sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

AS CRIANÇAS

            


       Na maioria das vezes, quando vou assistir a um espetáculo, nunca leio o programa, nem a sinopse, antes. Sempre me coloco desarmado diante do que será apresentado. Assim, de peito aberto, me envolvo com a história, mergulho na vida dos personagens e procuro tirar algo que me toca, me modifica.
       Está em cartaz no Teatro Poeira a peça As Crianças, texto de Lucy Kirkwood, traduzido por Diego Teza. A história é, resumidamente, a chegada de uma antiga colega de profissão na casa de um casal. Eles não se veem há 40 anos. Depois de um acidente nuclear, o casal se isola do mundo e a amiga aparece para bagunçar a zona de conforto daquelas vidas e, melhor, fazer um pedido inusitado. Diego Teza adaptou o espetáculo para nossa língua, traduziu com cuidado e capricho, uma história tensa, misteriosa, cheia de pessoas vivendo nas suas zonas de conforto e ao mesmo tempo se enganando, mas que, no fundo, no fundo, são boas almas e só querem o bem.
       No palco, o cenário de Rodrigo Portella e Julia Deccache é o necessário para contar a história, limpo e “sonoro”, pois as pedrinhas no chão – cada um interprete como quiser! – dão o barulho necessário para as caminhadas de silêncio. O figurino de Rita Murtinho é confortável e perfeito para aquelas pessoas. A luz de Paulo Cesar Medeiros é belíssima! Usando sombras e mudanças de humor na hora certa. Gosto também da trilha sonora de Marcelo H e Federico Puppi.
        Rodrigo Portela é o diretor do momento. Gênio. Conhecia pouco seu trabalho, admito. Seu currículo é cercado de indicações e prêmios, mas foi com Tom na Fazenda que ficou conhecido do grande público. E, realmente, seu trabalho é minucioso, detalhista, ousado e seguro. Rodrigo sabe valorizar uma cena, tirar partido de um momento em que não se tem muito assunto e ele cria algo para levantar o espetáculo, nunca deixa barriga. Surpreende no fim. Destaque para a cena final, em cima da mesa. Ousadia, confiança, competência e talento.
         O elenco de três atores é mais que fantástico. Analu Prestes é Dayse, a esposa. Sou suspeito para falar de Analu. Vejo todos os seus trabalhos, é uma artista completa. Mãos de fada no artesanato, voz doce e firme, antenada, moderna. Sua Dayse é segura e insegura ao mesmo tempo! Como pode? Analu faz isso com excelência! Stela Freitas é Rosa. Também sou fã. Acompanho seus trabalhos, a maioria voltados para a comédia. Stela é de um humor impagável, uma ironia que encanta, mas em As Crianças, é séria, é humana, é honesta. Um dos seus melhores papeis em teatro. Alias um papel à altura de seu talento que tem, nesta peça – e na direção deste espetáculo – um trabalho maravilhoso. Mário Borges é Robin, o marido. Sempre ótimo, Mário é generoso e sabe que, nesta peça, quem brilha é o outro. É colega no melhor sentido. Ele dá de bandeja, e vibra com isso, quando Analu e Stela defendem suas personagens. É generosidade entre os três, é companheirismo, é carinho, respeito e amor à arte.
      O que tirei desta história? Que nos momentos em que estamos na nossa zona de conforto escondemos angústias e que o preço é alto quando somos chamados à realidade. Ajudar ao próximo, empatia, vida útil, mudar o mundo enquanto estamos vivos... tudo isso passou pela minha cabeça durante e depois da peça.
     As Crianças é obrigatório. Foi a primeira peça que assisti em 2019 e, sem medo de errar, já é um dos melhores espetáculos do ano. Parabéns e obrigado!!

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

ATRAVÉS DA IRIS



Nãna, querida, que falta você me faz...  Ontem fui assistir no teatro Maison de France a peça “Através da Iris”, uma homenagem à decoradora Iris Apfel, nova-iorquinia de 97 anos, que decorou a Casa Branca, entre tantas outras coisas que ela fez e que ditam moda mundo afora. “More is More. Less is Bore” (Mais é mais! Menos é chato) e "You don't find out who you are unless you work at ir" (Você não descobre quem você é a menos que trabalhe nisso), diz Iris!

Ela me lembrou muito você. Uma mulher à frente do seu tempo, que não estava nem aí para o que dizem os críticos de plantão sobre o seu modo de se vestir. Iris é um exemplo do que é envelhecer bem. E você, Nãna querida, era assim. Que falta você me faz... Tu não sabes (eu sei que sabe!) da missa a metade do que estamos passando por aqui hoje em dia...

Cacau Higino escreveu um texto enxuto em que sabemos da vida de Iris: quem é, de onde veio, como pensa, seu grande amor e seu legado. Cacau sabe dosar frases de efeito com depoimento para uma câmera e tem a consciência de quem irá interpretar as palavras escritas. É na medida certa para um ótimo espetáculo.

Te conto ainda que o cenário é de Ronald Teixeira e Guilherme Reis, um ambiente com belíssimos móveis coloridos, uma poltrona imponente giratória e paredes que se movem. Isso tudo divinamente bem colorizados pelas projeções de Rico e Renato Villarouca! Esses são feras! E o figurino? Você ia adorar, Nãna. É da Tatiana Brescia. Vermelho, forte, espalhafatoso, digno de Iris! Iluminando tudo está Adriana Ortiz, respeitosa com as projeções, iluminando a cena e mostrando quando é entrevista e memória. Adriana é craque, Nãna, vc ia adorar!

Você precisa ver que maravilha é a trilha sonora de Maracello H. Sabemos que os Marcelos são talentosos!! Trilha moderna, dinâmica, criativa, sonora, muito gostoso ver um batidão agitando a vida de uma grande dama.

Sabe quem está dirigindo? Maria Maya! Ela tem um DNA poderoso. Nascida e criada dentro de camarins, palcos e estúdios, não poderia ser diferente. Já vi muita peça dirigida por ela, e esta, em especial, está no rol das melhores. Maria consegue harmonizar luz, som, vídeo, figurino, atuação... Destaque para a ótima cena em que a atriz fala o texto de costas para o público e as pontuações das piadas. Um trabalho elegante, sólido, competente e que dá vida ao texto. Tem ainda o Michel Blois, diretor assistente que, certamente, tem grande participação neste belo trabalho.

E, deixei pro fim, Nãna querida, para te dizer que é ninguém mais, ninguém menos que Nathália Timberg quem está interpretando Iris Apfel. Ficou a cara dela! Ficou forte, bonito, moderno! Você precisa ver como Nathália tem domínio de cena, de seu corpo, da sua voz e da sua memória. Ela já está comemorando seus 90 anos, que só vão ser completados em 2019, mas sempre é hora para comemorar! Ver Nathália em cena é sempre um prazer e uma aula. Lembro de uma peça super densa no SESC Copacabana onde ela só movia os lábios! Era genial. Agora, Nathália se reinventa mais uma vez. Se abre para mostrar que, independentemente da idade, ser jovem é uma questão de cabeça. Nathália é jovem, igual a você era, Nãna querida.

Nãna, você era à frente do seu tempo, pena que já se foi. Nathália ainda está aqui assim como Apfel e são duas mulheres que servem de exemplo para todas. Trabalhando em suas profissões com a garra de sempre. Eu bati palmas de pé, pois a peça é excelente! E tem amigos meus produzindo, a Bruna, o Wesley e o Deivid, você já deve saber quem são. Os produtores da WB.

Você me faz muita falta, Nãna. Esta é uma daquelas peças que a gente ia assistir junto e ficaria horas conversando depois. Eu adorei e recomendo a todos que assistam “Através da Iris”! Meu amor eterno por você, Nãna.