quarta-feira, 8 de maio de 2019

QUEBRANDO REGRAS

Raul Seixas já cantou ”Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade.” 

Evelyn Castro tinha um sonho: fazer uma peça em homenagem a Tina Turner. Chamou João Fonseca pra dirigir. Kacau Gomes tinha um sonho: fazer um tributo a Tina Turner. Chamou João Fonseca pra dirigir. Não. Eu não repeti a frase. Eram sonhos idênticos, mesmo diretor. João contou pra Kacau que Evelyn tinha feito a mesma proposta a ele. Banho de água fria? Jamais. Uma ligou pra outra e... Vamos fazer juntas esse sonho? Assim nasceu “Quebrando Regras”, tributo a Tina Turner, que estreou no Teatro Clara Nunes. 

Stella Maria Rodrigues escreveu a história que conta o desespero de duas fãs para entrar no show que Tina Turner está fazendo no Maracanã, em 1988. Além das vidas das duas se cruzarem no portão, naquela realização frustrada de um sonho, Stella conta um pouco da história de glória, comédia e tragédia da “rainha do rock internacional” da época, e nos dá um pitaco sobre a vida brasileira, com jingles de comerciais, comportamento e política. Um texto hábil e conciso, escrito por alguém que sabe muito de musicais.

João Fonseca, imprime a sua marca desde a escolha da equipe de sucesso – cenário ótimo do Nello Marrese simulando a entrada do Maracanã com estátua de Bellini, as colunas e o gradil; figurino do Marcelo Marques totalmente de acordo com a época e homenageando a cantora tema; visagismo do Beto Carramanhos que nos faz lembrar da Tina Turner sem apagar as expressões das atrizes; luz do sempre ótimo Paulo Cesar Medeiros; e as divertidas coreografias do Alex Neoral (que nos lembra as dancinhas de Tina e o que fazíamos na pista de dança da época!) – até seu desenho do espetáculo, alternando números musicais, comédia e “momento mensagem para pensar em casa”. Adoro a cena em que as duas fãs contam parte de suas vidas amparadas em duas músicas extremamente fortes de Tina Turner. Gosto muito de ver Bellini se transformar em repórter. João sabe que tem duas divas dos musicais nas mãos, ambas ávidas em homenagear Tina Turner e deixa as atrizes, embora marcadíssimas, livres e unidas para contar a história.

Todo musical precisa de duas coisas importantes: boas vozes e ótimos músicos. Tony Luchesi assina a direção musical com sabedoria, pois usa os arranjos de sucesso das músicas de Tina Turner, que temos no inconsciente, e se apropria das vozes das duas cantoras-atrizes para dar um pouco mais do que só canto: a interpretação das canções.

Evely Castro e Kacau Gomes. Kacau Gomes e Evelyn Castro. Sonho que se sonha só... é um sonho só. As duas sonharam e estão juntas. Evelyn tem uma timbre mais parecido com Tina Turner. Kacau tem uma extensão vocal inacreditável! Evelyn tem o gestual de Tina na veia. Kacau tem a emoção te Tina à flor da pele. Evelyn e Kacau estão unidas, fortes, seguras e inteiras em cena. Uma dupla que entendeu que a união faz, sim, a força. Sonho que se sonha junto, é realidade. Saulo Segreto interpreta todos os personagens masculinos. Sua presença é carismática e divertida. Ele sabe que as duas atrizes ao seu lado são divas e ele reverencia ambas com sua competência e generosidade de colega.

A equipe de “Quebrando Regras” se empresta, se doa, se entrega a este musical que chega em ótima hora. Momento em que o público está sumindo e o patrocínio minguando, mostrando que a cultura e a qualidade da cena teatral carioca jamais irá morrer. Este espetáculo nos serve de lição: juntem-se. Formem grupos com pessoas que estejam dispostas a seguir uma caminhada com amor e suporte. O trajeto será mais curto e a viagem menos dolorosa. 

Quem não se lembra da Regina Casé como Tina Pepper da novela Cambalacho? “Você me incendeia, meu corpo serpenteia. E me deixa louca, com água na boca...”. Foi com muita água na boca que saí do teatro. Vontade de assistir de novo e cantar várias vezes Tina Turner. Tenho certeza que Tina Turner está muito bem homenageada. Espetáculo obrigatório!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

AS CRIANÇAS

            


       Na maioria das vezes, quando vou assistir a um espetáculo, nunca leio o programa, nem a sinopse, antes. Sempre me coloco desarmado diante do que será apresentado. Assim, de peito aberto, me envolvo com a história, mergulho na vida dos personagens e procuro tirar algo que me toca, me modifica.
       Está em cartaz no Teatro Poeira a peça As Crianças, texto de Lucy Kirkwood, traduzido por Diego Teza. A história é, resumidamente, a chegada de uma antiga colega de profissão na casa de um casal. Eles não se veem há 40 anos. Depois de um acidente nuclear, o casal se isola do mundo e a amiga aparece para bagunçar a zona de conforto daquelas vidas e, melhor, fazer um pedido inusitado. Diego Teza adaptou o espetáculo para nossa língua, traduziu com cuidado e capricho, uma história tensa, misteriosa, cheia de pessoas vivendo nas suas zonas de conforto e ao mesmo tempo se enganando, mas que, no fundo, no fundo, são boas almas e só querem o bem.
       No palco, o cenário de Rodrigo Portella e Julia Deccache é o necessário para contar a história, limpo e “sonoro”, pois as pedrinhas no chão – cada um interprete como quiser! – dão o barulho necessário para as caminhadas de silêncio. O figurino de Rita Murtinho é confortável e perfeito para aquelas pessoas. A luz de Paulo Cesar Medeiros é belíssima! Usando sombras e mudanças de humor na hora certa. Gosto também da trilha sonora de Marcelo H e Federico Puppi.
        Rodrigo Portela é o diretor do momento. Gênio. Conhecia pouco seu trabalho, admito. Seu currículo é cercado de indicações e prêmios, mas foi com Tom na Fazenda que ficou conhecido do grande público. E, realmente, seu trabalho é minucioso, detalhista, ousado e seguro. Rodrigo sabe valorizar uma cena, tirar partido de um momento em que não se tem muito assunto e ele cria algo para levantar o espetáculo, nunca deixa barriga. Surpreende no fim. Destaque para a cena final, em cima da mesa. Ousadia, confiança, competência e talento.
         O elenco de três atores é mais que fantástico. Analu Prestes é Dayse, a esposa. Sou suspeito para falar de Analu. Vejo todos os seus trabalhos, é uma artista completa. Mãos de fada no artesanato, voz doce e firme, antenada, moderna. Sua Dayse é segura e insegura ao mesmo tempo! Como pode? Analu faz isso com excelência! Stela Freitas é Rosa. Também sou fã. Acompanho seus trabalhos, a maioria voltados para a comédia. Stela é de um humor impagável, uma ironia que encanta, mas em As Crianças, é séria, é humana, é honesta. Um dos seus melhores papeis em teatro. Alias um papel à altura de seu talento que tem, nesta peça – e na direção deste espetáculo – um trabalho maravilhoso. Mário Borges é Robin, o marido. Sempre ótimo, Mário é generoso e sabe que, nesta peça, quem brilha é o outro. É colega no melhor sentido. Ele dá de bandeja, e vibra com isso, quando Analu e Stela defendem suas personagens. É generosidade entre os três, é companheirismo, é carinho, respeito e amor à arte.
      O que tirei desta história? Que nos momentos em que estamos na nossa zona de conforto escondemos angústias e que o preço é alto quando somos chamados à realidade. Ajudar ao próximo, empatia, vida útil, mudar o mundo enquanto estamos vivos... tudo isso passou pela minha cabeça durante e depois da peça.
     As Crianças é obrigatório. Foi a primeira peça que assisti em 2019 e, sem medo de errar, já é um dos melhores espetáculos do ano. Parabéns e obrigado!!

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

ATRAVÉS DA IRIS



Nãna, querida, que falta você me faz...  Ontem fui assistir no teatro Maison de France a peça “Através da Iris”, uma homenagem à decoradora Iris Apfel, nova-iorquinia de 97 anos, que decorou a Casa Branca, entre tantas outras coisas que ela fez e que ditam moda mundo afora. “More is More. Less is Bore” (Mais é mais! Menos é chato) e "You don't find out who you are unless you work at ir" (Você não descobre quem você é a menos que trabalhe nisso), diz Iris!

Ela me lembrou muito você. Uma mulher à frente do seu tempo, que não estava nem aí para o que dizem os críticos de plantão sobre o seu modo de se vestir. Iris é um exemplo do que é envelhecer bem. E você, Nãna querida, era assim. Que falta você me faz... Tu não sabes (eu sei que sabe!) da missa a metade do que estamos passando por aqui hoje em dia...

Cacau Higino escreveu um texto enxuto em que sabemos da vida de Iris: quem é, de onde veio, como pensa, seu grande amor e seu legado. Cacau sabe dosar frases de efeito com depoimento para uma câmera e tem a consciência de quem irá interpretar as palavras escritas. É na medida certa para um ótimo espetáculo.

Te conto ainda que o cenário é de Ronald Teixeira e Guilherme Reis, um ambiente com belíssimos móveis coloridos, uma poltrona imponente giratória e paredes que se movem. Isso tudo divinamente bem colorizados pelas projeções de Rico e Renato Villarouca! Esses são feras! E o figurino? Você ia adorar, Nãna. É da Tatiana Brescia. Vermelho, forte, espalhafatoso, digno de Iris! Iluminando tudo está Adriana Ortiz, respeitosa com as projeções, iluminando a cena e mostrando quando é entrevista e memória. Adriana é craque, Nãna, vc ia adorar!

Você precisa ver que maravilha é a trilha sonora de Maracello H. Sabemos que os Marcelos são talentosos!! Trilha moderna, dinâmica, criativa, sonora, muito gostoso ver um batidão agitando a vida de uma grande dama.

Sabe quem está dirigindo? Maria Maya! Ela tem um DNA poderoso. Nascida e criada dentro de camarins, palcos e estúdios, não poderia ser diferente. Já vi muita peça dirigida por ela, e esta, em especial, está no rol das melhores. Maria consegue harmonizar luz, som, vídeo, figurino, atuação... Destaque para a ótima cena em que a atriz fala o texto de costas para o público e as pontuações das piadas. Um trabalho elegante, sólido, competente e que dá vida ao texto. Tem ainda o Michel Blois, diretor assistente que, certamente, tem grande participação neste belo trabalho.

E, deixei pro fim, Nãna querida, para te dizer que é ninguém mais, ninguém menos que Nathália Timberg quem está interpretando Iris Apfel. Ficou a cara dela! Ficou forte, bonito, moderno! Você precisa ver como Nathália tem domínio de cena, de seu corpo, da sua voz e da sua memória. Ela já está comemorando seus 90 anos, que só vão ser completados em 2019, mas sempre é hora para comemorar! Ver Nathália em cena é sempre um prazer e uma aula. Lembro de uma peça super densa no SESC Copacabana onde ela só movia os lábios! Era genial. Agora, Nathália se reinventa mais uma vez. Se abre para mostrar que, independentemente da idade, ser jovem é uma questão de cabeça. Nathália é jovem, igual a você era, Nãna querida.

Nãna, você era à frente do seu tempo, pena que já se foi. Nathália ainda está aqui assim como Apfel e são duas mulheres que servem de exemplo para todas. Trabalhando em suas profissões com a garra de sempre. Eu bati palmas de pé, pois a peça é excelente! E tem amigos meus produzindo, a Bruna, o Wesley e o Deivid, você já deve saber quem são. Os produtores da WB.

Você me faz muita falta, Nãna. Esta é uma daquelas peças que a gente ia assistir junto e ficaria horas conversando depois. Eu adorei e recomendo a todos que assistam “Através da Iris”! Meu amor eterno por você, Nãna.