez é ótimo, pois nos remete à vida da cantora, parece ser confortável para o elenco e, além disso, é bem confeccionado. A luz de Daniela Sanches é sempre bonita e aqui temos focos e movings que conduzem a história junto com a direção.

Aplausos de pé para a direção musical de Rodrigo Pirikito e Matheus Camará. Um conjunto de músicos excelente! Além dos dois diretores musicais, temos Daniel Esperança, Wesley Lucas, Pedro Ivo e Thainara Castro em cena. Preparação vocal de Pedro Lima é notada nas vozes perfeitas do elenco.

Pilar também é o diretor e temos neste trabalho uma direção muito minuciosa e caprichada. Percebe-se a partitura da atriz (Fernanda Sabot) fazendo a mãe de Jovelina pedindo ao patrão para trazer a filha para o trabalho, a desenvoltura e imensas possibilidades de Cebola (Thalita Floriano), que hora dialoga com a plateia, ora comanda a banda. Todas as cenas da Diretora da Gravadora são ótimas. O movimento dos caixotes de feira, ora palco, ora queijo, ora esconderijo, a beleza do figurino, a luz mágica, a movimentação e gestuais, tudo está pensado com carinho e aplicado pelo elenco com entrega. Ótimo conjunto e acerto de escolhas. Direção, pra mim, é isto: harmonizar o visual, encaminhar o elenco, ajustar volumes, indicar entonações, fazer a equipe criativa entender a proposta e, mais que apenas executar, deixar todos que trabalham ao seu redor encantados e entregues à sua direção. É isso que sai do palco e chega na plateia. A preparação corporal de Luiza Loroza é percebida nos gestuais e comportamento cênico do elenco.

Thalita Floriano é Cebola de ponta a ponta. Espetacular seu trabalho. Aproveita todas as falas, se diverte, faz a plateia gargalhar e canta muito! Fernanda Sabot é a sensacional Diretora da Gravadora, entre outros personagens, e é a voz afinada que emociona com seu canto forte e emotivo. Thiago Thomé faz de patrão a marido, de apresentador a amigo fiel de Jovelina e canta muito! Thiago sabe que o palco é delas, mas ele pede passagem e se coloca com sabedoria e elegância. Cabe à Verônica Afro Flor o desafio de ser Jovelina Pérola Negra e Afro faz isso com respeito, carinho e emoção. Sua voz forte permite que tenhamos uma homenageada em cena e acreditemos em tudo que ela diz, canta e interpreta. A cena de Jovelina com o namorado/marido/pai dos filhos é linda, bem como Jovelina criança é belíssima. Sem contar nos pagodes inesquecíveis que Afro Flor faz a gente relembrar e agradecer por ter vivido no mundo junto com Jovelina.

A peça começa e nós, público, vamos nos acostumando com aquela história que vai se contando. Vamos entrando na história, a velocidade do texto, a sequencia de músicas, elenco, cenário, luz... quando do palco vemos uma cena que nos faz cair na real: é uma verdade em forma peça de teatro – neste momento a magia está feita. A plateia foi enfeitiçada. Tem duas cenas em que Jovelina é montada diante dos olhos do público. Roupa, peruca, sapato. De menina para mulher. De doméstica para cantora. Ali, aos olhos do público, a magia do teatro acontece. E então... somos todos consumidos pelo espírito do teatro. O teatro é, sem dúvida, o melhor lugar do mundo neste momento.

Dia 19 de setembro, Dia Nacional do Teatro, agora também é o dia de Jovelina Pérola Negra voltar aos palcos cariocas, com seu pagode que não deixa cair, é, é, sem vacilar, sem se exibir, pois ela, Jovelina, elenco, direção, dramaturgia, músicos, equipe criativa, só vieram mostrar o que aprenderam para nós. E saímos todos encantados pelo musical.

Imperdível. Aplausos de pé até as mãos ficarem roxas! Viva o teatro, viva Jovelina Pérola Negra!


segunda-feira, 1 de setembro de 2025

(UM) ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Foi em 2012 quando pisamos em Belo Horizonte com o projeto Lê Pra Mim?, que incentiva a leitura de livros brasileiros. Levamos sempre alunos de escolas públicas e, em BH, realizamos no Museu de Artes e Ofícios. Teuda Bara e Inês Peixoto, divas das artes cênicas, nos deram o prazer e a honra de lerem para as crianças, dentro do Lê Pra Mim?. Como ficamos tão amistosos naquele dia “ines-quecível”,  Sônia de Paula e eu fomos convidados a assistir, dentro do galpão do Grupo Galpão, um ensaio de Teuda em seu monólogo que iria estrear e rodar o país. Me senti um privilegiado, sentado ao lado da equipe do Galpão, para assistir a este ensaio-aula que foi. Sem falar no gigantesco prazer e honra de estar dentro da casa do Grupo Galpão, onde a arte vibra pelas paredes, tetos e estruturas.

O Grupo Galpão costuma convidar diretores para experimentações teatrais que geram – sempre! - grandes sucessos nacionais. Tive o privilégio de assistir a “Romeu e Julieta” de Shakespeare, “Os Gigantes da Montanha” de Luigi Pirandello – ambos dirigidos por Gabriel Vilella (para ver Os Gigantes no Rio, a plateia sentou na escadaria do Monumento aos Pracinhas no Aterro do Flamengo ao ar livre!), “Tio Vânia” dirigido por Yara de Novaes, “Nós” dirigido por Márcio Abreu, “Cabaré Coragem” dirigido por Júlio Maciel, e agora “(Um) Ensaio sobre a cegueira” dirigido por Rodrigo Portella.

Este espaço onde escrevo sobre teatro, me serve como memória do que assisti, gostei e indico para meus 3 leitores assíduos. Posto isso, como diria Odete Roitman, não tenho lastro nem monta para tecer criticas profissionais ao trabalho de ninguém, mas me reservo ao direito de, usando de minha liberdade de expressão, auditável e digital, e sempre dentro das quatro linhas da constituição (entendedores entenderão), opino sobre as peças de teatro que marcam minha vida artística de espectador profissional.

E chego a Saramago, Galpão e Rodrigo Portella. (Um) Ensaio sobre a Cegueira, em cartaz no Rio de Janeiro, no teatro Carlos Gomes, é uma adaptação do livro de José Saramago (que eu li e amo), para o teatro. Já tivemos cinema, mas certamente a adaptação teatral é muito mais rica e forte que o filme. Rodrigo seleciona as partes mais atordoantes do livro, onde os seres humanos são postos à prova o tempo todo, antes, durante e depois de passarem por um surto coletivo de cegueira leitosa branca nos olhos dos personagens. Sem spoiler, leiam Saramago, ou assistam ao filme. Rodrigo Portella faz milagre com muita competência, amor ao livro e, principalmente uma segurança sem tamanho do que apresenta para o público.

Rodrigo Portella também dirige. Senhores. Senhoras. Senhoros... o que assistimos no teatro - no último domingo - é de uma riqueza, beleza, naturalidade, competência, carinho e amor ao teatro, que não se tem como escrever sem usar todo o dicionário de palavras elogiosas. 

É emocionante ver como Rodrigo Portella entende que o Galpão é grupo. Ele inclui a plateia no espetáculo, não casualmente, mas literalmente. Pequena parte do público sobe ao palco para participar das cenas mais marcantes do espetáculo. A cena da volta das mulheres que serviram de moeda de troca por comida – onde todas limpam a que mais sofre – é dessas que ficarão para sempre na memória de quem assiste; a cena imediatamente antes desta, totalmente muda, em que o público fica quase 2 minutos em silêncio, angustiado, compenetrado, assistindo e compartilhando sentimentos; na mistura de narrações com diálogos; no arrumar do cenário vindo do fundo do palco desnudo, enfim... só de escrever, me arrepio. Ao final, a plateia, em convulsão, está toda integrada, conquistada, sequestrada por emoções e questionamentos sobre como os humanos podem passar de “cidadãos de bem” a “demônios da tasmânia”. Uma direção acertada, bem feita, detalhista, inclusiva, competente, ousada e ao mesmo tempo segura e tranquila. A gente sabe o trabalho que dá, mas o que Rodrigo nos mostra, é que tudo foi fácil, rapido e limpo. É impossível ver as dores dos ensaios, pois a alegria, entrega e parceria do Grupo Galpão com a direção é perfeita (não existe outra palavra).

O Grupo Galpão, para mim, é uma das três trupes teatrais que eu mais admiro, respeito, sigo, assisto e sou fã. Todos, absolutamente todos, sabem atuar e como se portar no palco. Não interpretam, eles vivem. Antônio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Luiz Rocha, Lydia Del Picchia, Paulo André / Rodolfo Vaz e Simone Ordones são todos, todos, todos, atores espetaculares. Não tem uma frase dita de maneira errônea, não tem uma entonação diferente do que tem que ser, não tem uma movimentação corporal gratuita. Eles não só sabem o que estão fazendo, como se divertem, são disciplinados, colegas, únicos e fazem com muito amor. É tanto amor no palco entre si, pela profissão que escolheram, pelo público, pelo colega, pelo teatro, pela direção, por Saramago, que a gente sente. Sim, nós, público, sentimos. É energia vibracional vinda do palco. É amor. É teatro.

Cabe citar o cenário de Marcelo Alvarenga, a luz de Rodrigo Marçal com o diretor, o figurino de Gilma Oliveira, os adereços de Rai Bento, o visagismo de Gabriela Domingues, a sensacional Direção Musical de Frederico Puppi e a movimentação dos atores. Toda uma equipe unida e acertada.

É preciso finalizar o texto, mas não consigo parar de pensar na peça que assisti: no final apoteótico onde público e atores saem do Sanatório juntos, nos abraços ao fim da peça, no respeito e carinho com os espectadores, nas lágrimas durante, é tudo sensacional. Tudo.

Me alonguei porque é o Grupo Galpão, é Saramago e é Rodrigo Portella.

Este espetáculo é daqueles em que os deuses do teatro se sentem orgulhosos. É mais que celebração. É amor mesmo. Puro e coletivo. É profissionalismo e arte. Eu só tenho a agradecer por ter assistido, presenciado e vivido esta experiência teatral. Muito, muito, muito obrigado. Aplausos de pé sem fim. Viva o Galpão! Viva o Teatro!