sexta-feira, 7 de julho de 2017

DESESPERADOS


A reinvenção da comédia no teatro já tinha acontecido faz tempo. Não estávamos em crise e nem havíamos notado. Lá atrás, há dez anos, assisti no Teatro do Leblon um espetáculo inovador e divertidíssimo, com Álamo Facó, Cláudio Gabriel e Igor Paiva. O trio arrebentava a boca do balão, fazia todo mundo rir. O mais interessante, além da versatilidade dos atores no revezamento dos papéis, era a simplicidade da montagem. Atores, macacão, velcro, luz e trilha sonora. Há quem diga que teatro é ator e luz. Há controvérsias!

A peça não tinha cenário e nem trocas de figurino. O aclamado velcro, usado em 9 entre 10 figurinos de espetáculos, tomou lugar de protagonista, auxiliando o público a acompanhar as histórias, uma vez que os atores colavam no peito os nomes dos personagens. Um golaço. Estariam os produtores, lá atrás em 2007, fazendo piada da pobreza que nos esbofeteia a cara em 2017? Seria, lá atrás, uma previsão do futuro sem patrocínios que enfrentamos hoje?

Marcus Majella, Pablo Sanábio e Sandro Chaim se uniram e resgataram o espetáculo Desesperados, texto e concepção de Fernando Ceylão, a mesma peça que eu tive o prazer de assistir em 2007! Um somatório de histórias divertidas, bem escritas, tendo como principais personagens a incompreendida Bia e o chato de galocha Marcondes. Ambos tentam, desesperadamente, conseguir a atenção de pessoas: Bia sofre com a amiga ocupada. Marcondes sofre com o amigo Ricardo.

Nesta nova montagem, temos um cenário composto de mesas e cadeiras de plástico pintadas de vermelho, criação de Daniel de Jesus, preenchendo o fundo do palco e servindo de apoio para os atores. O figurino é composto de roupa preta, calça e camiseta básica, com velcro no peito. É ali que os nomes dos personagens são colados. A iluminação de Daniela Sanches ajuda a contar a história, delimita ambientes e mantem o foco na atuação dos atores. Como bem disse meu amigo Rodrigo Monteiro: "Vale destacar a coreografia de Clara da Costa em uma deliciosa brincadeira dessa peça com o filme 'La La Land'."

João Fonseca dirige uma peça que tem atores competentes e texto brilhante. O que mais ele pode querer? Os ensaios devem ter sido um espetáculo à parte. É tanta criatividade junta que só um grande e generoso diretor para dar o laço na peça. João se preocupa em deixar claro o jogo entre os atores e a plateia, arrumar e conduzir a marcação, limpar as cenas.

Marcus Majella, Pablo Sanábio e Pedroca Monteiro são uma explosão de talentos. Pablo é gênio. Além de ser um “menino das ideias” (muitos espetáculos de colegas são sugestões do Pablo), ele se entrega e vive os personagens com garra. Pedroca é o nosso Ney Latorraca Versão 2.0! Seu bom-mal-humor, seu deboche, sua voz rouca, faz qualquer um rir. Majella é o pop-star da turma, responsável por trazer um público que, se não fosse ele, não iria ao teatro. Inegável seu talento para comédia. Da Porta dos Fundos ao Vai que Cola, Majella foi crescendo a ponto de levar seu Ferdinando para um voo solo na Tv. O trio é unido e generoso. Se completam, são parceiros. São atores!!

Em épocas de vacas magras o teatro precisa se reinventar, novamente. Se apoiar na criatividade e tocar o barco para não sumir do mapa. Com salas de espetáculo fechando, público diminuindo, preços dos ingressos despencando, a solução é fazer o povo rir das desgraças.

O teatro é a arte da resistência. Estamos todos desesperados, sem esperança. Então, vamos rir, juntos, da desgraça que nos abate. Tenho a certeza de que rir é o melhor remédio. Vá por mim! Vá ao teatro. Assista a Desesperados! Dê uma banana para a crise, pois o presidente disse que não há crise no Brasil! Em vez de comprar seu hambúrguer gourmet, compre uma entrada de teatro!

quarta-feira, 5 de julho de 2017

SUASSUNA - O AUTO DO REINO DO SOL



A primeira vez que assisti esta turma junta foi em Gonzagão, a Lenda. Na metade da peça eu já sabia que o grupo ia ter vida longa. O conjunto era algo que vibrava, um mix de atores, cantores, palhaços e músicos. Daquele espetáculo nasceu A Barca dos Corações Partidos. Na sequência veio a Ópera do Malandro. E, ano passado, o musical Auê. Sou suspeito para falar de Auê, pois foi um espetáculo que me pegou num momento bastante sensivel e virei fã incondicional do espetáculo.

No ano em que completa 90 anos, Ariano Suassuna recebe uma belíssima homenagem desta mesma Barca. A peça O Auto do Reino do Sol, em cartaz no Teatro Riachuelo – alias, uma beleza de teatro. Ainda não tinha ido e fiquei encantado – é a história de uma trupe de teatro, um casal de namorados em fuga, uma família que se odeia, jagunços, risos, lágrimas... ou seja: ingredientes preferidos de Suassuna.  O texto de Braulio Tavares bebe bonito na fonte de Ariano, se utiliza de nomes, cidades e situações criadas pelo dramaturgo, poeta, romancista e professor, que nos deixou em 2014. Frases emblemáticas de Ariano “Não sei, só sei que foi assim” estão nesta homenagem.

A direção de Luiz Carlos Vasconcelos é primorosa! Um trabalho de excelência, onde toda a competência vocal, circense e interpretativa dos atores é explorada. Luiz Carlos também bebe na fonte do sertão nordestino e imprime lindas cenas de fotográficas coreografias, ocupando todo o palco e usando das melhores ferramentas que dispõe: os integrantes da Barca dos Corações Partidos. Linda a cena em que os patriarcas das famílias rivais bradam ódio, juntos, no palco, porém em casas separadas. Belíssimo também é o grupo de retirantes, logo no inicio da peça, trazendo as mazelas do dia a dia da região.

A cenografia, de Sérgio Marimba, é composta de uma carroça de ferro extremamente bem cuidada e carregada de leves adereços – que serve tanto para o balcão da mocinha quanto para transportar a trupe do circo. O fundo do palco ganha a lona do circo feita com um pano branco que permite luzes de São João servirem de estrela. Impecável é o figurino de Kika Lopes e Heloisa Sockler. Bonitos e bem confeccionados. Renato Machado ilumina tudo com a qualidade e bom gosto de sempre.

A trilha sonora criada por Chico Cesar, Beto Lemos e Alfredo De Penho tem a cara da Barca, a competência do grupo, referências nordestinas, transforma história em música e são sempre bem executadas pelos atores.

Além da indiscutível qualidade do grupo, a Barca dos Corações Partidos, resultado da união de Alfredo del Penho, Rica Barros, Fabio Enriquez, Beto Lemos, Eduardo Rios, Adrén Alves, Renato Luciano, recebe os atores convidados Rebeca Jamir, Chris Mourão e Pedro Aune. Afinados, dedicados, integrados e inteiros, o grupo mostra que mantém a sua força inicial, firme no propósito de levar o mix de circo, show e teatro para o palco, onde quer que se apresentem.

Suassuna - O Auto do Reino do Sol é um trabalho da mais alta competência teatral. Um musical brasileiro, falando do nordeste, homenageando Suassuna e mantendo a Barca dos Corações Partidos no universo onde tem total domínio e a qualidade de todos os anteriores.

Vale muito a pena assistir a este trabalho e aplaudir, sempre de pé, a Andrea Alves pela idealização, a Sarau pela produção, a toda equipe envolvida e à Barca dos Corações Partidos pelo conjunto da obra!! Viva!

terça-feira, 4 de abril de 2017

FALANDO FRANGAMENTE


Que o mundo mudou não há a menor dúvida. Como nos encaixamos nesta terra de MeoDeus é que são elas. Falar francamente sobre um assuntos é tarefa para quem tem confiança em si e não tem medo de ser mal compreendido. Os hateres de plantão estão a postos, com seus dedos ágeis, para detonar quem não tem argumentos para defender seu ponto de vista.

Uma boa saída para este momento é dar uma pernada nos chatos politicamente corretos e fazer piada de si e dos absurdos que estamos vivendo. Assim é Falando Frangamente, genial espetáculo de Aloisio de Abreu, em cartaz às quintas-feiras na Sala Rogério Cardoso, no porão da Casa de Cultura Laura Alvim. Encarar uma platéia, bem de perto e sendo politicamente incorreto, com elegância, é o prato principal do cardápio deste espetáculo, que só um profissional de nível elevado pode fazer.

Tudo começa com um casamento, um acordo entre ator e seu público. Prometemos, solenemente, a nos comportar como a melhor platéia do mundo e nos divertir a vontade, sem amarras, soltar o riso e a casar com quem fará de tudo para atingir seu objetivo: o aplauso.

Temos na parede do fundo dois grandes cardápios, tabuletas escritas a giz, dizendo o que vem pela frente, e uma cadeira de acrílico. A iluminação é a necessária para um espetáculo de comédia e o figurino, o bom e simpático preto elegante.

Com seu imenso carisma, e domínio do palco, Aloisio faz piada do empobrecimento da língua portuguesa nas redes sociais. A falta do “r” nos verbos, dos “s” nos plurais e das errôneas conjugações verbais, somam-se ao excessivo abreviamento de tudo. Em seguida, ainda no tema da falta de cultura que nos assola, nos apresenta uma musica com todos os filósofos e suas máximas. Gargalhadas. No cardápio, apresenta duas traduções livres de músicas em inglês, onde os fonemas superam o real sentido da música na língua protuguesa.

Aloisio, num dos melhores momentos da peça, resgata o humor de Jerry Lewis, na antológica cena que transforma a máquina de escrever em instrumento musical. Ainda na linha do “vou falar francamente sobre tudo”,  expõe um divertido conhecimento sobre o “orifício anal”. Ele zomba da ditadura da dieta numa brilhante paródia da música Resposta ao Tempo.

A gargalhada aumenta quando Aloisio interpreta três cantoras, recém saídas de uma plástica, se apesentando num show. É uma crítica das mais brilhantes à ditadura da beleza e do rejuvenescimento constante. Para terminar e deixar todos com gostinho de quero mais, critica as coreografias nada-a-ver dos videoclipes juntando, num balé, passos que jamais seriam apresentadas naquele contexto.

Além do texto criativo, pesquisado e inteligente, Aloisio nos presenteia com novas sub-versões de músicas brasileiras ao melhor estilo besteirol, tendo ao seu lado um fiel escudeiro DJ, o grande LC Ambiente, responsável por manter as melhores pistas cariocas lotadas sempre que toca os sucessos do mundo Pop.

Teatro é palavra e ator. Em Falando Frangamente a atuação do Aloisio é das mais completas: ele canta, dança, representa, usa o palco com domínio, tem carisma e simpatia.

Falando Frangamente é recheada de boas referências, zomba do dia a dia com atuação convincente, inteligente e sagaz. Um oásis neste momento tão dramático e depressivo em que vivemos em nosso Rio de Janeiro.

Assista, tire uma noite de quinta-feira, vá ao teatro, prestigie este espetáculo cheio de bons adjetivos. Aqui, neste espaço, só me cabe convencer você a ir ao teatro. Pois, confie em mim! Vá assistir ao Aloisio de Abreu no excelente e necessário Falando Frangamente e saia de lá com suas bochechas doloridas de tanto rir.

Video da cena de Jerry Lewis - https://www.youtube.com/watch?v=VxAmJumKcUk

sábado, 25 de março de 2017

GISBERTA


Primeira viagem a Lisboa e me pediram para levar uma encomenda. Trouxeram um pacote, nem abri, guardei. Na alfândega portuguesa, abriram minha mala. Conversa vai, conversa vem, a senhorinha que vasculhava foi com a minha cara e parou a busca: “Gostei de ti. Podes ir.” Obedeci. Ao entregar a encomenda, o pacote foi aberto. Surgiu um vestido de canutilho, branco, no melhor estilo divas do mundo pop, engenhosamente dobrado para viajar sem ocupar espaço. E se fosse um pacote com drogas? Nem pensei nisso! O figurino foi entregue para Margô, transexual brasileira que ia se apresentar na cidade naquele fim de semana. Fomos assistir ao espetáculo da Drag, que me agradeceu, ao microfone, pelo transporte da roupa que usava naquele show.

A primeira vez que vi Luis Lobianco no teatro foi num espaço cultural em Botafogo, onde ele interpretava Marilia Tagarela. A melhor imitação que já assisti de Marília Gabriela! Foi ali que passei a segui-lo, admirá-lo e acompanhar sua carreira.

Está em cartaz no Teatro III do CCBB, Gisberta, excelente espetáculo contando um pouco da vida e da artista, sua vida em família, os amigos que fez em Portugal e seu trágico fim: assassinada na cidade do Porto em 2006 por um grupo de adolescentes. Coube a Rafael Souza Ribeiro a construção do texto. No começo, temos a infância e a adolescência, do pequeno Gisberto Junior, contadas de uma forma leve e divertida. Em seguida, a vida adulta e o inicio na carreira são ilustrados com números musicais. Por fim, a parte dramática pesada, culminando com a sentença do Juiz que condenou os jovens a meros 13 meses de reclusão. Rafael faz uma ótima costura entre depoimentos que nos dão a exata dimensão da grandeza de Gisberta.

No palco, o cenário de Mina Quental ocupa com competência o espaço, deixando músicos ora à mostra, ora escondidos, apenas com a alternância da iluminação no tecido. Ótima solução para os patamares dividindo realidade, sonho, show e proximidade com a plateia. A confecção da mesa com cadeira embutida é perfeita. O figurino de Gilda Midani permite que Lobianco, com um macacão e uma túnica, tenha a leveza necessária para contar a história. A belíssima iluminação do sempre competente Renato Machado nada num oceano de cores, com destaque para a luz vermelha e verde, cores da bandeira portuguesa, num determinado numero musical. A comovente trilha sonora, interpretada ao vivo, tem como diretor musical e pianista Lúcio Zandonadi, a flautista Danielly Souza e o clarinetista Rafael Bezerra.

A direção é assinada por Renato Carrera e este sabe conduzir o espetáculo de uma forma bastante leve e divertida até a metade, fazendo o publico se apaixonar por Gisberta, e tensa e assustadora na sua parte final, terminando com um belíssimo número musical que sintetiza a humanidade e o talento da homenageada. Gosto quando o espetáculo inclui a plateia, pedindo para cantar junto e dividindo confidências.

Luiz Lobianco dá vida a personagens importantes na história de Gisberta: familiares do sangue brasileiro e da vida portuguesa, um juiz, e ele mesmo, emprestando todo seu talento e competência para fazer um pouco de justiça a Gisberta. O melhor trabalho de Lobianco em toda a sua carreira. Superou até aquela Tagarela onde o conheci. Amadurecido, seguro e consciente de seu papel social como artista, Lobianco se entrega, enfrentando de peito aberto os críticos de plantão para mostrar que ali quem manda é ele. Já pode separar espaço na prateleira para receber todos os prêmios de teatro como melhor ator de 2017. Lobianco vai do drama à comédia numa mesma noite.

Atualmente estamos assistindo filmes – Divinas Divas, dirigido por Leandra Leal e premiado no festival South by Southwest nos Estados Unidos como melhor filme -, peças  de teatro – BR Trans, estrelada por Silvero Pereira - e programas de televisão  - Amor e Sexo, apresentado por Fernanda Lima - dando voz a transgênicos, artistas do transformismo, Drag Queens, Crossdresseres – como o cartunista Laerte.

Gisberta já é um dos melhores espetáculos de teatro de 2017. Será difícil superar a qualidade técnica, o talento da equipe e a competência da produção de Cláudia Marques. Foram dez minutos de aplausos ininterruptos, e ficaríamos lá aplaudindo se Luiz Lobianco não tivesse que sair do CCBB e para encarar, na mesma noite de sexta-feira, personagens hilários no show Buraco da Lacraia Opera House, em cartaz numa boate na Lapa carioca. Via longa ao espetáculo! Viva Gisberta! 
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