segunda-feira, 31 de agosto de 2015

ESTÚPIDO CUPIDO


Conheci Françoise Forton, a Tetê da novela Estúpido Cupido, numa apresentação de As Lobas, no Teatro Clara Nunes. Depois da peça, houve um jantar no Hotel Copa D`Or, que virou hospital. Nossa primeira gargalhada juntos foi num restaurante no Largo do Machado, quando fomos assistir um show duma cantora amadora. Peço licença para contar outra história nossa: foi no Scala Rio, que virara teatro. A peça, “Com a Pulga Atrás da Orelha”. Durante 3 dias seguidos eu fui lá na saída esperá-la para jantarmos depois. No quarto dia... ela me apareceu loura!! “Loura?”- perguntei. “Loura...”- ela respondeu... Era a personagem de Kubanakan quem pedia a transformação. E por muito tempo a chamei, carinhosamente, de Loura.

Está em cartaz no Imperator, um dos melhores teatros da cidade do Rio de Janeiro, o musical Estúpido Cupido. Escrito por Flávio Marinho, a peça começa com as amigas Tetê e Ana Maria se encontrando para falar da festa de reencontro dos amigos do colégio. Ana Maria tem a missão de tentar convencer Tetê a comparecer e encarar o ex-marido Frank, a ex-amiga-desafeto Wilma e o garotão da época motivo de suspiro das meninas da turma, Teddy. A fluência de como a história é contada e a alternância entre presente e passado, é muito bem resolvida por Flávio Marinho. Alias, Flávio é craque. Sabe construir bons personagens, contar história com conteúdo, fazer rir e emocionar a plateia. Impossível não lembrar das nossas turmas da adolescência e, melhor, imaginar o que foi feito deles.

O cenário da Clívia Cohen é composto de estruturas em treliça prateada que se movem, ora como arquibancada, ora passarela, servindo muito bem para a movimentada  direção. O figurino, também de Clívia, é bonito, colorido e bem confeccionado. Com cores menos vibrantes para os personagens do passado, e cores muito alegres para os personagens do presente, a beleza do conjunto no palco é inegável. Bom também é ver o capricho da iluminação de Paulo Cesar Medeiros.




Como toda festa, as danças são muito bem vindas, por isso a coreografia de Mabel Tude é excelente. Gestos suaves e característicos da época – fim dos anos 60 e inicio dos anos 70. Sabemos que ali estão atores e não dançarinos profissionais e o mérito da coreografia é a competência com que todos executam o trabalho de Mabel. Liliane Secco é a diretora musical, acertando nos arranjos e tons dos números musicais, sabendo explorar com exatidão a capacidade vocal de cada ator. Os músicos Guilherme Viotti, Felipe Aranha, Jean Campelo executam não só os números musicais como também a sonoplastia. Gosto muito quando isto ocorre.

O elenco é composto de 11 atores, sendo 5 atuando como o passado dos personagens principais: Luisa Viotti, Julia Guerra, Ryene Chermont, Ricardo Knupp e Mateus Penna Firme. Todos cantam muito bem e sabem defender seus personagens para que sejam rapidamente reconhecidos com os seus pares “no presente”. Carlos Bonow é Teddy, o playboy da época e que ainda tenta se manter jovem, mesmo com a idade chegando. Tanto é que busca na ninfeta funkeira Danieli, interpretada por Carla Dias, a manutenção de sua jovialidade. Bonow e Carla Dias batem um bolão e são responsáveis por momentos de risos da plateia. Sheila Mattos é Wanda, a amiga-cobra, aquela que chega para atazanar a vida dos demais na festa. Aloisio de Abreu é Frank, ex-marido de Tetê, ainda apaixonado. Adoro Aloisio em cena! Seu momento Frank Sinatra é aplaudido com calor por todos. Clarice Derzié Luz é a engraçada e segura amiga Ana Maria. Ótima!

Confesso minha imparcialidade sobre Tetê, interpretada por Françoise Forton. Além de um carinho mais que eterno, dito e repetido várias vezes, vê-la em cena, realizando um sonho, é o que mais se pode esperar e desejar a um amigo. Sem sombra de dúvidas, sua Tetê é segura e extremamente emocional. A interpretação da música Estou Aqui é sensacional, o ápice da peça. Ali não é Tetê cantando, é Françoise. Linda como sempre, mostrando não só a sua garra como atriz, mas também que seu lugar é no palco, na tv, no cinema, ou seja, atuando para seu público.

Comandando a montagem, o sempre genial Gilberto Gawronski. Ótimo ver os personagens se comunicando com seus similares “do passado” e, ao mesmo tempo, tão presentes como integrantes da festa e coro vocal. A movimentação de cenário e a utilização do palco é inteligente, não havendo cenas sujas nem uma voz ou interpretação fora do tom. Um belo trabalho.

Queria eu poder encontrar amigos do passado numa festa... Lembro da turma da natação do América F.C. nas festas na casa da Patrícia Werner. Dos amigos do Instituto Guanabara nas festas no play da Priscila Iglêsias... Não lembro da novela, infelizmente. Talvez da abertura exibida à exaustão no Vídeo Show. Como sempre estudei à tarde, tampouco assisti reprise. Saí do teatro feliz e emocionado. Ver uma amiga feliz, bonita, realizada, é todo que se quer. Parabéns a toda equipe, ao produtor Eduardo Barata, elenco e músicos. Vida longa a Estúpido Cupido!!

 

Video de Françoise em Estúpido Cupido:

http://globotv.globo.com/rede-globo/memoria-globo/v/estupido-cupido-maria-tereza-sonha-em-ser-miss/2507234/


terça-feira, 25 de agosto de 2015

CHÃO DE ESTRELAS

 

“Quanto riso, oh, quanta alegria / Mais de mil palhaços no salão / Arlequim está chorando / Pelo amor da Colombina / No meio da multidão”

Quando fui a Porto de Galinhas, me apaixonei por um palhaço de cerâmica à venda. Havia mais 6, em posições diferentes. Mas o preço...nas alturas. Não dava pra trazer todos. Trouxe um, no meio das pernas, no avião da falecida VARIG. Hoje, o palhacito habita minha sala. De lá pra cá, alguns palhaços vieram para completar a decoração. Lembro d’um filme onde Jarry Lewis, de palhaço, faz de tudo para animar as crianças. E nada. Aí... ele chora... e a meninada se esbalda... Na verdade o filme é trágico (pano rápido!) - "O dia que o palhaço chorou" – livre tradução do título.

Nunca me vesti de palhaço no carnaval. Se sim, que provem! Aproveito para fazer uma confissão: sonho ainda, em fugir com um circo, quando nada mais me restar... E passar a vida mambembando por aí, alegrando crianças de 8 a 80 anos, com o rosto pintado de branco e o nariz vermelho na frente, escondido atrás da máscara, feliz da vida.

Está em cartaz no Teatro dos Quatro, terças e quartas, a comédia romântica musical “Chão de Estrelas”, que conta um momento, uma passagem, na vida de um palhaço e uma bailarina, artistas de rua, que se encontram numa praça, ou em algum lugar de uma grande cidade. Enquanto isto... vão contando a um público imaginário (a plateia), uma história de amor, encontro, desencontros, revelações, tristezas e alegrias, através das mais importantes músicas da MPB no Rio Antigo. Linda, a bailarina, e Dom, o palhaço, são personagens de um roteiro muito bonito, bem costurado e criativo de Marcelo Albuquerque.

Ao longo das 64 músicas do repertório, ora trechos, ora completa, Sabrina Korgut e Tiago Higa dão show de simpatia, competência vocal, preparo físico e interpretação. Sabrina já acompanho desde a Ópera do Malandro e desde então vou sempre ao teatro quando ela está no palco! Sua bailarina é delicada, forte, animada, decidida. Aproveita cada nota musical para dar vida a Linda. Tiago é uma grata surpresa. Não lembro de tê-lo visto ainda em cena e sua presença, seu palhaço Dom, é daqueles para se colocar na estante de casa, puxar a cordinha e ouvi-lo cantar o tempo todo.  A dupla é generosa e está unida para que o espetáculo saia perfeito. Aplausos!

A cenografia, de Leandro Marins, deixa livre o palco para que os artistas de rua façam as piruetas, contem seus dramas. Dois postes, um latão de óleo, uma cortina de luzes, um voil preto que nos faz imaginar um sonho e, o mais bonitinho de tudo, a cerquinha de madeira branca que limita a área dos músicos. Como se fosse um coreto de praça. O figurino, também do Leandro, é bastante colorido, como pedem aqueles que vivem da arte de encantar crianças e adultos nas ruas da cidade. A luz - também do Leandro - é linda! Aproveitando bem cada momento, cada foco, cada música para valorizar o espetáculo. A direção musical de Tony Luchesi é rica em detalhes harmônicos.

No comando deste recital, Rubens Lima Junior, que vem se firmando como um dos mais aplaudidos, seguidos e valorizados diretores de teatro do Rio de Janeiro. Seu trabalho, tanto na Uni Rio com os grandes musicais quanto os intimistas, é sempre um primor. Como não podia deixar de ser, Rubens contribui com segurança para que números musicais, atuações, marcas e ritmo estejam em harmonia.

Nesta época em que a palavra de ordem é Crise, Corte de Gastos, Desemprego e afins, a música Marcha da Quarta-feira de Cinzas, nos diz que “E no entanto é preciso cantar / Mais que nunca é preciso cantar / É preciso cantar e alegrar a cidade”. E é justamente isto que “Chão de Estrelas” faz: alegra a nossa cidade. Mostra que é possível produzir um musical de bom gosto com qualidade e economia, onde o mais importante é fazer as pessoas saírem felizes e emocionadas do teatro, esquecendo, por alguns momentos, a vida dura cotidiana. Viva “Chão de Estrelas”!

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

LISBELA E O PRISIONEIRO - O MUSICAL


Conheci o Frederico Reder quando estávamos, ao mesmo tempo, em cartaz no Shopping da Gávea. Eu produzindo O Casamento de Dona Baratinha, ele O Circo Reder. Era um sucesso. Quando o teatro de um lotava, doávamos publico para lotar o do outro. E nesta função ficamos mais de 2 meses com as casas cheias. Bons tempos em que o teatro infantil bombava na Gávea. De lá, Frederico abriu o Net Rio, trazendo o Teatro Tereza Rachel de volta para os cariocas. Uma das melhores salas de espetáculo da cidade, não há dúvida.

Quando pequeno, costumávamos ir aos circos, lá na Praça Onze, onde o recém falecido Orlando Orfei pousava a sua lona e fascinava as crianças cariocas. Foi ali que me apaixonei por trapezistas, mágicos e palhaços. Talvez daí venha também meu lado bufão, que tem por prazer fazer os amigos rirem.

Juntando as duas histórias acima, fui assistir, no Teatro Net Rio – Sala Tereza Rachel, o simpático espetáculo Lisbela e o Prisioneiro – o Musical. A história, adaptada por Francisca Braga, conta a vinda de Leléu, um artista de circo, a uma cidade do interior, com sua trupe, após ter ser envolvido com a esposa de um matador. Nesta cidade, conhece Lisbela, noiva de Douglas, recém chegado do Rio de Janeiro. Leléu e Lisbela se apaixonam. E o furdunço começa. É matador pagando promessa, é noivo em busca do romance perdido, é pai bastante preocupado com a filha... Tudo bem temperado com humor, gírias e sotaques. Faz um tempo história de Osman Lins teve montagem dirigida por Guel Arraes no teatro e no cinema.

O circo fica muito bem integrado no espetáculo. Temos o prazer de assistir a números de tecido, argolas, correntes, chicotes e palhaços, a maioria pelos ares! É louvável o casamento do circo com o teatro. E, de volta às origens, Frederico Reder traz para o seu teatro um espetáculo com o circo, ao vivo, no palco. Um encanto para todas as idades.

Além dos números musicais, a história é amparadas por canções executadas ao vivo por uma banda. Estão ali Caetano (que havia composto uma musica especialmente para o filme), Pixinguinha, Zé Ramalho, Dominguinhos, entre outros. A plateia canta junto.

Luiz Araújo é Leléu, dono do circo e “o prisioneiro”. Um ótimo ator com preparo físico e vocal, dedicado ao espetáculo. Lígia Paula Machado é Lisbela. Carismática, bonita, também muito preparada e estudada. Ligia se preparou e arriscou mostrar seu talento para quem não a conhecia. O publico torce para que Lisbela consiga se desfazer das amarras e cair nos braços de Leléu. Beto Marden é Douglas, o carioca-noivo. Hilário!! Construiu muito bem seu personagem coadjuvante que rouba as cenas, mesmo calado, só com o olhar. É o responsável pelas gargalhadas da plateia. Nill de Padua é o pai da mocinha e defende com bravura sua rebenta! Milene Vianna é a meiga Fransisquinha, namorada do atrapalhado Cabo Citonho, personagem de Jonatan Motta, que também toca violino em cena. Dan Rosseto é o bandidão que veio vingar o par de chifres que ganhou de sua mulher Inaura, interpretado por Millene Ramalho. Todos estão muito bem em seus papéis e mostram que são um grupo unido. Completando o elenco, os acrobatas Roger Pedenzza e Tarik Henrique


A cenografia é composta por duas escadas em curva que levam ao topo de uma boca-de-cena, como nos circos antigos. Tudo com rodízios, permitindo diferentes configurações para as cenas, números musicais e circenses. Criação de Kleber Montanheiro que também assina o figurino e a iluminação.

Dirigindo o espetáculo, Ligia Paula Machado e Dan Rosseto conseguem mesclar, com sucesso, teatro, circo e dança, sem prejudicar o andamento do espetáculo. Utilizam com confiança o palco, mas, por causa da altura do palco, os números circenses ficam prejudicados. Porém não tira o brilho da peça. Ainda apoiando a direção, a coreografia, assinada pela dupla, é bem executada. Dyonisio Moreno é o diretor musical comandando sete músicos!


Se o objetivo do grupo era mostrar-se preparado para encarar tanto a cena teatral paulista quanto a carioca, acertaram em cheio. Sou fã de quem “empurra o mundo pra frente”, se produz, e não fica acomodado esperando um convite cair do céu. Com esta peça, temos um grupo unido e preparado para estar em qualquer musical, peça comercial, clássicos, programas de televisão e filmes nacionais. Este é um espetáculo que comprova a qualidade de cada um. Lisbela e o Prisioneiro – o Musical, consegue reunir, com méritos, circo, teatro, dança e música. Agrada a crianças e adultos. Um espetáculo para toda a família e que merece todo nosso aplauso.

domingo, 16 de agosto de 2015

ANTOLOGIA DO REMORSO


É sábio o dito popular : “Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida”. Uma vez falado, fica complicado consertar. E se eu não tivesse falado nada?? Fazer cagadas deste tipo é típico de sagitarianos. Como bom exemplar do signo, aprendi que não se deve passar a mão na barriguda perguntando para quando é o bebê; a não perguntar para o amigo sobre o companheiro apresentado no último encontro; e não questionar sobre o almejado projeto, se deu, ou não, certo. É desconcertante a resposta: estou gorda, não grávida; o outro me deixou recentemente; o projeto foi por água abaixo. Dar conselhos, muito menos. “Ah, se você tivesse feito o que eu sugeri, não estaria nesta situação”... isto só piora. Pelo simples fato de que o “se” não existe. Se eu tivesse continuado na engenharia, talvez não tivesse blog de teatro... O “se” é a eterna duvida. E, após o malfeito, o que nos resta é o remorso.


Está em cartaz no Teatro Gonzaguinha, no Centro de Artes Calouste Gulbenkian, o ótimo espetáculo Antologia do Remorso. A anta que vos escreve recorreu ao nosso amigo Google e confirmou o que já sabia, mas queria uma definição melhor: “Antologia é o termo usado para categorizar coleções de obras curtas, tais como histórias curtas e romances curtos, em geral agrupados em um único volume para publicação”. Pois na peça estão reunidos textos curtos de Flávia Prosdocimi, onde o tema remorso é recorrente. Quando li o titulo, imaginei imediatamente uma novela mexicana do SBT. Estaria eu caindo na armadilha do preconceito? E se não fosse isso? O jeito era conferir de perto.

É inegável que a autora bebeu na fonte de Nelson Rodrigues. Impossível não lembrar do cronista e dramaturgo ao longo do espetáculo. Depois da terceira história, já temos a certeza de que vem mais uma morte e ficamos ansiosos por saber como e quem vai morrer nas histórias.

Em todos os contos, além do remorso, temos a família brasileira representada. Ora um marido ciumento, ora uma esposa fogosa. Um carnaval serve de pano de fundo, uma criança é o alvo da cena. A forma de escrever, em parte narrando, em parte diálogo, é muito bem resolvida pela autora, que tem mão firme e sabe ser econômica. Não me recordo de ter visto recentemente nenhum autor que se aproxime tanto de Nelson Rodrigues quanto Flávia. E isto é uma dádiva. Pra mim, ainda hoje, Nelson Rodrigues é o melhor exemplo da boa dramaturgia brasileira. E Flávia chega para preencher uma lacuna. Aplausos.


No palco, a cenografia é composta apenas de 3 cadeiras que, por milagre, inteligência e criatividade, guardam, nos assentos, parte do figurino que é trocado ao longo da peça. Mérito (cenário e figurino) de Júlia Marina. A iluminação, de Tiago e Fernanda Mantovani, completa o cenário, dá ainda mais vida às cenas, cria sombras e míseros espaços cênicos, auxiliando, e muito, todo o trabalho da direção e atores. Uma das melhores iluminações de espetáculos de teatro deste ano.

A direção é de Daniel Belmonte que sabe muito bem onde quer chegar. Caprichando na interpretação, pausas e degustação das palavras, Daniel explora tudo que o texto lhe oferece. Acerta nas entonações, é atento na dicção, nos momentos em que, mesmo sendo narrado, o texto pode ser interpretado, no intervalo entre os contos, na inserção sonora, na escolha da trilha (que muitas vezes completa a ação e valoriza o conto) e, além de tudo, explora o palco com inteligência. Nada ali é gratuito. Certamente houve uma contribuição dos atores na movimentação de palco, e, inteligentemente, Daniel aproveitou tudo que cabia e seria favorável ao espetáculo. Aplausos.


O elenco é composto por três jovens, inteligentes e talentosos atores. Todos se destacam e aproveitam cada palavra, cada cena, cada monólogo como se fosse a joia mais preciosa do momento. O trio formado por Elizabeth Monteiro, Gustavo Barros e Tiago D’Ávila bate uma bola redondinha. Cada um se entrega aos personagens com gosto, com prazer. Se divertem em cena, é notável. Entram num jogo familiar a cada novo conto, novo texto, e deixam a plateia com água na boca e boquiabertos. Excelentes atuações, o que prova, cada vez mais, que o teatro carioca está vivo e seus novos atores chegam com força no mercado, querendo espaço e reconhecimento. Ótimos!

Antologia do Remorso, embora sem um título convidativo, é um ótimo espetáculo. Ali está o que há de melhor no teatro carioca do momento: texto de qualidade, direção certeira, atores dedicados e equipe competente. Torço para que a peça tenha ainda vida longa e rode a cidade (e o país) de norte a sul, mostrando um pouco da atualidade de Nelson Rodrigues sob um olhar jovial e moderno de Flávia Prosdocimi, Daniel Belmonte e os atores.


A peça fica em cartaz até o fim de agosto. Então, reserve na agenda um dia (de sexta a domingo) para assistir ao espetáculo, abraçar os atores no final, e, depois, sair para discutir tudo aquilo que viu no palco do Teatro Gonzaguinha. É mais um dos espetáculos que recomendo. Certamente você, assim como eu, ficará ainda mais apaixonado pela arte de representar. Aplausos de pé com gritos de Bravo!

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

BR TRANS


Quando Rose Bom Bom apareceu na capa da Revista O Globo, num domingo, foi, pra mim, o marco do reconhecimento da arte de um transformista. Rose fez escola. Poderia citar vários artistas. Terça Insana, grupo de comediantes, incluiu no seu elenco Silvetty Montilla e, sem dúvida, uma das atrações mais divertidas de todas as temporadas. O reconhecimento dos artistas que se travestem de mulher ou de homem como arte está mais do que na hora ser levado a sério. Rogéria aparece nas novelas regularmente. Jane de Castro está em cartaz num grande teatro carioca! RuPaul DragRace está no Multishow para quem quiser ver! Até mesmo um Profissão Repórter dedicou reportagem ao universo transexual. “Tá pensando que travesti é bagunça? Não é bagunça não.”

A alegria que um travesti, transexual, transformista apresenta quando está montado é totalmente diferente de sua luta diária por direitos iguais. Partindo do princípio de que somos todos iguais perante a lei, que se faça cumprir a constituição e que todos os direitos LGBTs sejam reconhecidos.

BR TRANS estreou esta semana no Teatro III do CCBB. Resultado de pesquisa, via edital do Ministério da Cultura, o espetáculo apresenta passagens reais sobre violência, exclusão, coletados no Ceará e no Rio Grande do Sul.

A dramaturgia, de Silvero Pereira é composta de histórias, como da transexual que é demitida, por ser o que é, e tem que mergulhar na prostituição para sobreviver; daquela que tem que ser chamada pelo seu nome de batismo em casa, pois a família não permite seu nome desejado; da que sustenta um garoto mais jovem; a noite de estreia de uma novata nos palcos da vida; e outras que estão na peça. A costura entre as cenas do texto é a narração do ator sobe como aconteceram as experiências durante o processo de pesquisa. Sábia costura. Um texto bastante realista que traz à tona histórias tristes, tratadas com respeito. Diferentemente de programas de tv sensacionalistas, que tratam desgraça com humor negro. Quem conhece Vanessão, sabe o que estou dizendo. Cata no youtube pra você ver. 

A cenografia, assinada por Silvero Pereira e Marcos Kung, facilita a movimentação cênica. No palco, estão apenas elementos necessários para ilustrar a história, lugar onde todos os personagens habitam. Ali tem camarim, mesa, banco, biombo, tecidos, presentes. O figurino excelente, assinado também por Silvero, tem uma cueca na cor da pele, que nos mostra o artista nu diante da plateia, sem estar pelado. As roupas dos números musicais são ótimas e também a roupa em que Silvero “se veste de homem”. A luz é realmente inovadora. Assinada por Lucca Simas, refletores em pedestal no palco, abajur e ribalta são acendidos e apagados por Silvero, e transformam a cena a cada momento, fugindo do tradicional. Inteligente e criativo. Destaque também para a projeção de Ivan Ribeiro. Rodrigo Apolinário é o músico pianista que executa otimamente não só a trilha sonora criada por ele próprio, mas a canções conhecidas que os personagens interpretam.

Em cena, Silvero Pereira dá vida a vários transexuais, transformistas, travestis, como queiram chamar. É bastante humana a sua interpretação e narração das histórias. Seus gestos, comportamento em cena, fôlego e dedicação são invejáveis. É uma coragem sem tamanho atuar neste espetáculo, jogando-se, sem rede de proteção, nas emoções fortes que a vida das transexuais retratadas. Um trabalho impecável de atuação, corpo e voz. Sem dúvida irá receber vários prêmios. Aplausos efusivos!

Dirigindo o espetáculo, a gaúcha Jezebel De Carli. Uma das melhores direções deste ano  no Rio de Janeiro, sem dúvida. Com temas fortes e reais sendo mostrado, Jezebel não foge da tarefa. Mostra com respeito as tragédias e alivia com pitadas de comédia. Teatro da melhor qualidade. Destaco a cena do “abacaxi”, quando Silvero descasca a fruta ao contar a história e usa o abacaxi como marionete, e a cena em que se utiliza do case de guardar refletores como quadro negro, são imbatíveis. Sensacional a quantidade de alternativas cênicas propostas por Jezebel ao espetáculo. Seu casamento com Silvero é impecável. A dedicação e entrega mútua estão ali, na nossa frente, durante todo o espetáculo. Prêmio já para ela!

Poucas vezes no teatro carioca pude presenciar tamanha comoção da plateia no final de uma récita. Os aplausos, de pé, duraram longos minutos. Não queríamos parar de aplaudir. Emocionados, gritamos BRAVO! e agradecemos com palmas por nos trazer este necessário, corajoso e realista trabalho de pesquisa. BR TRANS é daqueles espetáculos únicos, que nos marcam por muitos anos e que viram referência quando o assunto é pesquisa, dedicação, interpretação e direção.

Deixe seu preconceito de lado e vá ao CCBB, Teatro III, assistir a BR TRANS. Você sairá renovado e, certamente, irá olhar para os artistas da transformação com outros olhos, reconhecendo-os pela sua arte de viver e de representar. VIVA! BRAVO!!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

VANYA E SONIA E MASHA E SPIKE



















Vou ao teatro regularmente duas ou três vezes por semana, o que me permitiu assistir aos mais variados gêneros e aprender, por osmose, sobre autores, diretores, apreciar cenários, luz e figurinos de espetáculos de teatro. Assisti O Jardim das Cerejeiras, com Tônia Carreiro, e Tio Vânia, no Parque Lage, encenada dentro da piscina, com Diogo Vilela, Débora Bloch e Rogério Fróes. Também vi Tio Vânia pelo Grupo Galpão – sou fã de carteira assinada deles – e A Gaivota com a Companhia dos Atores, no Teatro Poeira.

Recém estreado no Teatro dos Quatro, a peça Vanya e Sonia e Masha e Spike, comédia de maior sucesso na Broadway em 2013, vencedor do Tony Awards de melhor peça produzida pelo Lincoln Center em NY (dados do núcleo de artes cênicas da Faap). A comédia traz referências divertidas às obras do dramaturgo russo Anton Tchecov: O Jardim das Cerejeiras, Tio Vania, As Três Irmãs e A Gaivota. É divertidíssimo descobrir as referências das peças de Tchecov neste texto atual de Christopher Durang, brilhantemente traduzido por Bianca Tadini e Luciano Andrey. Nossas referências brasileiras são mais bem vistas na personagem da diarista, porém o comportamento de alguns jovens viciados em smartphones e no deslumbre com atores famosos está lá presente, em qualquer lugar do mundo.


Na peça, a chegada de a irmã, atriz famosa, acende para os dois irmãos que habitam a casa antiga da família, conflitos engolidos durante muito tempo. Com muito humor e diálogos verdadeiros, a presença do namorado mais novo da atriz famosa e uma festa a fantasia na vizinhança servem para animar o dia tedioso daquele lar. A vidente empregada e a ninfeta vizinha acrescentam humor, cumplicidade, ciúme, inveja e luxúria ao clima de campo. A irmã famosa deseja vender a casa para diminuir as despesas e a trama caminha com tanta leveza e carisma, que ficamos sem saber de que lado estamos, pra quem torcer para o final feliz.

O belíssimo cenário de Attílio Baschera e Gregorio Kramer – um dos mais bonitos da temporada 2015 - é uma varanda que dá vista para o lago, numa cidade do interior. Cheio de flores, é uma pena que tenha sido cortado, uma vez que a altura do palco do teatro carioca não permite incluir o segundo andar que havia no cenário da temporada paulista. O figurino de Theodoro Chocrane é ótimo. A elegancia da atriz famosa, as fantasias da festa, os pijamas e o colorido do garotão estão em harmonia com as personalidades dos personagens e vestem bem o elenco. A luz de Ney Bonfante capricha nas passagens das horas, e dias, valorizando o colorido da história. A trilha sonora de Fernando Fortes é perfeita: passarinhos ao amanhecer, músicas durante passagens de tempo e nos momentos solo da diarista, fazem toda a diferença para que possamos estar dentro da tama.

No elenco, Teca Pereira, como Cassandra, interpreta uma hilária diarista-vidente, sendo responsável pelas gargalhadas do público. Patrícia Gaspar, a irmã Sônia, adotada, cheia de questões sobre “o que fiz da minha vida até agora e como vou seguir neste marasmo total”, nos faz ficar com vontade de abraça-la. Seu melhor momento é a cena ao telefone após a festa a fantasia. Marília Gabriela é Masha, a irmã-famosa que, na sua chegada, se apresenta cheia de nariz empinado e humilhação aos irmãos, mas que muda com o passar da história. A mudança de seu comportamento é muito bem realizada por Marília Gabriela. Sem falar que “Gabi” é linda, alta e talentosa! Elias Andreato, Vanya, é um show. Desde sua entrada em cena ao último suspiro, o foco da plateia é imediatamente chamado para ele ao começar a falar. O desabafo de Vanya, na segunda parte da história, é aplaudido por longos momentos. Bruno Narchi é Spike, o garotão-valete da atriz famosa, que explora seu corpo para deixar todos à sua volta envolvidos por sua beleza. Spike é típico ator-modelo-cabeça-vazia, provoca os demais personagens e flerta sem pudores. Não menos importante, Juliana Boller é Nina, ninfeta vizinha que se apaixona mais pelos textos teatrais de Vanya do que pela beleza física de Spike. Um elenco bastante afiado e talentoso. Aplausos efusivos.

Comandando tudo, Jorge Takla, um mestre em todos os sentidos, na direção de espetáculos de sucesso. É sempre um prazer ver seus trabalhos no palco. Diretor minucioso, diretor de ator e de cena, se preocupa tanto com a importância de um simples telefonema quando na ocupação de todo o palco, e cenário, para que se tenha um espetáculo de excelente qualidade para o público.

Saí do teatro com a certeza de que ter assistido a várias peças ao longo destes anos não foi em vão. Com Vanya e Sonia e Masha e Spike tive o prazer de reconhecer trechos, personagens, histórias e comportamentos de outras peças de Tchecov.


A peça é fantástica: humor de primeiríssima qualidade, texto inteligente, diálogos possíveis, elenco coeso, ótimas interpretações, direção, cenário, figurino, trilha e iluminação que qualquer prêmio de teatro ficará feliz em oferecer para esta produção. Um momento único e feliz no teatro carioca. Não percam. Espetáculo obrigatório.