quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

THE BOOK OF MORMON - UniRio

O politicamente incorreto me atrai bastante. Tudo que é certinho, que é feito para não magoar “as minorias”, me irrita! Como bem cantou, em piada, Danilo Caymmi, num show recente, imagina a música de Escrava Isaura: “Vida de Afrodescendente é difícil, é difícil como quê”... Não pega bem, né? Essa onda ridícula, que não para nunca, faz com que as pessoas evitem falar a realidade, ou pior, tapem o sol com a peneira. Ora, crente é crente. Macumbeiro é macumbeiro. Negro é negro. Viado é viado. E por que não se pode fazer piadas com isso? Tem sempre um mala de plantão que lança um processo judicial só aumentando a morosidade da justiça brasileira. Salve Porta dos Fundos!!

'tracoisa: nunca entendi o motivo de “servos do Senhor” baterem à minha porta para oferecer a palavra de Deus. Ora, Deus é tão onipresente, onipotente e onisciente. Precisa de servos para oferecer sua palavra? Não basta olhar a natureza e ver que ali está Deus? Não basta abraçar um filho para saber que aquele amor é Deus? Deus é energia. Energia em movimento retilíneo uniforme! Deus é combinação de prótons e elétrons. Deus está. É. Chame-o como quiser, acredite no que quiser, mas não me venha catequisar porque isso mais parecer pirâmide financeira, que é proibido por lei.

Já que fiz dois parágrafos politicamente incorretos, "catequiso" você, leitor, a assistir à montagem na UniRio do musical “The Book of Mormon”, campeão de indicações a prêmios na Broadway, que, graças à Universidade e a Rubens Lima Jr, está em cartaz até dia 21 de dezembro aqui no Rio. CORRA! Tomara que continue por mais um tempo a partir de janeiro na própria Universidade.

Criado pelos mesmos roteiristas de South Park, famoso desenho animado onde o politicamente incorreto é a diretriz, impossível não gargalhar. Não falo aqui de sorriso de canto de lábios, são gargalhadas histéricas da platéia. Ontem, uma pessoa ria tanto que disse: “pára, que eu vou morrer!”. Aí é que rimos mais ainda.

A história gira em volta da lavagem cerebral de uma determinada religião que prega o “bater de porta em porta” para oferecer a palavra de Deus, sob um olhar de um terceiro testamento, descoberto nos EUA e que deu origem à tal religião. Os servos, homens, jovens, com algum problema de relacionamento/psíquico, embarcam na onda e, após os exames finais do curso preparatório, são enviados para diversas cidades do mundo, sempre em dupla, para catequizar, converter, batizar novos fiéis para aumentar seu rebanho e, OBVIAMENTE, as riquezas dos líderes. A dupla protagonista parte para a África. Qualquer semelhança com nossas favelas não são mera coincidências. A missão: arrecadar fiéis. O meio: através da pregação “da palavra”. Em Uganda encontram um povo oprimido e revoltado contra o sistema e os traficantes/bandidos que mandam em tudo, cagando para as leis. Bem, como isso vai acabar, só indo ao teatro pra saber.

É muito importante para o teatro a pesquisa que Rubens Lima Jr vem fazendo ao longo de sete anos com os alunos/técnicos/parceiros e amigos da UniRio. Uma série dos melhores musicais foram montados lá por estudantes. E todos muito bem realizados. Tive o prazer de assistir alguns. Aliás, desde 2001 que venho assistindo a peças com alunos da UniRio. Seria perfeito se a Universidade tivesse um teatro grande, com equipamentos, para que as montagens ficassem em cartaz para o grande público assistir.

Mais louvável ainda é o nível profissional de todos os envolvidos. Os atores dançam, cantam e representam melhor que muita gente por aí... A cenografia, limitada pelo espaço do palco, é competente. O figurino melhor ainda. A luz completa e abraça todo o espetáculo. Coreografia das melhores! Sem falar nos arranjos, direção musical e músicos que tocam ao vivo. The Book of Mormon é muito melhor que vários musicais em cartaz que eu vi pelo Brasil nessas minhas andanças de 2013. Não há dúvida de que, se fosse considerado um espetáculo profissional, levaria todos os prêmios.

A dedicação e entrega de toda a equipe é contagiante. Rubens Lima Jr, o diretor, é um maestro adorado. Certamente é. O carinho com que todos os envolvidos se entregam de corpo e alma a esta montagem, tem clara justificativa na competência e carisma do diretor.

Citar todos os envolvidos é pecado. Não haveria espaço e cometeria grave erro por não elogiar a todos pelo talento, capacidade e profissionalismo. Destaco a dupla de protagonistas, os atores Hugo Kerth e Leo Bahia. Prontos para o mercado. Inteiros e dedicados. É emocionante ver aquele conjunto de meninos e meninas jovens, ainda em formação, outros recém saídos da universidade, já brilhando, cheio de talento e competência.

The Book of Mormon, é uma celebração. Da vida, da amizade, da fé, da crença numa força superior, fé no ser humano, fé na força de vontade. Merece ficar em cartaz num teatrão da cidade. A montagem na UniRio nos permite aplaudir essa leva de bons atores que está se formando. Tomara que empresas vejam logo o teatro, os musicais, com uma forma real de ganhos financeiros e tornem esta arte um negócio lucrativo, para que os profissionais que estão saindo das escolas de artes cênicas possam ser absorvidos pelo mercado e mostrarem seus talentos e suas competências.


Obrigado, Rubens Lima Jr, por esta celebração, por me fazer rir, chorar, aplaudir com força, ver novos talentos nascendo na Universidade, por continuar fazendo grupos de estudos sérios sobre musicais, por convidar Alexandre Amorim para adaptar esta versão com tanta competência para o Brasil. Em estado de graça. Aplausos sem fim.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

NO TAXI


Fim de ano é certeza: todos os táxis que passam estão ocupados. Nem adianta ficar com o dedinho apontado para o outro lado, pois, de dentro do carro, o motorista faz um sinal, também de dedinhos, que significa “cheio”. E se está com pressa, engole a ansiedade. É pra mais de 20 minutos de espera. Em época de engarrafamentos por toda a parte, em função das modificações que a cidade está passando para ficar mais “bunita”, quem se dá bem são os taxistas, que faturam bastante no período de bandeira 2. E, nessas viagens intermináveis, certamente surgem papos e histórias mirabolantes. Eu sou do tipo calado. Quase não converso com o taxista, mas de vez em quando, puxo assunto só pra ver o que vai sair dali. E saem cobras e lagartos!

Partindo desta observação da vida cotidiana de um taxista, Cristina Fagundes escreveu “No Taxi”. A peça é uma tarde na vida do taxista e nós, público, acompanhamos este momento, cheio de aventuras para ele. A cantada do passageiro, a briga entre irmãs, uma doida varrida, uma amante e um ex-presidiário vão se revezando no taxi e, fazendo o motorista de cúmplice, contam rapidamente uma parte, uma fotografia animada, de suas histórias. O texto, bastante divertido e atual, revela as faces mais diferentes dos personagens que habitam nossa cidade e as inusitadas histórias que qualquer taxista pode ouvir ao longo de uma tarde rodando pelas ruas. Cristina escreve muito bem, retrata a vida atual com competência e usa um linguajar coloquial mas de ótimo nível. Além disso, todos os seus textos são divertidos, simpáticos e nos mantém acesos diante das histórias que vão sendo apresentadas.

Também como diretora e idealizadora do projeto, Cristina Fagundes consegue fazer da cidade, e do taxi, o cenário ideal para as histórias. Acerta quando leva 3 pessoas como plateia-cúmplices no banco traseiro e deixa os personagens sentados no carona. A cada bairro, uma parada, onde temos novidades. Todo o percurso entre Leme, Botafogo, Urca, Copacabana e Leme dura entre 45 a 50 minutos. Os atores, muito à vontade na proposta, sabem da importância de estarem cronometrados aguardando a chegada do taxi-palco. Muito criativa a idéia e bem realizada.

O figurino de Luana Monteiro é perfeito para a história e época atual, deixando os atores confortáveis para interpretar. Divertida e criativa também é a trilha sonora e as gravações/músicas tocadas no rádio do carro e os telefonemas recebidos pelo celular, que ouvimos por conta do viva-voz. A luz e o cenário, agradecemos à Deus, pois nada mais interessante que a luz do dia do Rio de Janeiro, que tem o cenário mais bonito do Brasil.

Os atores, todos ótimos, nos fazem entrar nas histórias e ficamos incomodados com a briga e com a cantada, ansiosos e preocupados com a maluca e o marginal. O taxista vira nosso motorista particular e torcemos para que nada de ruim aconteça com ele! No “Palco-taxi”, em ordem alfabética, Ana Paula Novellino, Cristina Fagundes, Fernando Melvin, Jorge Neves, Marcelo Dias e Rita Fischer são competentes e talentosos. Não dá para destacar um ou outro, pois cada um vive um personagem bastante denso e intenso. Claro que tem aquele que se gosta mais, e, no meu caso, Mabel Cesar me deixou hipnotizado com a sua passageira-maluca. Aplausos para todos.

No Taxi tem poucas apresentações ainda até o fim do ano, mas vamos torcer para que fique mais tempo “em cartaz” nas melhores ruas do Rio de Janeiro. Com apenas 3 espectadores por apresentação, certamente é uma peça para ficar em cartaz por milhares de anos, variando uma ou outra história de acordo com o dia a dia da cidade. Gostei muito mesmo! Recomendo.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

FLUXORAMA
















Existe um livro de bolso chamado Senhorita Else (de Arthur Schnitzler). Entre diálogos, a personagem principal “pensa” junto com o leitor. Lemos seus pensamentos, e, assim, a história nos é contada. Me instiga muito o que se passa na cabeça das pessoas, como elas pensam. Será que são tão loucas quanto eu? Ao simples caminhar até a padaria, penso, xingo, rio, faço contas, programo o dia, lembro de cosias. Às vezes, saindo do quarto, me esqueço do que fui fazer na cozinha, de tanto que penso, no caminho. E olha que são só míseros 10 passos... Somos todos assim? Nosso cérebro, pensamentos, são parecidos?

Assisti, sexta, no Oi Futuro do Flamengo, a peça FLUXORAMA. Três monólogos de Jô Bilac, onde cada história é um fluxo de pensamentos. A primeira, uma mulher que fica surda de uma hora para outra. E agora? Como tocar sua vida? O que isso “traz de bom”? Depois, perde o olfato, o paladar... nos envolvemos com aquela mulher. No segundo, um homem sofreu um acidente e, nas ferragens, tenta se manter vivo até os primeiros socorros chegarem, pensando, refletindo, se distraindo, com pensamentos sobre a mulher amada, sua vida, sobre como está sua situação no momento. E o terceiro, enquanto corre uma maratona, uma mulher tenta se manter na corrida, com pensamentos sobre desistência, superação, sua vida atual. Fluxos de pensamentos incontrolados. Ou seria uma reação do organismo, do cérebro, para que continuemos a viver em condições precárias? Seria assim a proximidade do fim? (Do sofrimento, da comunicação, da dor, da corrida, da vida...).

Jô Bilac é inteligente pra caramba. Isso me anima muito ao ir ao teatro numa peça dele. Sei que vou ouvir um texto criativo, pesquisado, rico em palavras pouco utilizadas. Deduzo que as histórias contadas vão me surpreender a cada frase, e assim acontece. Tenho uma grande alegria toda vez que meu cérebro é exposto à prova, e Jô Bilac consegue me fazer ficar ligado no texto, para compreender as entrelinhas, entender o motivo de suas escolhas nas construções das frases. Me sinto estimulado intelectualmente quando assisto a alguma peça sua. Adoro isso!! Obrigado!

O cenário de Olivia Ferreira e Pedro Garavaglia é um achado! Cria uma “bolha” de tecido elástico (uma segunda-pele) para a surda; um emaranhado de ferros retorcidos e peças de carro onde está o acidentado; e uma pista de corrida. Tudo no pequeno teatro do Oi Futuro, com tudo já em cena desde o começo, numa harmonia de cores. Algumas projeções com frases no fundo do palco, funcionam (na minha cabeça maluca) como um eco do pensamento dos personagens. O figurino de Julia Marini e a luz de Tomás Ribas são igualmente competentes e acertados.

A concepção da peça é também inteligente: três atores-diretores. Cada um dirige um dos monólogos em que não estão atuando: Inez Viana dirige Rita Clemente em Amanda (a que se depara com a surdez). Rita Clemente dirige Vinícius Arneiro (o cara das ferragens). Vinícios Arneiro dirige Ines Viana (a moça da maratona). Todos muito bem pensados e com objetivos plenamente atingidos. Talvez a direção de Inez Viana seja a mais completa de todas, pois tem a seu favor a possibilidade de maiores movimentos da atriz em cena. Enriquece a história com gestuais e o nervosismo da personagem. Rita Clemente dirige uma história onde o personagem está nas ferragens, não tendo muito como movimentá-lo, mas consegue a atenção da plateia pela palavra. Vinícius Arneiro dirige uma personagem que corre o tempo todo, então a ação já está definida, e mesmo assim, consegue, nos fazer cansar, torcer e pensar tanto quanto a corredora. Aplausos triplos!

Os atores embarcaram no jogo. Rita Clemente, ótima como a recém-surda, interpreta uma mulher assustada, ansiosa, com medo, mas confiante; perdida, tentando não enlouquecer. Vinícius Arneiro é o recém acidentado, se apegando a tudo que for possível, do passado e do futuro, à dor do acidente, para sobreviver àquele incômodo, o não-movimento. Inês Viana corre durante todo o seu monólogo – haja fôlego! – e consegue dosar respiração com interpretação. Após a peça conversamos com os atores/diretores sobre “a prisão do movimento” e que o espetáculo dá margens a estudos, mestrados e monografia sobe fluxo de pensamento, comportamento humano e a necessidade da sobrevivência.

Sem dúvida, FLUXORAMA é um espetáculo inteligente, de bom gosto e criativo, que só poderia estar no Oi Futuro, que sempre olha para frente em seus projetos, mostrando a criatividade, a pesquisa, a competência de jovens talentos da dramaturgia carioca, aliado a profissionais com notório reconhecimento da classe artística. Gosto de me sentir desafiado a pensar sobre um determinado assunto, quando vou ao teatro. FLUXORAMA é desses espetáculos inteligentes, criativos e instigantes. Aplausos!!

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

ELIS, A MUSICAL


Era janeiro, férias em Iguaba. Tínhamos uma vitrolinha “de mão”, vermelha desbotada. Os discos vinham na mesma sacola. A cada viagem, uns 20. Nana Caymmi não faltava, Milton era obrigatório. Jobim, necessário. Elis “comparecia” com o disco “Essa Mulher”. Estávamos na varanda quando chegou a notícia. Não mais Elis entre nós. Não mais... Daquele ponto em diante, Essa Mulher não saiu mais da vitrola. Tocou uma semana seguida, sem parar. No Jornal Nacional, os depoimentos. Mamãe, Papai, Tio Zé e Tia Cristina, chocados. Eu não tinha muita noção do que acontecia, mas sabia que algo tinha sido grave. A perda teria sido absurda.


Ao longo desses meus 41, vim descobrindo Elis. Ouvia, ouço e ouvirei para sempre. Papai tocava contra-baixo e, em festas na casa de amigos na Tijuca, me apresentou Luizão, o baixista da Elis. Eu ali, naquele meio, olhando, imaginando, sonhando. Tenho inveja dos amigos que assistiram ao Falso Brilhante, ao Circo Místico. Queria ter visto Elis ao vivo. Abraçado, beijado sua mão, como hoje em dia faço com quem admiro, graças às produções culturais que trabalho. Elis é a perfeição. É a competência. É o exemplo a ser seguido de objetivo, buscado e alcançado. Ela queria ser a maior, melhor, cantora do Brasil. Sorry, periferia. Ainda é. Sim, tenho a minha cantora favorita, não escondo meu amor por Nana Caymmi, sua voz, sua personalidade, seu timbre. Mas Elis... Elis... Elis... como diria Shakespeare, “Todo o resto é silêncio”.

Felizmente Elis voltou para nós, em formato de musical de teatro, no Oi Casagrande, aqui no Rio. Com o texto de Nelson Mota e Patrícia Andrade, a peça retrata, em flashes, os melhores momentos musicais da cantora, e suas relações amorosas e familiares com Ronaldo Boscoli e Cesar Camargo Mariano. Sua passagem pelas boates do Beco das Garrafas, a vinda para o Rio, os shows na Europa, Miéle, Carlos Imperial, Jair Rodrigues, Tv Record. Um acerto foi ter evitado falar na morte, como se deu o acontecido. Elis sai de cena, o banco fica vazio, a cortina se fecha. Tudo dito. Lágrimas e aplausos.

Dirigida por Dênis Carvalho, o nome já diz: é um espetáculo! Ágil quando precisa, minimalista quando pede, grande quando fala dos shows e apresentações, pequeno quando é depoimento. Gosto muito da direção. Acho criativa, moderna, saindo muito do que estamos acostumados a ver no teatro e trazendo um olhar televisivo, aproveitando coreografias para montar cenário de maneira nova, tirando do lugar comum boleros, dramas. Trocando a posição real na história de músicas consagradas, como no caso de Atrás da Porta e Vou Deitar e Rolar. Dênis traz parte dos musicais da Broadway (coreografias e côro) para o musical brasileiro (músicas, arranjos e interpretações). E consegue um casamento perfeito entre o “lá de fora” com o “brasileiríssimo”.

 

O repertório conta com os melhores sucessos de Elis. Claro que desejamos esta ou aquela música, por pura vaidade, pois é a que mais se gosta. Eu adoraria ter ouvido Bolero de Satã, mas Dois Pra Lá, Dois Pra Cá me alimentou a saudade, e me acalmou a ausência. O Bêbado e o Equilibrista, Arrastão, Ladeira da Preguiça, Águas de Março, Madalena... vou esquecer várias. As principais e marcantes estão lá.

Cenário ótimo. O necessário para um musical competente, como este. Telas de LED ao fundo dando profundidade e colorido. Mesas, cadeiras e sofás entrando e saindo sobre rodas e plataformas. Adereços dançantes. O figurino de acordo com a época, bonitos, recriando vestidos de Elis. Caracterização perfeita, transformam a atriz em Elis. Luz: céus, uma das melhores do ano!! Músicos: reverência e aplausos. Coreografia impecável!


O elenco é muito grande, seria educado e generoso escrever o nome de todos, pois me deram de presente assisti-los, mas aqui vão os nomes principais. Ícaro Silva, brilhante como sempre, muito amadurecido, interpreta Jair Rodrigues com verdade, emoção e entrega. Canta, atua e dança com perfeição! Cláudio Lins, como Cesar Camargo Mariano, ótimo! Sua interpretação de Trem Azul é de arrepiar! Felipe Camargo, como Ronaldo Boscoli, está muito bem na pele do cafajeste marido. Natural, engraçado e seguro, a surpresa da noite. Nunca tinha visto Felipe em teatro e gostei muito.

Laila Garin... Laila Garin... Laila Garin... sua atuação como Elis é impecável. Mais que uma homenagem, Laila nos traz Elis de volta. Sem querer superar, ou incorporar a cantora, Laila interpreta Elis com dedicação, atenta aos gestos, timbre de voz, agudos, gênio, força e garra. Emocionante ver Laila cantando. Seus solos são aplaudidos, quase que de pé, pelo público durante a peça. Ovação é pouco. Emoção pura. Laila Garin, que já conheço de outros musicais, como “Gonzagão, a Lenda” e “Eu Te Amo, Mesmo Assim”, está irrepreensível. Está perfeita. Canta muito! Emoção, lágrimas e aplausos. Prêmio Shell e APTR se fazem obrigatórios para ela.


É duro saber que Elis não vai cantar novas e belas canções. É triste. Elis tinha que estar aqui, agora, já. Mas é muito bom saber que existem iniciativas como esta, da Aventura, em trazer Elis para nós. Ainda sob a emoção de ontem, dormi pouco e posso estar emocionado, sonado, atordoado com o que assisti. Portanto, declaro, para os devidos fins, que este é, sem dúvida, o melhor espetáculo musical brasileiro já realizado em homenagem a uma figura da música brasileira. É... Elis. É... Laila. É... Dênis. Depois de vocês, depois do que vi ontem, e certamente verei de novo, todo o resto é silêncio... "Elis, A Musical" é imperdível, sem dúvida alguma.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

FELIZ POR NADA


Felicidade incomoda. Uma pesquisa recente mostrou que pessoas ficam com inveja e raiva de posts de amigos nas redes sociais. Algumas pessoas são felizes por nada. Por nada, não. Por tudo. Conheço gente que ama a vida profissional que tem. Ao ponto de não precisarem de um amor de verdade, um "outro", para suprirem suas carências, visto que a felicidade consigo mesmo, o auto reconhecimento, é tanta, que a pessoa é feliz e pronto. Muitos vão dizer que a dedicação extrema ao trabalho é fuga do amor. Não acho. Pra mim, tem gente que veio nesta encarnação pra trabalhar, outros para resolver problemas amorosos. Faço parte dos que vieram para trabalhar e, por isto, sou feliz. Às vezes, feliz por nada. Ao mesmo tempo, por tudo que conquistei, que me proporcionei, que ofereci aos próximos. Nasci para produzir cultura e oferecer, se possível de graça, shows, teatro, eventos literários e exposições para quem não tem acesso. Sou feliz.

Partindo do princípio que AMO Martha Medeiros, fã de carteirinha mesmo, seguidor, leio sempre suas crônicas aos domingos, tenho muitos dos seus livros, alguns até autografados, e já tive o privilégio de jantar com a presença da Martha na mesma mesa. Um prazer! Sua lucidez e capacidade de dizer coisas sobre o dia a dia, que muitas vezes não sabemos como falar, mas ela consegue dizer. E é isso que me encanta.

Em cartaz no Teatro das Artes, a peça “Feliz por nada”. Tendo por base o livro de Martha Medeiros, Regiana Antonini faz uma adaptação excelente do livro para o palco. Fluente e segura, criou uma peça com diálogos rápidos e sinceros, pequenos monólogos explicativos, na medida certa, e a condução para um final de acordo com o que esperamos que seja.

Duas mulheres: uma casada, infeliz, mas com marido. A outra independente. Feliz, mas sem marido. A casada, reclama que não alcançou nada na vida. Viveu para os outros. A feliz, diz que lhe falta um companheiro, mas mesmo assim é uma mulher feliz. Por nada. Questões sobre a busca de uma vida própria e a busca de um parceiro ideal é o caminho do espetáculo. Claro que uma situação importante na peça gera todo o clímax capaz de deixar as duas mulheres à beira de um precipício sobre a felicidade que buscam.

A direção de Ernesto Píccolo é muito interessante. Optando por dar valor à palavra, conduz os atores por um palco vazio, porém nem sentimos a necessidade de cenário. A interpretação fala mais alto. E é nisso que eu acredito para um bom teatro: texto, palavra e ator. Como cenógrafo, jamais poderia dizer a frase acima, mas têm peças que não precisam de cenário e Feliz Por Nada é dessas. Píccolo é genial neste tipo de espetáculo e, neste terceiro texto de Martha Medeiros em suas mãos, tem um domínio total de cada frase e posicionamento em cena do elenco.

O figurino de Helena Araújo é bonito pra caramba e está 100% de acordo com as características das personagens. A luz de Aurélio de Simoni facilita a compreensão dos ambientes e ilustra os curtos monólogos. A trilha do Rodrigo Penna é sempre genial.

No palco, Cristiana Oliveira e Luiza Thiré duelam pela melhor interpretação, mas não há guerra. Há cumplicidade e parceria. Ambas estão excelentes e lindas em cena. As falas, o texto, é dito com verdade e nos convencem desde o primeiro entrar em cena. Aplausos de pé. Certamente duas das melhores interpretações de teatro de 2013. Gil Hernandez, também muito bem em cena, é o marido que dá a liga entre as histórias das duas mulheres. Mas a peça é delas. É um texto para mostrar a cumplicidade feminina e esta informação nos é passada com respeito e competência.

Aplausos para Rogério Fabiano que teve a brilhante sacada de levar este texto ao teatro, valorizando os atores, a palavra, o livro, a língua portuguesa, e a questão da felicidade nos dias de hoje. Não perca, vá já pro teatro.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

CAZUZA - Pro dia Nascer Feliz



Conheci as músicas do Cazuza junto com todo mundo. Infelizmente não tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Mas, suas letras, suas melodias, fizeram parte da minha juventude/adolescência. Confesso que , na época, não entendia muito o que ele falava. Segredos de liquidificador, pra mim, eram confissões da nossa empregada durante a faxina da cozinha... com o tempo, descobri o que era. E “se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão” passou a fazer parte do meu vocabulário quando comecei a namorar. Passei a entender tudo o que o Cazuza falava. Passei a compreender suas letras. Passei a amá-lo.

Está em cartaz no Teatro Net Rio, sala Thereza Rachel, o musical “Cazuza, pro dia nascer feliz”. O titulo é bastante apropriado, pois Cazuza era uma pessoa feliz, apesar de ter sofrido um bocado no fim da vida. Capaz de tirar piada e sarro da cara de qualquer um, ele sabia como aproveitar ao máximo tudo aquilo que era possível. Vida, sexo, drogas e música.

O texto do Aloisio de Abreu é uma homenagem bem escrita, cheia da ironia típica do Cazuza. Aloisio nos conta uma história, faz homenagem, informa, faz drama e comédia, com base no livro “Só as mães são felizes”, escrito por Lucinha Araújo. Acho o texto ágil e, mesmo nos momentos dramáticos, é bem suave. Já basta o sofrimento da história.

O cenário do Nello Marrese é composto de praticáveis, com os sarrafos aparentes, e as plataformas cobertas com as letras das músicas. Como a peça se passa em diversos ambientes, seria impossível criar um ambiente para cada, mas Nello auxilia muito bem à direção, indicando qual plano seria melhor para contar aquela parte da história. Ao fundo, temos projeções que dão a cor aos momentos da peça. O figurino é bastante fiel à época. A luz é muito boa e consegue separar os ambientes, auxiliando a cenografia, criar climas românticos e de desespero, ilustra os números musicais e amplia a vontade de viver do Cazuza.

O elenco é bastante numeroso. Formado principalmente pelos atores do musical Rock In Rio, um elenco jovem que dá conta do recado. Destaque para André Dias, interpretando Ezequiel Neves, empresário do Cazuza (Perfeito!), e Yasmin Gomlevsky como Bebel Gilberto. No número musical pra aplaudir de pé, temos uma cópia verdadeira de Ney Matogrosso cantando no palco “Pro dia nascer feliz”.

Claro que Emilio Dantas é fabuloso. Isto não é uma interpretação, é uma incorporação. Cazuza vive. Emilio é Cazuza. Sinceramente, não sei como Lucinha Araújo conseguiu assistir ao espetáculo... Acho que sei: é a forma de reviver o filho. Relembrar passagens divertidas e história da musica brasileira. Emilio usa todas as suas armas para conquistar a plateia. Voz perfeita, afinada. Ele é Cazuza.

João Fonseca é o diretor. Sábio, inteligente e moderno, João usa a fórmula de Tim Maia e Rock In Rio, aprendendo com os erros e acertos dos dois musicais. E tem, em Cazuza, o seu trabalho mais perfeito, dentre os três citados aqui. Gosto muito destes três musicais, são fantásticos e referências, mas Cazuza é o mais perfeito dos três na direção. João nem exagera, nem economiza. Bota elenco para trabalhar com garra. Usa o palco, figurino, luz, música, tudo a favor da história e do teatro.

O trio João, Aloisio e Emilio sabe muito bem cuidar desta homenagem a Cazuza. Eles três são Cazuza. Os três, com o apoio de uma equipe técnica do maior grau de competência, souberam construir um espetáculo digno deste artista, sua garra, sua luta contra preconceitos e a sociedade hipócrita. A burguesia fede.

Saí do teatro balançado. Claro que conheci pessoas que morreram por conta dos efeitos da Aids. Graças à medicina, hoje se vive com qualidade e bem mais tempo do que na época do Cazuza. Lembrei dos amigos que se foram, cantei, me diverti, e feliz pelo trabalho de todos no palco. Cazuza, mesmo agora, e ainda, eu preciso dizer que te amo.

sábado, 28 de setembro de 2013

1958 A BOSSA DO MUNDO É NOSSA


Primeiro ingrediente: sonhos. Sonho todas as noites. Viajo a lugares que não existem, encontro pessoas que já partiram, converso com desconhecidos. Voo, corro, me escondo. Às vezes (e posso contar nos dedos, talvez umas 6, que me lembre) acordo rido, pois, no sonho, estávamos às gargalhadas. E a piada é tão boa que permaneço sorrido ainda lembrando. Muitos amigos não se lembram de seus sonhos, sou privilegiado e grato por sonhar e lembrar. Pena que ao longo do dia o sonho vai se apagando. Às vezes some por completo, mas basta uma referência e ele é reavivado, porém apenas a parte importante daquele sonho fica. Reserve.

Segundo ingrediente: lembranças antigas. Sabe quando você volta à infância, ou à adolescência, e lembra do colégio? Lembra duma festa em que um fato marcante aconteceu? Um fato histórico? A queda das Torres Gêmeas, por exemplo. Naquele dia pode não se lembrar de tudo, mas o momento, o local, o fato, e uma pequena variação de ações, certamente você se lembra. Mas o fato é vivo. E flashes são recordados. Muita coisa se apaga, mas frases, gestos, posições, ficam. Lembro também da vitória da seleção em 1994. Eu no PC com a cara enfiada num joguinho de canos cujo objetivo era completar a instalação hidráulica para o líquido amarelo (ou seria verde?) passar. Este jogo dava sorte ao time do Brasil (oi?). Tenho flashes da cara do jogador que perdeu o pênalti (Rodrigo Baggio?) e dos pulos do Galvão Bueno. Flashes vivos. Reserve.

Pois agora junte os dois ingredientes acima e mergulhe de cabeça no espetáculo “1958 – A Bossa do Mundo é Nossa!”, inspirada no livro “Feliz 1958” de Joaquim Ferreira dos Santos e idealizada para o palco por Andrea Veiga. Lendo o programa, Andrea aliou-se a talentos da produção e do teatro: Andrea Alves e André Paes Leme, respectivamente. A peça é um apanhado de boas memórias, sonhos reais e flashes do que Joaquim conta no livro. Seria mesmo impossível transpor toda a história daquele “ano que não deveria terminar”, para um musical do teatro. Então, André Paes Leme, que assina o roteiro, pegou flashes, sonhos bons de acordar rindo, e ligou os momentos, junto com pequena história de 3 mocinhas. Um belo trabalho de pesquisa e organização da sequência dos fatos e das histórias, sempre tendo como principal lembrança os 7 gols da copa do mundo de 1958.

A direção é do próprio roteirista, o que ajuda pra caramba, pois as duas funções: direção e roteiro se completam. A opção por poucas falas, músicas na medida certa, e explorar, ao máximo, a plasticidade dos atores é um achado. Nunca vi um espetáculo como este. Eu não vi, alguém já deve ter visto, eu não. André usa os atores como contra-regras e como “objetos” de cena. Eles são estátuas, são atores interpretando atores, são testemunhas oculares, são cumplices das histórias acontecidas em 1958. Gosto muito da exploração do palco e da sequência (com idas e vindas sempre ao futebol). É tanta riqueza no espetáculo que gostaria de citar várias, mas não dá. Tenho que ver de novo. Uma eu adorei: logo no início da peça, os jogadores das duas equipes cantam seus hinos. Os da Suécia, sabem de cor e cantam com vontade. Já os brasileiros... quando muito sabem o refrão! Hilário! Esta direção certamente renderá uma indicação para prêmio de teatro. Muito merecido.

Somada à direção geral, está a direção de movimento, de Márcia Rubin. Posições, gestos, modo de parar em cena, leveza, tudo ajudando aos atores e ao diretor a compor a história. Atores são portas, atores são monumentos, atores são vários passageiros amontoados num avião. Um ótimo trabalho e um afiado casamento entre as funções direção e movimento.

O cenário é de criação de Carlos Alberto Nunes com uma equipe de primeira. Gosto muito dos cobogós estilizados, dos objetos (tv e rádio) e da inteligência com que um objeto simples vira algo inusitado: uma folha de papel vegetal vira a rampa do planalto! Casamento bacana entre cenário e direção. O figurino de Kika Lopes, colorido, auxilia no contar da história e ilustra a época. A luz de Renato Machado é sempre excelente! Com destaque para os refletores de LED que criam azuis e vermelhos bem fortes e bonitos. Cores vivas. Aplausos também para as projeções de Renato e Rico Vilarouca. Outra coisa a comentar: os personagens fumam em cena, mas os cigarros não são acesos. As fumaças estão na projeção!

E ainda temos direção musical (Marcelo Alonso Neves) e músicos! Os atores cantam com dignidade. Destaco Daniela Fontan cantando no programa da rádio nacional e Andrea Veiga, cantando nas boites, berços da Bossa Nova.

E o elenco, não menos importante, é composto por Andréa Veiga, Bianca Byington, Daniela Fontan, Diego de Abreu, Leandro Castilhos e Matheus Lima. Seria um pecado falar de cada um individualmente. E também seria uma heresia não elogiar um a um. Todos se entregam a este sonho, a estes flashes e momentos de 1958, com muita garra e competência. Todos têm seus momentos de protagonista e são generosos com os colegas no momento da cena do outro. Todos brilham individualmente e no conjunto. Aplausos de pé!

Este musical é inovador, com uma forma diferente de contar uma história. É verdadeiramente uma comédia musical. Gargalhei e atrapalhei os atores, mas era impossível segurar o riso. Cantei e me emocionei com os jingles que não escutei na época, mas que conheço bastante. Sonhei este sonho junto com o diretor e as Andreas. Tive flashes da minha história. E no final da peça fiquei com aquela sensação de ter acordado depois de um sonho com gargalhadas, e pude continuar rindo por um bom tempo. Espetáculo imperdível.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O DIA EM QUE RAPTARAM O PAPA


Éramos pequenos e fomos em fé até a Praça da Bandeira esperar o Papa passar. “A bênção, João de Deus, nosso povo te abraça. Tu vens em missão de paz. Sê bem-vindo, a abençoa a este povo que te ama”! Como percebem, ainda me lembro da música. Cantávamos em pé à espera dele. Bandeiras de papel amarelas misturadas às verde e amarelas. Veio o ônibus. Na frente, a figura de branco passou acenando pelo lado de dentro do vidro. Passou. Nos sentimos abençoados. Isso foi em 1980 e eu nem tinha 10 anos de vida! Infelizmente este ano, Papa Francisco não me viu no Rio. Estive fora, trabalhando, e acompanhei pela TV a JMJ que, se pelo lado da desordem a falta de infraestrutura nos envergonhou como cariocas, por outro lado nos encheu de alegrias como católicos e brasileiros, ao receber, tão carinhosamente, o novo Papa em sua primeira viagem internacional.

Está em cartaz no Teatro Clara Nunes a comédia “O Dia em que Raptaram o Papa”. O texto de João Bethencourt teve mais de 40 encenações pelo mundo. Precisa dizer mais alguma coisa sobre o texto? Sucesso, claro. Divertido e totalmente coerente, não falta uma explicação e tudo que se diz é sério e de ótimo gosto. As piadas atualizadas ajudam a aproximar o público da história. E nada mais atual e oportuno do que esta montagem, que estreou próximo à Jornada Mundial da Juventude.

Um taxista recebe uma bênção divina: conduzir o Papa no seu dia de folga. O que ele faz? Tem uma ideia de jerico (Pausa para amadurecimento profissional: no Nordeste, jerico é igual a mula): raptar o Papa e pedir resgate. Leva o dito cujo para sua casa, para enlouquecer sua esposa e filhos. A notícia se espalha. O mundo fica temeroso com o sumiço do pontífice. Até a eterna bola da vez Al Qaeda é acusada. O local do sequestro é descoberto. E, partir daí, surgem o Rabino, o Xerife da cidade, e o repórter contando tudo, ao vivo, para todas as televisões do mundo. O pedido de resgate é inovador e esperançoso. Será que vão conseguir liberar o Papa são e salvo? Haverá perdão pra o sequestrador? Vá ao teatro e assista até o fim.

A direção do Tadeu Aguiar é ótima! Integrando muito bem elenco, cenário, trilha sonora, ocupando com inteligência o espaço apertado do teatro Clara Nunes. Tadeu explora o talento do elenco para as frases da comédia e acerta na velocidade em que o elenco diz o texto. Comédia tem que ser rápida, mas com tempo para saborearmos as piadas. E assim Tadeu faz.

A cenografia de Edward Monteiro, em dois andares, é bastante bonita, colorida e bem acabada. Gosto dos janelões soltos no ar, nas laterais. Destaque também para os adereços de Clívia Cohen. Adorei a geladeira amarela pintada como um taxi novaiorquino. O figurino de Ney Madeira, Dani Vidal e Pati Faedo é sempre bom. Nada além do necessário para caracterizar a família judia, o rabino, o adolescente, o cardeal e o Papa e com isso acerta em cheio. O perfeito vídeo de Paulo Severo conta com Vanessa Gerbelli Ceroni e Françoise Forton interpretando âncoras de um telejornal, narrando a saga do Papa desaparecido. Tudo bem iluminado por Rogério Wiltgen.

No palco, o Papa de Rogério Fróes é mais parecido com Papa Francisco do que o antigo Bento XVI. Carismático e seguro. Marcos Breda é o divertido e atrapalhado sequestrador-taxista. Com um tempo de comédia bastante apurado, faz a plateia torcer por ele para que, no final da peça, seja feliz junto com sua família. Debora Olivieri, hilária como a esposa. Me arrancou gargalhadas! Renan Ribeiro e Sabrina Miragaia interpretam os irmãos, filhos deste pai louco, mas que amam a família e fazem tudo para ajudar a solucionar este imbróglio. Silvio Ferrari interpreta muito bem o Cardeal, exatamente como pensamos ser um deles lá no Vaticano (ok, fui irônico). E ainda temos Fabio Bianchini como o Xerife, Bruno Torquato como o repórter e Valter Rocha como o policial que, coitado, é explodido junto com o jardim da casa! Diversão pura!


Aplausos mais uma vez para os produtores Norma Thiré, Eduardo Bakr e Tadeu Aguiar. Espetáculo de excelente gosto, oportuno, bem criado, bem dirigido, que justifica os patrocínios recebidos. Além da atualidade do tema, trazer João Bethencourt para os palcos é sempre um tiro certo.  Pra você que aprecia o bom teatro, aquele que nos orgulha ver, vá já para o Teatro Clara Nunes e não perca esta oportunidade.


sábado, 7 de setembro de 2013

O JARDIM SECRETO


Morávamos na Tijuca, mais precisamente nos arredores da Praça da Bandeira. Ao lado do Instituto de Educação. A casa da frente era do tatatatatatatataravô que construiu no terreno de trás um pequeno prédio de 3 andares para os filhos homens. A vida seguiu e ali, quando me dei por gente, residiam 3 novas famílias aparentadas. Um grande páteo à frente nos permitia brincar de queimado, piques, vôlei, tomar banho de sol e de mangueira dentro da Piscina Toni. Logo ao lado, uma antiga casa de pedra, com um grande terreno atrás, era nossa vizinha. Recheada de mistérios. Lembro que ali havia bananeira, mangueira, jaqueira, sapotizeiro e diversas outras plantinhas menores. Os moradores eram idosos: Totí, Seu Barcelos e Dona Hilda. As crianças (nós) deixavamos a bola cair no jardim vizinho e a gritaria era alta: “Por favor, nos devolva a bola!” Sempre a mesma história. Totí morreu. Dona Hilda, a rabugenta, ameaçava furar a bola sempre. Tínhamos medo dela. Mas nada impediu que, ao crescermos um pouco, começassemos a pular o muro proibido. Era um universo à parte. Criávamos histórias sobre aquela casa sombria. Um jardim secreto. Dona Hilda também partiu, deixando um alívio para as bolas, mas Seu Barcelos continuava lá. Passado um tempo, não mais brincávamos de bola o tempo todo. A casa do lado foi ficado cada dia mais sombria, coberta pelas folhas e frutos das árvores que cresciam cada vez mais. Nosso jardim secreto era aquele. Impossível saber as histórias reais que ali viviam.

Está em cartaz no CCBB, Teatro 2, o espetáculo infantil O Jardim Secreto, inspirado na obra de Frances Hodgson Burnett. Adaptado para o teatro por Renata Mizrahi, a peça conta a história de uma menina que vai passar férias na casa sombria do tio. Lá, conhece uma governanta durona que impõe regras para a sua estada. Trabalhando para a família, o jardineiro arruma as flores com prazer. A menina logo se aproxima dele para conversar. O que também é proibido, mas quem se importa? Ele revela a existência de um primo, trancado no quarto, pois é bem “doentinho”. Ela parte para ver o primo e encontra um garoto mimado que acredita ser importante ficar em casa, na cama. Seus músculos, atrofiados por conta da inércia, impedem que ele alce voos, cresça, viva. Uma outra regra é informada: não entre jamais no jardim da propriedade. Xodó da tia, o local foi trancado pelo tio quando a esposa morreu. Pronto. Basta isso para que a menina, com ajuda do jardineiro, se interesse em vasculhar aquele espaço em busca de aventuras. E, de quebra, convença o primo doentinho a se aventurar naquele misterioso universo. Daí em diante, veja a peça e descubra o que acontece.

A direção é de Rafaela Amado. Caprichosa diretora, Rafaela constrói um caminho a ser percorrido pelas crianças e adultos com cumplicidade. Ficamos com ódio da governanta, adoramos o jardineiro, nos surpreendemos com móveis falantes. A abertura da peça é linda. A menina surge em cena do nada, num passe de mágica! Rafaela, com a ajuda do cenário, cria pequenos espaços no palco limitando cada canto a um cômodo da casa, e do jardim. Muito bem apoiada na equipe técnica e na direção de movimento de Mariana Baltar. As crianças ficam vidradas.

O cenário de Analu Prestes é uma instalação! Lindo, de excelente gosto, caprichado nos detalhes, consegue delimitar espaços, brincando com cortinas pintadas com motivos florais que se abrem e fecham, com cortinas de teatro, para revelar uma cama, um sofá e uma poltrona. A projeção no fundo do palco ajuda a contar a história e a deixar todo o ambiente mais colorido. O figurino de Ney Madeira é maravilhoso. Não existe outra expressão. Premo Zilka Salaberry de figurino já para ele. A luz de Luiz Paulo Nenen auxilia nas passagens de tempo, localização dos cômodos e na importância de cada cena. Tudo muito bem abraçado pela trilha sonora original de Marcelo Neves.

Os atores contam a história com dedicação: Camila Amado, com a governanta arrogante, nos dá um ódio mortal! Aplausos! João Velho, o jardineiro, super carismático, é o xodó das crianças. Todos querem abraçá-lo ao fim da peça. Arlindo Lopes, o menino/primo doentinho, capricha na construção e na evolução do menino ao longo do espetáculo. Elisa Pinheiro é a menina que vai mudar toda a vida daquela casa com sua visita de férias. Elisa hipnotiza com sua composição e torcemos para que tenha momentos felizes na casa. Luiz Henrique Nogueira traz a força do pai protetor, medroso de perder mais alguém que ama. E assim nos mostra a mudança de seu personagem do início para o término da história. Grasiela Müller, com seu poderoso acordeom, nos faz entrar no mundo do faz de conta quando está representando uma simples poltrona.


Claro que a história e o espetáculo não se resumem a este texto acima. Escondi coisas importantes para que você, leitor, se anime e vá ao CCBB assistir ao espetáculo. Soube que depois irão para o Teatro Fashion Mall e não perca. Leve as crianças sim. Espetáculos como este, de muito bom gosto, recheado de talentos individuais e que trata todas as crianças como seres pensantes, está em falta. É necessário formar esta plateia com espetáculos qualificadíssimos como este. Mais um sucesso da Turbilhãozinho de Ideias que co-produziu a peça com a Focus Films.


Para terminar, uma música de Chico Buarque, na voz de Nana Caymmi – Até Pensei – que fala de um bosque que um muro alto proibia... http://www.youtube.com/watch?v=-yB6FLkJg1A