segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

AUTO DE JOÃO DA CRUZ


Muito se cobra uma “autocritica” do PT aos anos de seu governo. As notícias divulgadas e deturpadas pela imprensa ajudaram a transformar a opinião pública. Obviamente erros foram cometidos e o partido sabe. Mas o estrago foi tamanho que se tornou difícil acreditar na versão correta. As perguntas que me faço: valeu à pena ter se alinhado à bancada da bíblia para se manter no governo? Foi realmente necessário se alinhar ao eterno PMDB para conseguir reeleições? Queríamos mudar o Brasil a qualquer custo, mas nos esquecemos da parceria com o povo? E então vieram as traições. Quando a fonte secou, “agora chega”, os aliados viraram as costas, contaminaram os ouvidos e deram o golpe. Em qual tempo, data, ano, dia, erramos?

A brilhante Inez Viana, conhecedora da obra de Ariano Suassuna desde 1998, nos apresenta, em cartaz no Teatro FIRJAN SESI, o inédito texto Auto de João da Cruz. “História de um homem ambicioso que, em busca de poder e riqueza, vende sua alma ao diabo, comete os mais horrendos crimes”, como diz o programa da peça. Faço aqui um paralelo ao primeiro parágrafo. Teríamos nós, e aí me incluo por votar no PT desde sempre, sidos ambiciosos ou ingênuos por achar que os aliados de bíblia e do boi seriam nossos parceiros para mudar o país? Auto de João da Cruz é tão atual que estamos vendo no dia a dia pessoas vendendo sua alma ao “novo diabo”, que há 30 anos parasita o governo, acreditando nele, em busca de uma melhora para suas vidas. É como disse Mário Lago Filho “um povo que, quando estava prosperando, achava que estava na merda e que agora, quando está na merda, acha que está prosperando” ...

Auto da João da Cruz conta a história de um rapaz que encontra poder e riqueza fácil pedindo apoio do diabo. Seu anjo da guarda o protege o tempo inteiro. O rapaz comete vários e graves crimes. E, no fim, como um bom Auto, o julgamento acontece. Numa pesquisa rápida, aprendo que “Surgida na Idade Média, na Espanha, por volta do século XII. De linguagem simples e extensão curta os Autos, em sua maioria, têm elementos cômicos ou intenção moralizadora. Suas personagens simbolizam as virtudes, os pecados, ou representam anjos, demônios e santos.” Em Auto de João da Cruz temos todos estes elementos com muito humor brasileiro e recheado de referências que estamos vivendo em nosso dia a dia.

No palco, o cenário de Nello Marrese deixa espaço aberto para as mais variadas cenas. Dois grandes arbustos de galhos secos mostram claramente que a peça se passa no nordeste brasileiro. Destaque para os cajados de bambu que viram caminhos e encruzilhada. O figurino de Flávio Souza abusa de tecidos leves e de algodão com ótimo resultado. Iluminando tudo a talentosa, e em franca ascensão, Ana Luiza de Simone. Uma luz linda. Destaque também para a direção de movimento de Denise Stutz.

O elenco, parte da Cia OmondÉ, que com este espetáculo celebra seus 10 anos de grupo, é encabeçado por Zé Wendell. Todos os elogios a ele por este trabalho são válidos. Zé Wendell tem neste espetáculo sua melhor atuação em peças de teatro que eu já o tenha assistido. Muito seguro, entregue de corpo e entranhas, seu João da Cruz é de uma verdade contagiante. Prêmios virão. Junior Dantas ótimo como Anjo da Guarda, André Senna como Cego e o diabo,  Tati Lima como Retirante e mãe de João da Cruz, Leonardo Brício como Guia, Elisa Barbosa como a doce e forte Regina, Luiz Antônio Fortes como Anjo Cantador (numa cena linda cantando para dizer umas verdades a João da Cruz) e, não menos importante, Iano Salomão como Peregrino, pai e Deus, formam este elenco afiado, competente e talentoso.

Inez Viana assina a condução da Cia OmondÉ e de Auto de João da Cruz. Uma direção segura, ciente do que quer mostrar, homenagear não só Ariano Suassuna, como mostrar a realidade da vida atual através de uma grande metáfora teatral. Inez faz de suas marcas um balé. Destaque para o presépio feito com atores e cajados, as cenas de encruzilhada, as idas e vindas de João da Cruz ao inferno, a utilização da boca de cena aproximando o público, e o emocionante final onde a plateia decide o destino do protagonista. Uma direção muito forte, intensa, sábia, dedicada e consciente.

Corra já para o Teatro FIRJAN SESI para assistir Auto de João de Cruz. Certamente você sairá de lá pensativo e leve. As gargalhadas são muitas, mas a reflexão intensa. Até que ponto nós vendemos nossa paz ao diabo em busca de algo fácil e rápido? Façamos todos uma autocritica sobre como estamos pensando nosso país, para onde queremos que ele vá. Sejamos todos nossos próprios julgadores, nossos anjos da guarda e nossos desafiadores. Abramos nossos corações para o Teatro do Nordeste, pois é de lá que virá o próximo salvador da pátria. Afinal, somos um país que acredita nesta figura. Que venha montado em seu cavalo branco e que traga muito teatro, arte, alegria, diversão e realização de sonhos. Vida longa ao Auto de João da Cruz e aplausos à cia OmondÉ pela beleza de seus espetáculos ao longo dos seus 10 anos.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

NOVOS BAIANOS



     Sentado na poltrona do teatro, meu programa predileto, pensei: quem está fazendo boa música no Brasil de hoje? Quem tem carreira construída, sólida, com melodia de qualidade, letras sonoras com conteúdo? Alguns nomes: os fenômenos Duda Beat e Tiago Iorc, a voz do norte de Gaby Amarantos, os jovens talentosos Jão e Maria Gadú, o rock de Pitty e As Bahias e a Cozinha Mineira, o extravagante Johnny Hooker. Uma geração mais acima temos ainda compondo com nível alto Carlinhos Brown, Vanessa da Mata, Ana Carolina e Isabela Taviani. E é preciso incluir neste pensamento os mega sucessos dos artistas Anitta e Pabllo Vitar que exportam o Brasil dançante de bundas e molejo. O Tio Sam está querendo conhecer a nossa... raba! Não sou apreciador de funk ostentação sexual – que gruda na cabeça – nem tampouco sertanejo de um acorde só com pitadas de sofrência e rimas fáceis e pobres.
       Veio de São Paulo, com temporada de sucesso e algumas indicações a prêmios, o musical Novos Baianos, em curta temporada carioca no Teatro Riachuelo. O bom texto de Lucio Mauro Filho faz um recorte na vida dos principais integrantes do grupo. Ficamos sabendo como se reuniram, onde moraram, quantos filhos, quais musicas fizeram, como ganhavam a vida e, principalmente, invejamos a sua liberdade e amor à música. Se em tempos de ditadura eles eram livres e faziam músicas maravilhosas, onde foi parar aquele brasil musical de alto nível? Ausência de referências? Não. Emburrecimento da população? Talvez. Os tempos mudaram. Eis aqui um registro cultural da época.
       Dirigindo este ótimo musical, Otávio Muller opta por uma liberdade cênica, pois tem em mãos talentos novos da arte cênica, provando que mais vale um encantamento visual pela simplicidade e valorizar as vozes e a história, do que se basear em firulas tecnológicas para contar uma história onde os protagonistas amam o simples. Destaque para a cena das mulheres cantando na boca de cena e Baby atravessando um disco voador. Ah, e é emocionante sentir o mar passando por sobre as cabeças da plateia e virando céu azul no palco.
       A direção de arte, cenário e figurino de OPAVIVARÁ! merecem todos os aplausos. Roupas coloridas com bom gosto, cenário simples e criativo, com destaque para as redes, o disco voador, as lampadinhas de led e os mini-trios-elétricos. Harmonia visual com elegância e talento. Na luz, Monique Gardemberg e Adriana Ortiz dão show. Vale destaque também a coreografia de Johayne Hildefonso e Gisele Bastos.
      Ninguém melhor que Davi Moraes e Pedro Baby na direção musical. Frutos do amor livre, nascidos em berço musical, têm no DNA, e ainda pulsa nas veias, o que de melhor tem a Música Brasileira. A reprodução fiel das músicas, do jeito que aprendemos a cantar, sem firulas e sem medleys, ajuda a contar a história e embeleza o espetáculo.
      O ótimo elenco tem Ravel Andrade como o poeta e narrador da peça Luiz Galvão, Barbara Ferr linda e talentosa se emprestando para Baby Consuelo (canta que é uma beleza!), Felipe El como Moraes Moreira, Filipe Pascual como Pepeu Gomes, Gustavo Pereira como Paulinho Boca de Cantor, Julia Mestre como Marilhona, Clara Buarque como Leilinha, João Moreira como Dadi, Miguel Freitas como Jorginho Gomes, Mariana Jascalevich como Marilhinha, João Vitor Nascimento como Gato Feliz e Beiço como Chacrinha. Um elenco unido, seguro, que canta bem, atua com competência e, acima de tudo, tem grande comunicação com o público.
     Chorei bastante durante a peça. Cantei quase todas as músicas. “Acabou Chorare”, número musical logo após a citação de João Gilberto, padrinho e professor da turma, foi um vale de lágrimas! Lágrimas de alegria, “saudade do que não vivemos”, ânsia que esta onda nefasta passe logo... E tudo acabou em “Besta é Tu” e saímos do teatro dançando. Corra pro Teatro Riachuelo e não perca este ótimo musical sobre o que há de melhor na nossa música. Aplausos de pé.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

BILLDOG 2



O que teria em comum um Filme Noir, uma história de mafiosos e o Piu Piu monstro? Este liquidificador de referências está no espetáculo Billdog 2, em cartaz no Teatro III do CCBB Rio. 


Após a longa jornada da peça Billdog, o ator Gustavo Rodrigues apresenta a segunda parte, não necessariamente uma continuação, mas uma nova aventura. Neste espetáculo, o matador de aluguel Billdog está diante de um amigo de infância que foi obrigado a mata-lo. Billdog dá uma lição no ex-parça mas não o elimina. Porém o mafioso que fez a encomenda, dá sim uma grande lição no rapaz, jogando-o num lago de lixo tóxico. O ex-parça vira um monstro, aterrorizando tudo e todos. e é Billdog quem tem que resolver a bagunça.


O texto e a concepção é do também ator e escritor inglês Joe Bone e a tradução de Gustavo Rodrigues com supervisão de Guilherme Leme Garcia.


No palco, Gustavo Rodrigues interpreta uma infinidade de personagens. Perdi as contas! Todos completamente diferentes um do outro e a mudança de atitude acontece em questão de segundos. Se existe alguma aula de interpretação e criação de personagens com corpo e voz está ai Billdog 2 pronto para os alunos entenderem como se faz. Gustavo é ótimo e se entrega com uma verdade e uma intensidade raramente vista em teatro. Seu suor escorre pela roupa – figurino de Reinaldo Patrício -, pelo rosto, pinga, voa. O mais impressionante é que só escorre nos personagens certos! Excelente trabalho.


Tauã de Lorena é o diretor musical e músico de cena, ilustrando as passagens e ações com seu violão certeiro e de alto nível. A luz de Aurélio de Simoni é cenário, é luz, é arte e é, acima de tudo, personagem. A arte do filme Noir está na luz criada. Uma beleza de conjunto. Ainda temos a participação de Guiga Fonseca na bateria.


O filme O Irlandês, em cartaz na Netflix nos mostra um faz-tudo-matador que vira amigo dos mafiosos pela sua elegância e ações certeiras. Billdog é o nosso representante nos palcos da saga dos matadores dos filmes do cinema de boa qualidade.


Não perca este brilhante espetáculo. O teatro feito por quem gosta, teatro de ator, com ótimo roteiro, direção, luz, som e atuação impecável. Aplausos de pé.