sábado, 2 de junho de 2018

A ORDEM NATURAL DAS COISAS



“Nós somos o que fazemos”. Termina assim o programa da peça “A Ordem Natural das Coisas”. E é assim que começo este texto. Faço produção, escrevo, crio cenário. Sei fazer outras coisas, mas é disso que gosto e disso que quero viver. Deixar para a sociedade algo que possa acrescentar, modificar, as pessoas. Parte disto está ligado diretamente ao que pensa Leonardo Netto, ator e dramaturgo, com quem tive a honra de trabalhar em A Moratória.
Assim como ele, resisto, luto, sigo na guerra contra o mal que nos envolve. As forças negativas que tentam tomar conta de tudo. Fujo das picuinhas, saio pela tangente na briga. Não estou aqui para entrar em discussão que não vai levar a nada. Eu, sim, quero levar literatura aos quatro cantos deste país. Quero levar cultura e mostrar que só a educação vai nos salvar. Somos um país de mal educados. Não existe a preocupação com o coletivo, com o outro. No Brasil, como diz Lúcio, personagem da peça: “O outro. Esta grande ameaça”. Enquanto pensarmos assim não seremos uma nação. Viveremos numa eterna guerra civil sem líderes e sem objetivos.
Está em cartaz até domingo no Sesc Copacabana – e torço muito para que tenham novas temporadas – o espetáculo “A Ordem Natural das Coisas”, texto de Leonardo Netto. A peça conta a história de um homem abandonado no altar pela noiva, que sequer vai ao casamento. Manda pelo pai um recado. Na casa onde seria o ninho de amor, o ex-noivo recebe a visita do ex-genro, amigo fiel. Mágoas e roupas sujas são lavadas. Porém surge uma vizinha que mostra ao protagonista que a vida segue adiante, apesar dos pesares. Calma. Não há o menor spoiler neste parágrafo. Isto é apenas 10 minutos de peça. O que acontece depois é de uma magia, uma verdade, uma perfeição dramatúrgica que é impossível não ficar tocado com toda a história.
Leonardo Netto tem neste espetáculo seu melhor trabalho de dramaturgo. Li uma crítica no jornal - que raramente concordo -, mas desta vez, em especial, o que está escrito é o que eu diria: na medida certa. Não há um só exagero e nenhum erro cronológico ou dramatúrgico. Tudo está esclarecido e de acordo com o que aconteceria na realidade nossa de cada dia. A colaboração da direção de movimento, de Márcia Rubin, é importantíssima para a composição dos personagens e andamento da história.
Além disso, Leonardo Netto dirige e sabe o que quer em cada cena, como cada frase deve ser expressada pelos atores. Ocupa o espaço – e o não espaço, o vazio do palco – com a força da sua dramaturgia. Espalha caixas no fim, limpa a alma, lava. Excelente trabalho.
No palco, a cenografia de Elsa Romero é um apartamento que acabou de receber uma mudança e presentes de casamento. As paredes estão na estrutura. Não há emboço, tijolos. Apenas a estrutura vazada. Tal qual o protagonista: alma aparente. O figurino de Maureen Miranda mostra claramente cada momento dos personagens. A luz de Aurélio de Simone é sempre uma aula. A trilha sonora (Leonardo Netto) e o desenho de som (Diogo Magalhães) contam parte da história da peça através dos discos. Adorei o som que começa na vitrola e acaba envolvendo todo o teatro.
Os atores, entregues. Beatriz Bertu é a vizinha Cecília, uma mistura de Amelie Poulain com Clarice Falcão, doce e objetiva. Cirillo Luna é Emiliano, o ex-cunhado e amigo fiel, que ampara o protagonista após o pé na bunda inesperado. Cirillo tem presença forte em cena e consegue mostrar a fragilidade dos sentimentos do seu Emiliano.
Mas é João Velho quem brilha neste espetáculo. Por ser o protagonista e ter ao seu lado um texto inteligente, uma direção segura, colegas talentosos e uma direção de movimento presente, João consegue construir seu Lúcio desde seu pé, virado para dentro na cena inicial, ao choro contido, ao “se deixar dançar com a música, apesar do sofrimento”. João tem aqui sua melhor interpretação. (Para as crianças, seu Bita, no teatro, é maravilhoso!) A segurança e a certeza de que o papel escrito para ele faz com que use as palavras com sabedoria. Ele não desperdiça uma frase, uma entrelinha, uma suspeita. João não antecipa. Seu Lúcio é pego de surpresa pela história assim como nós, espectadores. Ele também se surpreende. Um tempo de representação mágico! Me emocionei várias vezes com seu trabalho. Ao fim da peça, ainda sob emoção – não pelo drama do personagem, mas pelo seu trabalho – o abracei comovido.
A Ordem Natural das Coisas é um dos melhores textos dramáticos novos montado nos últimos tempos. Talvez dos últimos anos. A criatividade em tempos de crise aflora e a qualidade cênica aparece. Só os bons sobrevivem. Encaro este momento da falta de patrocínio como uma época da Seleção Natural do Teatro. Só vai ficar, e ser reconhecido, quem for bom. E, nesta peça, temos aquilo que de melhor o teatro carioca pode oferecer. Obrigado por resistirem! Contem comigo! Aplausos emocionados de pé.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

A VIDA AO LADO



O período que antecedeu as Olimpíadas foi de desmatamento, derrubadas, desapropriações, tudo em nome da modificação da paisagem urbana e da melhoria dos transportes para que turistas e espectadores pudessem se locomover pela cidade rapidamente. O tal “legado olímpico” nos custou caro. Caríssimo. Atualmente, temos um aquário onde moradores não frequentam, um VLT para turistas no centro da cidade, um BRT sucateado e rodando sob asfalto esburacado. Aliás, para este BRT famílias foram removidas de suas casas para a passagem da via. Sacrifício de uns em benefício de outros. Valeu à pena? Estamos satisfeitos? Logicamente que não estamos. Porém, quem embolsou polpudas quantias desviadas ou superfaturadas está aí, às vistas, rindo da nossa cara.
Cristina Fagundes é uma atriz e escritora, inteligente e observadora do universo que gira em torno da arte cênica no Rio de Janeiro. É dela a ideia do Clube da Cena – coletivo de atores, diretores e dramaturgos que colocam em cartaz esquetes uma vez por semana – que teve vida inicial no Teatro Gláucio Gil e recentemente foi apresentado no Teatro Ziembinsky. Infelizmente o patrocínio não veio, foi “demolido” pela atual gestão da prefeitura e o Clube está aguardando nova oportunidade. Porém, Cristina não se acomoda. Além do Clube escreve para teatro, promove oficinas e reciclagem de atores. Uma guerreira e operária do teatro.
É dela o texto da peça A Vida Ao Lado - em cartaz no Teatro Serrador - história de moradores de um prédio a um mês de ser demolido para a construção de um aquário municipal. É justo isto? Retirar pessoas do seu habitat natural gera conflitos – que Cristina aborda na peça. Tipos atuais, conservadores, modernos, reais na fauna social em que vivemos. Cada um com seus preconceitos não só sobre a sociedade, mas sobre os vizinhos que coabitam o mesmo prédio. O que muda na vida dessas pessoas? Qual o destino final das relações amorosas e profissionais que envolvem os moradores? É assistindo ao espetáculo que você irá compreender a necessidade de se discutir como uma simples demolição gera uma reação em cadeia sobre emoções e comportamentos.
Com o palco vazio, o cenário de Alice Crus e Tuca Benvenutti tem canos conectados como se fosse a tubulação do prédio passando pelas paredes. Sol Azulay assina o figurino de cores cinzas, daquelas pessoas que só seguem suas vidas sem se preocupar em sair da zona de conforto, mas quando chega a notícia da obrigação da mudança, ou dão um colorido às suas vidas, ou caem no buraco negro. A luz de Aurélio de Simone é sempre adequada à quantidade de refletores disponíveis e o que a peça solicita. A trilha sonora, de Isadora Madella contribui para o crescimento dos diversos clímax (ou clímaces).
O elenco é formado por Alexandre Barros, que tem ótimas atuações em variados personagens; Alexandre Varella, que muda de composição de uma criança para um ogro em minutos com grande qualidade representativa; Ana Paula Novellino, a solitária que busca num aplicativo de celular uma nova relação; Bia Guedes, ótima, alternando entre uma empregada doméstica e uma mulher que tem um casamento por contrato; Cristina Fagundes mostrando a força da esposa casada conservadora mas que anseia pela liberdade sexual; Flávia Espirito Santo, a dona flor entre dois maridos que se vê preterida quando o assunto é ter ou não filhos; e, não menos importante, Marcello Gonçalves ótimo como o porteiro do prédio e o menino refugiado.
Cristina Fagundes também assina a direção e sabe o que quer dizer com este espetáculo. Além de mostrar que “a vida não basta” e por isto a arte é necessária (mudando um pouco as palavras de Ferreira Gullar), nos faz pensar e mostra, pela forma como conduz o espetáculo, que somos todos parte de uma engrenagem única: o que acontece com um gera alterações nos outros próximos. Sua marca para o caminhar no palco como nos corredores do prédio e, em especial a cena da madame deitada no chão que, ao se virar, se torna a doméstica limpando, é bastante inteligente. Além disso, Cristina não valoriza as pequenas doses de preconceitos velados nas falas dos personagens, as maldades, e nisso ela ganha pontos, deixando que parte do público perceba a crueldade de uma piada.
Resistir é preciso! Cristina Fagundes mostra isto quando joga nas 11 posições (escreve, dirige, atua e produz). Um espetáculo de altíssimo nível. Bem dirigido, bem escrito, atuações competentes, tudo com pouquíssima verba e mostrando que é possível – e necessário – fazer teatro neste período de demolição da classe artística. Vida longa para “A Vida ao lado”!

terça-feira, 1 de maio de 2018

[nome do espetáculo]


Inventar um projeto novo de uma hora para a outra e rezar para ser selecionado. Quem nunca? Foi num edital de 2010 que entrei propondo escrever um livro de contos. E fui agraciado com a seleção. Deste patrocínio nasceu meu segundo livro: “Cuidado com os ovos!”. Agradeço até hoje à FUNARTE pela confiança. “Os ovos” – como chamo carinhosamente – me rendeu boas risadas, lançamentos, tardes de autógrafos, viagem e lançamento dele traduzido para o espanhol. Nunca antes na história deste país se teve tanto investimento em cultura quanto naquele fim do segundo governo Lula. De lá pra cá... você já sabe.

E é sobre isso que fala o musical [nome do espetáculo] em cartaz no teatro Eva Herz. Calma, você não leu errado. O nome da peça, do musical, é [nome do espetáculo] mesmo. Original da Broadway – texto de Hunter Bell com música e letra de Jeff Brown. Cá em terras brasilis, versão foi realizada a 10 mãos. Caio Scot, Carol Berres, Junio Duarte, Luiza Vianna e Tauã Delmiro mergulharam de cabeça, e acertaram em cheio, na história de uma dupla de artistas do teatro musical que têm pouco tempo para inscrever uma nova peça num edital. E sabe o que eles contam? Uma fictícia história de uma dupla que tem pouco tempo para inscrever uma peça num edital! Não, eu não copiei e colei a frase duas vezes. É o famoso meta-teatro. Neste caso, Meta do Meta Teatro. Uma história que conta uma história de uma história de teatro. Entendeu? Fácil!

Os atores Caio Scot, Caro Berres, Junio Duarte e Ingrid Klug, acompanhados pelo teclado de Gustavo Tibi, perceberam que esta peça é o ideal para mostrarem seus talentos e competência, tanto vocal quanto interpretativas e estão ótimos em cena.

A cenografia de Cris de Lamare é elegante e funcional, como sempre. Não apenas quatro cadeiras estão ali. São cadeiras com bolsões no verso, persianas no fundo, fita crepe no chão demarcando espaços. O que deu para fazer com pouco dinheiro – mas é só disso que precisa a peça! – e com qualidade impecável. O figurino de Tauã Delmiro é divertido e colorido. A luz de Paulo Cesar Medeiros é sempre marca de qualidade. Gustavo Tibi além de tocar durante a peça assina competente direção musical.

Tauã Delmiro assina uma direção ágil, inteligente, segura. Várias cenas bem pensadas. Mas duas, em especial chamam a atenção: quando os atores em cima das cadeiras são girados pelos colegas, fazendo uma brincadeira com “palco que gira”, numa peça sem dinheiro. E em outro momento, um avião é construído com as cadeiras e a parte da cadeira giratória vira hélice. Uma beleza!

Tenho repetido muito palavras elogiosas aqui neste espaço: competência, garra, talento, beleza, voz potente, atuação correta, entrega, parceria... mas acredito que nos momentos em que a verba é pouca, os espectadores são cada vez menos nas poltrona e o incentivo financeiro quase nenhum, é que surgem os grandes espetáculos, a criatividade aflora, e toda a equipe se une para este ato de resistência que é o teatro.

[nome do espetáculo] é desses musicais com canções originais que nos faz acreditar que é possível e necessário sonhar com dias melhores, um futuro onde público e palco estejam tão unidos quanto aquelas peças que ficam 30, 20, 10 anos em cartaz. Exemplos não nos faltam: A Bofetada (30 anos), Minha mãe é uma peça (11 anos), Beatles num céu de diamantes (10 anos) são desses projetos realizados com garra inicial e cujo resultado ainda está por aí embelezando os teatros por onde passam.

Corram já para o Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, centro do Rio, e assistam, e aplaudam [nome do espetáculo]. Saímos do teatro com esperanças renovadas! Imperdível!

segunda-feira, 23 de abril de 2018

A VIDA NÃO É UM MUSICAL


Era um a festa na cobertura dos gêmeos Guilherme e Leonardo Miranda, mas não lembro como fui parar lá. Só sei que me apresentaram Leandro Muniz e Daniela Fontan. Paixão dupla carpada à primeira vista. Corta para 2007, eu querendo abrir um teatro na Barra da Tijuca (olha a ironia aí, gente! Logo eu, que odeio aquele bairro...) e Leandro, Leo, Gui, Wladmir Pinheiro, Avelar Love e acho que a Dani se juntaram para fazer um show pra animar a festa. Depois tivemos a leitura de Peça por Peça, um super musical do Leandro, na Casa da Gávea. Vieram Relações, também na Casa da Gávea, e Sucesso no Sesc Tijuca. E eu ali, por perto, sempre babando essa turma talentosa e rezando para que fossem descobertos logo!

Sem rasgação de seda, porque este espaço tá mais pra local de elogios do que de opiniões, é necessário falar sobre coisa boa, uma vez que a internet está sendo tomada por coisas ruins e isto anda afetando o dia a dia da humanidade. E é por isso que, desde já, recomendo violentamente (expressão roubada do diretor Joaquim Vicente) que você assista a “A vida não é um musical”, nova peça do autor Leandro Muniz.

Coloque numa frigideira em fogo brando o filme A Vila (onde moradores se isolaram do mundo numa comunidade no interior dos EUA), um musical da Disney (onde a vida é perfeita e tudo é música), a situação delicada da política brasileira (com as piores tramoias e maracutaias possíveis) e traga para a vida atual. Acrescente uma xícara de ironia, duas colheres de sopa de sarcasmo, um tablete de coragem e uma generosa dose de verdade nua e crua. Espere entrar em ebulição e sirva ao público ainda quente. Isto é “A vida não é um musical”, em cartaz no Sesc Copacabana – o Maracanã do teatro carioca.

Na peça, a mocinha resolve sair do vale encantado Disney e conhecer a fundo o mundo. Caiu no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro. Uma eleição para governador está em curso e ela se vê atuando junto ao candidato da oposição enquanto o governador tenta a reeleição. Não vou dar spoiler. Faz-se obrigatório assistir. Num país onde quem está comendo quem é mais importante do que roubar cofres públicos, onde se prende um ex-presidente numa velocidade de Fórmula 1, tudo pode acontecer. O texto do Leandro tem tudo de sarcástico, irônico, verdadeiro e atual, seguindo à risca a cartilha do “como se deve fazer um musical de sucesso”. Não se poupa ninguém. É politicamente incorreto quando tem que ser, e realista no fim das contas. Toca na ferida aberta, espezinha os adversários, da um tapa na cara da sociedade conservadora. Foge do óbvio, se arrisca ao retratar candidatos da extrema direita e a igreja, diz o que está preso na garganta dos oprimidos.

O cenário do Nello Marrese, o figurino da Carol Lobato e a luz de Paulo Denizot fazem com que o espetáculo, de parcos recursos, tenha uma qualidade mais que profissional. Nello entende que espaço é fundamental, Carol sabe escolher o adereço que vai caracterizar a princesa e o bandido, Paulo ilumina com olhar de desenho animado. Uma beleza ver a harmonia entre esses três.

Um parágrafo exclusivo para a direção musical de Fabiano Krieger: é incrível como as canções se encaixam no andamento do texto e na hora certa. A parceria com o Leandro mostra que em “A vida não é um musical” chegou ao melhor momento da sintonia fina. Imagino a dupla criando o andamento das canções e a colocação das letras para que a história seja contada também pela música. Aplausos de pé. Os músicos de cena são Fabiano Krieger, Gustavo Salgado (que também assina a direção musical), João di Sabbato, Daniel Silva e Rafael Alves.

O elenco conta com um time de primeira: Daniela Fontan – sempre uma princesa seja à paisana ou caracterizada – está tão feliz no palco que seu sorriso nos contagia de imediato; Marcelo Nogueira – a voz mais potente dos musicais cariocas – é o príncipe hilário; e Thelmo Fernandes – presença marcante nos melhores espetáculos de teatro do Rio (Opera do Malandro, Gota D`água, Simonal...). Ainda no elenco, estão Augusto Volcato, Ester Dias, Flora Menezes, Ingrid Gaigher, Joana Mendes, Nando Brandão e Udylê Procópio. Um grupo feliz, animado, entregue, coeso, afinado e competente.

No comando da sopa de talentos, João Fonseca. É público que sigo seus trabalhos e não é de hoje e que sou fã e admirador de suas direções. Mas em “A vida não é um musical”, João é mais que um diretor, ele se empresta. É um professor, mestre, generoso e consciente da sua importância para o crescimento de todos que ali estão. João se cercou da melhor equipe e foi entregando ao elenco, músicos, equipe, o que de precioso ele tem: sua criatividade e segurança técnica. A marca João Fonseca de uma cena em câmera lenta está ali e ironizada por ele mesmo! Leandro também assina a direção e bebe na fonte joãofonsequiniana do melhor do teatro musical carioca. Logicamente o apoio da Direção de Movimento de Carol Pires é fundamental para o sucesso do espetáculo.


Falar mais pra quê? Agora é hora de sair da rede social e correr para o SESC Copacabana, pois a peça só fica até 6 de maio. Dê-se este presente. Vá rir, vá ficar com raiva, vá ver como anda a cena teatral carioca que consegue brilhar mesmo sendo bombardeada. Vá prestigiar seu amigo artista. Abrace o elenco, músicos, equipe toda no fim. Todos precisamos de afeto. Vamos combinar uma coisa: apenas vá assistir “A vida não é um musical” e depois me agradeça a dica.  Espetáculo Obrigatório.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

NARA. A MENINA DISSE COISAS.



A primeira vez que vi Aline foi numa festa de música brasileira. Como vocês não se conhecem? Passamos a noite rindo, bebendo e conversando. E dançando, claro. Dali surgiu a chance de trabalharmos em Muita Mulher pra Pouco Musical. Fizemos apresentações em SESCs e nos divertimos muito! Foi ela quem me apresentou Christovam de Chevalier e a admiração aos dois só aumentou com o tempo. Gênios.

É do Christovam a ideia de dar voz, novamente no teatro, a Nara Leão através das frases, discursos, comentários e entrevistas. Christovam e Nara foram ousados. Numa época em que “escritores eram presos, estudantes apanhavam na rua e deputados perdiam mandato por muito menos”, como diz Hugo Sukman em recente matéria no JB, ter a coragem de dizer coisas sem medo, era para poucos. Hoje, o que Nara disse poderia muito bem ser dito por outra pessoa do meio artístico e Christovam percebeu que o momento era oportuno. Hugo Sukman assina a dramaturgia, junto com Marcos França, onde as frases, músicas emblemáticas, enfrentamentos, mostram uma outra face da cantora. Um acerto.

No palco do Teatro Ipanema, um cardápio musical desfila sob o olhar atendo de uma plateia saudosa e com medo de reviver um passado negro. Iniciando com Nara esquecendo a letra de uma música, o prenúncio de um tumor desencadeia memórias. Ali os parceiros são rapidamente citados, pois o personagem principal é ela. Temos A Banda, Se é tarde me perdoa, Você e Eu, Desafinado, João e Maria e a emblemática Carcará, que leva a plateia ao delírio pelo discurso político tão necessário e atual. A direção musical é de Guilherme Borges e os músicos de cena Ralphen Rocca, Nelson Freitas, Erick Soares, David Nascimento e Leo Bandeira.

O cenário de Pati Faedo é ótimo. Cordas de um imenso violão, marca da cantora, ora servem de abrigo, de prisão, de sombra, de conforto, além de preencher o espaço do teatro. Uma beleza. O figurino de Paula Stöher é leve e caracteriza bem Nara, músicos e parceiros na época. A luz de Paulo Cesar Medeiros é sempre linda.

Priscila Vidca é a diretora, conduzindo a história de Nara, dando espaço para as canções, ocupando o pequeno palco do Teatro Ipanema em sua totalidade, indicando minúcias nos gestuais de Nara que contribuem para a construção da personagem principal.

Marcos França, conhecido de ótimos musicais biográficos, como As Aquarelas do Ary, Ai que Saudade do Lago, está, como sempre, generoso e afinado. Sua presença é marcante e, sem querer imitar ninguém, dá seu recado certeiro.

Mas é Aline Carrocino quem brilha como Nara. Detalhista, contida, minimalista, sua interpretação de Nara não pretende ser a cantora, mas sim homenageá-la através de pequenos gestos, tonalidade vocal, jeito de cantar. Uma composição certeira e forte. Aline, assim como Nara, vai crescendo ao longo do espetáculo e a plateia fica em suas mãos diante de sua voz, canto, atuação e dedicação. Um espetáculo que coloca Aline Carrocino de volta ao teatro adulto depois de sucessos voltados para o público infantil, como Luiz e Nazina, que renderam prêmios à atriz.

“Nara. A menina disse coisas” é um espetáculo para se ver de peito aberto, relembrando o passado negro da nossa história, que infelizmente está aqui, batendo na porta querendo entrar. Nara Leão fala por nós, não só nas palavras como nas letras de música. Amor, paixão, coragem e carisma. Tudo ali nos faz ficar emocionados. Imperdível.

domingo, 8 de abril de 2018

O GRELO EM OBRAS


Quando lancei o livro “Elas Estão Descontroladas”, fim de 2016 (Ed. Livros Ilimitados) tive o prazer de ser entrevistado no programa Grelo Falante, da Radio Roquete Pinto... Grelo... Pinto... tudo a ver! Se no nome da rádio pode ter o órgão reprodutor masculino, por que no nome do programa não pode ter a parte feminina do sexo? Pois, após cinco anos de programa, o Grelo foi convidado a se retirar da rádio em 2017, justamente quando o retrocesso das instituições, comportamentos e sociedade estão atingindo o ponto mais alto do desmonte em que vivemos. Adorei a entrevista. Rimos mais do que deveríamos e nem deu tempo de falarmos tudo!

Tive o prazer de trabalhar no programa Garotas do Programa, da Tv Globo, na construção dos cenários e acompanhei os hilários textos de Lucília de Assis, Carmen Freznel e Claudia Ventura, atuais guerreiras resistentes do grupo feminino de humor Grelo Falante. Na televisão a palavra Grelo não pôde ser grafada e tiveram que assinar como G.Falante... coisas de Laurinha...

Está em cartaz, por pouquíssimo tempo, a peça “O Grelo em Obras”, ato de resistência artística, no simpático e confortável teatro do SESC Tijuca. Um desabafo de tudo que está entalado na garganta, um retrospecto da história bonita e outras nem tanto, uma comemoração dos 20 anos do grupo de humor feminino de altíssimo nível e competência. Rir de si mesmo, fazer os outros rirem das nossas desgraças atuais, do passado onde o politicamente incorreto era aceito como humor, onde a mulher era segundo plano... era? Passado? “O Grelo em Obras” discute isto também.

Nivea Faso assina a direção de arte da peça onde as meninas estão sapateando em papel prateado recortado, como se aqueles canhões de papel dos grandes shows de música pop tivessem jogado papel picado pelos ares durante uma festa. Além disso, panos fazem triângulos, dentre eles uma imensa vagina imaginária serve de anteparo para projeções. O figurino nos indica que ali há uma festa, uma comemoração. Os cabelos em peruca ou com muito laquê (Lucas Souza) dão o tom imponente à caracterização.  Renato Machado, sempre criativo e competente, assina a belíssima iluminação.

Fabiano de Freitas dirige o espetáculo com carinho e competência. Ele prepara as cenas com antecedência, como o momento das risadas das moças em cima da história de uma delas. Ou no momento em que um número de plateia abre para um debate construtivo sobre o que se deve falar neste momento em que vivemos sem saber como resistir, como gritar, como nos mantermos em atividade. Fabiano deixa as meninas se exibirem no palco a vontade, mas ao mesmo tempo marcadinhas para que possam conduzir o espetáculo com leveza e firmeza ao mesmo tempo.

Mas é o grande talento das sapecas e felizes meninas do bom humor Lucilia, Carmen e Cláudia que nos faz ter a certeza que ali tem três grandes mulheres, atrizes competentes, escritoras do melhor humor de qualidade, que resistem com garra ao momento ruim que vivemos. As três se revezam contando histórias do grupo e pessoais, mantém o ritmo da comédia, criam vozes, trocam olhares, são cúmplices. Uma delícia vê-las juntas!

Obrigado Cláudia, Carmen e Lucília por compartilharem conosco a qualidade do humor do Grelo Falante, mostrando que ainda está vivo e presente. Por dividirem conosco o desabafo, o medo da realidade atual, desejar o fim do ultrapassado humor machista. Obrigado por não terem receio de desafiar a plateia, pela genialidade, pelo carinho e alegria. Precisamos muito de amor e humor e vocês três fazem isto com perfeição!


Corra já para o Sesc Tijuca para assistir a O Grelo em Obras antes que um novo Ato Institucional 5 – o mais duro golpe do regime militar de 1968 – (TOC, TOC, TOC – bati na madeira!) venha proibir nossos artistas de se apresentarem e nossas vozes sejam caladas por sei lá mais quanto tempo... Viva o Teatro! Viva o Grelo! Viva!!

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

BIBI - UMA VIDA EM MUSICAL


A primeira vez que a vi foi no musical “Bibi canta Amália”, texto de Tiago Torres da Silva, no Teatro João Caetano. Sei que perdi as grandes apresentações de Piaf e Gota D’Água, mas em Amália ela estava soberba. Talvez venha dali parte da minha paixão por Portugal. Depois a vi em “Bibi In Concert III”, onde apresentou um Rap musical escrito por Thereza Tinoco, e aplaudida de pé no saudoso Canecão. Tive o privilégio de abraçá-la no camarim depois de “Bibi canta Sinatra”, graças à minha sócia, Sônia de Paula, que fora assistente de Bibi. Também fui comemorar, na casa de Bibi, o aniversário de sua irmã, Lígia Ferreira, com quem escrevi uma peça de teatro. Me sinto privilegiado pelos momentos em que estive ao seu lado. À ela, perguntei: “Bibi, qual foi a pergunta que nunca te fizeram?” Ela parou, me olhou e disse: “Bela pergunta. Esta foi inédita!”

Cláudia Negri e Thereza Tinoco são duas guerreiras, generosas e fiéis. Foi Claudia quem propôs a Thereza produzirem juntas um musical em homenagem à Bibi Ferreira, amiga das duas. E assim surgiu “Bibi, uma vida em musical”, em cartaz no Teatro Oi Casagrande, Rio de Janeiro.

O texto de Artur Xexéo e Luanna Guimarães faz um ótimo recorte na vida da artista, mostra ao público o que de melhor tem em Abigail Izquierdo Ferreira, nome de batismo, e na mais completa artista brasileira. Temos um espetáculo onde o circo é o pano de fundo, com o mestre de cerimônias narrando as principais passagens, temos diálogos realistas e situações criadas a partir dos relatos familiares. Um texto que flui naturalmente, dando a real importância que Bibi merece ser apresentada no palco.

O cenário de Natália Lana é lindo. Marcante com a presença do circo, luzes de ribalta, céu estrelado, caixas de figurino, uma penteadeira de camarim que vira tela de cinema, tudo ali é bem feito e funciona. O figurino de Ney Madeira e Dani Vidal são coloridos para o circo, básicos para os números mais dramáticos e reproduções fiéis das roupas que Bibi usou. A luz de Rogério Wiltgen é sempre bonita, bem pensada e ilumina com vida o espetáculo. Destaque também para a coreografia e direção de movimento de Sueli Guerra.

A direção musical de Tony Lucchesi é elegante e típica dos melhores musicais internacionais. Seus músicos (Alexandre Queiróz, Miguel Schönmann, Léo Bandeira e David Nascimento) estão afinadíssimos e as versões de musicas conhecidas e as inéditas, criadas por Thereza Tinoco (lindas, como sempre!) estão muito bem inseridas neste espetáculo.

Encabeçando o elenco, Amanda Acosta é Bibi. Entrega toda no gestual, forma de falar, composição, tudo utilizado com carinho e respeito, Amanda não dispensa nada. Cada fala, cada movimento das mãos, tudo é impecável. O segundo ato, que traz Bibi mais atual, é brilhante seu trabalho de corpo. Aplausos em cena aberta várias vezes. Ao seu lado, Chris Penna, interpretando Procópio Ferreira (pai de Bibi). Imensa e competente é a sua entrega ao personagem. Um trabalho difícil, cujo resultado é nada menos que brilhante. Leo Bahia é o mestre de cerimônias do circo, narrador da história, trazendo seu humor seguro, sua voz afinada e sua competência de sempre. Ao seu lado, Rosana Penna interpreta a avó de Bibi, um papel à altura de seu talento, mantém o ritmo e a composição durante todo o espetáculo. Temos ainda como destaque Flavia Santana (a cigana), Simone Centurione (Aída, a mãe), Luísa Vianna (Neide, a fiel escudeira), Guilherme Logullo (Paulo Pontes), Analu Pimenta (Vanda, a amiga) e Julie Duarte (Lígia Ferreira, a irmã). Completando o elenco, João Telles, André Luiz Odin, Moira Osório, Bel Lima, Carlos Darzé, Leonam Moraes, Fernanda Gabriela, Caio Giovani e Leandro Melo. Uma turma unida e competente.

Comandando o espetáculo, dirigindo, Tadeu Aguiar. Sem medo de errar, digo que esta é a sua direção mais delicada e caprichada. Tadeu, com este espetáculo, faz uma declaração de amor à Bibi Ferreira e, através de seu trabalho, todos nós temos ali a melhor homenagem que alguém poderia fazer para Bibi. Tadeu é generoso, inteligente, criativo e os detalhes de marcações e subtextos estão muito claros no palco. Destaque para a genial cena da família de mulheres ao redor da cama de Bibi discutindo sobre o texto do musical Piaf. Também merece aplausos toda a cena da doença de Paulo Pontes terminando na triunfal canção de A Gota D`água. Emocionante. Tadeu tem neste espetáculo seu melhor trabalho de diretor. Obrigado e parabéns!

Um espetáculo lindo, de bom gosto, reunindo ótimos profissionais do teatro carioca em homenagem à nossa mais completa artista: Bibi Ferreira. Que todos os artistas tenham Bibi como exemplo de dedicação e amor ao teatro, onde o público é que tem que ser agradado, onde o exercício da profissão se sobrepõe ao ser humano que o exerce, onde a mulher Abigail se deixa engoir pela artista Bibi em nome do seu amor ao teatro. “Bibi, uma vida em musical” além de ser um dos melhores espetáculos biográficos já produzidos, é, sem dúvida, e em todos os sentidos, incluindo da equipe, uma declaração de amor.

Aplausos de pé para os patrocinadores Bradesco Seguros, Bradesco, Ministério de Cultura e Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro que acreditaram neste projeto e nos agraciaram com tamanha beleza. Aplausos para Cláudia Negri e Thereza Tinoco por mostrarem que a amizade, admiração e carinho pode ser transformado em espetáculo. Para este verão de 2018, “Bibi, uma vida em musical” é um espetáculo obrigatório. Viva Bibi!!