segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Milton Nascimento - Nada será como antes



Tive o prazer de produzir nestes últimos 2 anos projetos de shows musicais. O primeiro, em parceria com a Doris Motta, foi uma homenagem ao maestro Helvius Vilela, chamado “Com você perto de mim”, onde a Bossa Nova esteve presente e o Rio de Janeiro era a estrela maior. O segundo projeto, em parceria com minha sócia na Somar Ideias, Sônia de Paula, chamou-se “As Belas Tardes”, onde a Jovem Guarda marcou presença, em shows gratuitos em São Paulo.

A música sempre esteve na minha vida desde que nasci. Os Caymmi  eram (a ainda são) escutados o tempo todo nas reuniões familiares. Agradeço a Deus a oportunidade de  conhecê-los pessoalmente. Lembro também do dia em que mamãe recebeu um LP duplo de Milton Nascimento, seu compositor favorito. Assim que desembarquei no Rio, de uma breve passagem a trabalho por Salvador (onde pude comemorar os 70 anos de Caetano) levei-a  para assistirmos “Milton Nascimento - Nada será como antes”, no Theatro Net Rio.

Nos moldes do excelente musical “Beatles, Num Céu de Diamantes” (que assisti 5 vezes), esta nova montagem da dupla Charles Möller e Cláudio Botelho homenageia um dos maiores compositores brasileiros. Mineiro de coração, Milton tem neste musical um apanhado dos seus 50 anos de carreira e está tudo lá. Da suas músicas referenciais das fazendas, do tempo, da vida brasileira dos anos 70 e 80. Uma bela e sensível  escolha do repertório, digna dos melhores musicais já exibidos nos palcos cariocas.

Falar sobre Brasil, nossa música, nossa dramaturgia, nossas lendas, parece não agradar muito aos espectadores, que ainda optam por musicais importados, o que leva os patrocinadores e produtoras e preferirem o óbvio, tendo por base sucessos mundiais. Mas nossa música é tão rica, tão eclética e tão peculiar, sem falar no alto nível de composições, que ter o espetáculo “Nada será como antes” em cartaz, é um privilégio. Olhar para o Brasil, para Minas Gerais e para Milton Nascimento é um acerto, um presente, uma homenagem a todos nós. Os ouvidos agradecem!

Na parte técnica, a cenografia (Rogério Falcão) nos remete às casas de fazenda, com pinturas nas paredes lembrando de tudo um pouco: café, abelha, terra... Nos lindos figurinos de Charles Möller a delicadeza das escolhas dos tons e das texturas é um prazer aos olhos. Destaque para a imagem de Maria (Nossa Senhora), no colo de Marya Bravo, que canta “Maria, Maria” com uma dignidade, um carinho e uma emoção que leva a plateia às lágrimas. A excelente luz de Paulo Cesar Medeiros abraça todo o espetáculo.

Ainda para lembrar “Beatles, num céu de diamantes”, os arranjos vocais de Jules Vandystadt e os arranjos musicais de Délia Ficher são criativos, modernos e belos. Eu cantaria “Amigo” toda em português, mas cantá-la parte em inglês transforma nossa música em universal. Toda a movimentação cênica nos lembra o musical anterior, com marcações bem cuidadas e caprichadas. Temos pequenas cenas realizadas no palco inspiradas nas letras das canções. O vento, o cheiro, o café, a calma mineira. Tudo está em cena.

A dupla Claudio e Charles acerta cada vez mais no bom gosto, na competência, na certeza de que sabem para onde estão caminhando - além do Arco Iris (só para fazer uma brincadeirinha com a outra produção americanizada em cartaz) - e que tem como mérito maior unir diversos talentos em prol da valorização da Musica Brasileira de bom gosto, em tempos pobres de tchum e tchá.

No grande e excelente elenco, destaco Marya Bravo, Wladmir Pinheiro, Cássia Rachel e Cláudio Lins. Com lindas vozes temos também Delia Fischer, Estrela Blanco, Jonas Hammar, Jules Vandystadt, Lui Coimbra, Pedro Aune, Pedro Sol, Sergio Dalcin, Tatih Köhler e Whatson Cardozo. Todos excelentes cantores que emprestam suas almas e fôlegos para  a obra de Milton Nascimento.


Com o coração pulsando de alegria, assistimos um espetáculo à altura da Musica Brasileira, em homenagem a este brilhante compositor e cantor, que pode acompanhar, ainda vivo, este presente pelos seus 50 anos de carreira e 70 de vida. Felizes aqueles que podem receber tal homenagem. O presente ganhamos nós, publico que gosta da boa música. Não perca. Se não conhece Milton Nascimento a hora é esta. Se conhece, garanta já o seu lugar na plateia e saia de alma e corações lavados.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O CARA


Atualmente estamos vendo o crescimento de uma população que antes consumia apenas o necessário para sobreviver. Hoje têm poder de compra maior do que há 10 anos. Televisões de plasma, ar condicionados, TVs por assinatura, viagens para lugares nunca antes pensados. Nunca antes na história deste país viu-se tanta oferta por geladeiras, fogões e móveis nas grandes lojas de departamento com IPI zero. Se a estratégia dos dirigentes da nação está certa ou não, fica para uma outra discussão. O que proponho é: basta ter tudo sem saber como usar educadamente? Rádios transmissores aos gritos na rua, pessoas falando ao celular como se estivessem em casa, viajantes gritando pelos corredores dos aeroportos, amigos conversando durantes filmes e peças de teatro. De que adiante dinheiro, sem educação? Instrução é possível, mas e a educação, onde fica? Não fica. Aqui no Rio pelo menos, “educação” está caindo em desuso.

Graças a Deus existem formas de se protestar contra o consumismo que vem abarrotando a nova classe emergente - junto com sua falta de educação. Uma das melhores respostas é o espetáculo “O CARA”, que está em cartaz no Teatro dos Quatro. A peça faz um belíssimo registro do momento atual. Com muita ironia, humor e abusando dos jingles de anúncios, Miguel Thiré acerta em tudo. Brinca com os comerciais mais famosos da televisão brasileira, com o IBOPE, com a valoração do consumo e mostra o que acontece quando o “Meu, meu, meu. Quero, quero, quero. Posso, posso, posso” chega ao limite. No fim do espetáculo, aquilo que mais amo em teatro aconteceu novamente: sair pensando no que assisti, com vontade de discutir o assunto à exaustão. A pergunta que não cala é “basta ter tudo na vida?” E outra “Você não se sente sozinho depois que conseguiu o que queria?”

Ainda Miguel Thiré assina uma direção muito competente, rápida, rígida e eficiente para seu texto. Encaixa o necessário à trama (um cabide, uma cadeira e um microfone) às necessidades dos personagens. Como se tudo fosse um documentário, com depoimentos, cenas longas, flashback e rapidinhas para acelerar a vida. Explora totalmente o palco e faz um casamento perfeito entre o ator e a plateia. A luz e o figurino (único) estão de acordo com a necessidade proposta pelo diretor. Belissimo trabalho de texto e direção.

Agora, pra melhorar isso tudo, temos em cena Paulo Mathias Jr. Um ator que fica imenso no palco, embarca na onda do diretor, se deixa conduzir e cria personagens totalmente reais e diferentes. Sua expressão facial e corporal são fabulosas! Uma ousadia até. Paulo usa mãos e pés, quase se joga de costas no palco. É um mímico, um pândego. Interpreta e executa com perfeição as marcas e as falas. Paulo não economiza, se entrega. Entendemos todos os fonemas. Sai exausto do seu espaço de trabalho, que domina com perfeição. A plateia que está no teatro para receber e oferecer parceria ao ator nem respira. Aplausos de pé.

Felizmente a nova classe emergente agora pode ir ao teatro. Mas, infelizmente, no dia que assisti ao espetáculo, alguns representantes desta classe não estavam a fim de se envolver com a história, mas sim gastar dinheiro, mostrar que podem consumir o teatro, ainda com a ideia de que ir ao teatro dá status. Teatro dá cultura e conhecimento! Fiquei - e ainda estou - pensativo sobre o consumismo, sobre o “aproveitar a vida em vez de se dedicar exclusivamente ao trabalho”. Sobre o que se está fazendo com a nova classe emergente. É espetáculo para ver e conversar muito depois. Fiquei muito feliz em ver no palco esta dupla de sucesso: Paulo Mathias Jr, um ator que admiro, respeito e sou fã; e Miguel Thiré, que desde “2 pra viagem” respeito e sigo. “O CARA” é teatro que fica. Não é descartável. É assunto atual, é vida real. Recomendo muito. Obrigatório.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Premio Shell 2012


O GLOBO RIO

A 25ª edição do Prêmio Shell de Teatro anunciou a lista de indicados no Rio de Janeiro e em São Paulo, na manhã desta terça-feira. Os espetáculos dessa primeira etapa concorrerão ao prêmio juntamente com a lista do segundo semestre, prevista para ser divulgada em 2013.

Nesta fase, quatro peças empataram quanto ao número de indicações. “Obsessão”, “A primeira vista”, “As mimosas da Praça Tiradentes” e “Adeus a carne ou go to Brazil” receberam, cada uma, duas indicações em diversas categorias, como Autor, Direção, Ator, Atriz, Iluminação, Música e Categoria Especial. Os vitoriosos receberão uma escultura em metal do artista plástico Domenico Calabroni e uma premiação de R$ 8 mil.

Confira a relação completa dos indicados do primeiro semestre ao 25º Prêmio Shell de Teatro do Rio de Janeiro:

Autor: Carla Faour, por “Obsessão”, e Julia Spadaccini, por “Quebra-Ossos”.
Direção: Henrique Tavares, por ”Obsessão”, e Moacir Chaves, por “Negra felicidade”.

Ator: Gustavo Gasparani, por “As mimosas da Praça Tiradentes”, e Tonico Pereira, por “A volta ao lar”

Atriz: Drica Moraes, por “A primeira vista”, e Kelzy Ecard, por “Breu”.

Cenário: Adriano Guimarães, Fernando Guimarães e Ismael Monticelli, por “Nada”, Doris Rollemberg, por “Querida Helena Sergueievna”, e Vandré Silveira por “Farnese de saudade”.

Figurino: Flavio Souza, por “Os mamutes”, e Samuel Abrantes, por “O auto da compadecida”.

Iluminação: Adriana Ortiz, por “Adeus a carne ou go to Brazil”, e Maneco Quinderé, por “A primeira vista”.

Música: Domenico Lancellotti, por “Modéstia”, e Lucas Macier e Fabiano Krieger, por “Adeus a carne ou go to Brazil”.

Categoria Especial: Beto Carramanhos, pelo visagismo dos espetáculos “As mimosas da praça Tiradentes” e “O mágico de Oz”; Frederico Reder, pela reforma e reabertura do teatro Tereza Rachel, atual Theatro Net Rio; e Grupo Alfândega 88, pela ocupação do teatro Serrador

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O Mágico de Oz, Não sobre Rouxinóis e Um Homem na Lua


A temporada teatral do Rio está com tudo. Temos espetáculos de excelente qualidade para todos os gostos. Sorte de quem gosta desta arte. Sou um deles. Tive o prazer de assistir a 3 espetáculos que considero indispensáveis para quem estuda, aprecia e gosta de teatro.

Em cartaz no Teatro João Caetano, “O Mágico de Oz” é a melhor produção da dupla Möller e Botelho. Tudo funciona bem. Contribuição excelente da cenografia linda, que cria um tornado bastante convincente, atuações brilhantes de Maria Clara Gueiros (Bruxa Má do Oeste), Pierre Baitelli (Espantalho), Lúcio Mauro Filho (Leão) e Nicola Lama (Homem de Lata). Temos ainda a linda voz de Malu Rodrigues e a presença sempre marcante de Miele, como o Mágico de Oz. O talento para dirigir e adaptar os musicais famosos do cinema, e da Broadway, para os palcos, da dupla Möller e Botelho é inegável. Mas dessa vez eles se superaram. Tudo é excelente, de bom gosto e perfeito.

“Não Sobre Rouxinóis”, um frenético Tenessee Williams, está em cartaz na Sala Paulo Pontes do Theatro Net Rio. Com excelentes atuações de todo o elenco, destaco Telmo Fernandes, Bruno Ferrari e Eduardo Rieche, cujas cenas deixam todos sem fôlego. Mais uma vez o cenário é a vedete do espetáculo. Pontos para Nello Marrese e Natália Lana. A belíssima luz do espetáculo ajuda a separar as cenas e deixar claro os momentos de tensão, como quando os presos ficam confinados. A plateia chega a sentir o calor. João Fonseca dirige o espetáculo com a segurança de sempre. Nada fica de fora do seu olhar. Elenco, figurino, cenário e luz estão muito bem afinados. Excelente montagem.




No Teatro do Jockey somos presenteados com “Uma Noite Na Lua”, texto, direção e iluminação de João Falcão, com belissima atuação de Gregório Duvivier na pela do escritor que tem a noite inteira para escrever uma peça, mas sua cabeça só pensa em sua amada Berenice. A iluminação do espetáculo é um personagem à parte. Como não há cenário, a luz completa o ator em cena. Pontos positivos para o figurino e para as lindas canções, muito bem interpretadas por Gregório. Alias, cabe dizer que acompanho Gregório por muito tempo e já vi atuações exemplares, tanto em teatro, cinema e TV, mas em “Uma Noite Na Lua” seu trabalho é exemplar. Aplausos de pé.

Então, tá esperando o que para ir ao teatro?