
Segundo ingrediente: lembranças antigas. Sabe quando você volta à
infância, ou à adolescência, e lembra do colégio? Lembra duma festa em que um
fato marcante aconteceu? Um fato histórico? A queda das Torres Gêmeas, por
exemplo. Naquele dia pode não se lembrar de tudo, mas o momento, o local, o
fato, e uma pequena variação de ações, certamente você se lembra. Mas o fato é
vivo. E flashes são recordados. Muita coisa se apaga, mas frases, gestos,
posições, ficam. Lembro também da vitória da seleção em 1994. Eu no PC com a
cara enfiada num joguinho de canos cujo objetivo era completar a instalação
hidráulica para o líquido amarelo (ou seria verde?) passar. Este jogo dava
sorte ao time do Brasil (oi?). Tenho flashes da cara do jogador que perdeu o pênalti
(Rodrigo Baggio?) e dos pulos do Galvão Bueno. Flashes vivos. Reserve.

A direção é do próprio roteirista, o que ajuda pra caramba, pois as
duas funções: direção e roteiro se completam. A opção por poucas falas, músicas
na medida certa, e explorar, ao máximo, a plasticidade dos atores é um achado.
Nunca vi um espetáculo como este. Eu não vi, alguém já deve ter visto, eu não. André
usa os atores como contra-regras e como “objetos” de cena. Eles são estátuas,
são atores interpretando atores, são testemunhas oculares, são cumplices das
histórias acontecidas em 1958. Gosto muito da exploração do palco e da
sequência (com idas e vindas sempre ao futebol). É tanta riqueza no espetáculo
que gostaria de citar várias, mas não dá. Tenho que ver de novo. Uma eu adorei:
logo no início da peça, os jogadores das duas equipes cantam seus hinos. Os da
Suécia, sabem de cor e cantam com vontade. Já os brasileiros... quando muito
sabem o refrão! Hilário! Esta direção certamente renderá uma indicação para prêmio
de teatro. Muito merecido.

O cenário é de criação de Carlos Alberto Nunes com uma equipe de
primeira. Gosto muito dos cobogós estilizados, dos objetos (tv e rádio) e da
inteligência com que um objeto simples vira algo inusitado: uma folha de papel
vegetal vira a rampa do planalto! Casamento bacana entre cenário e direção. O
figurino de Kika Lopes, colorido, auxilia no contar da história e ilustra a
época. A luz de Renato Machado é sempre excelente! Com destaque para os
refletores de LED que criam azuis e vermelhos bem fortes e bonitos. Cores
vivas. Aplausos também para as projeções de Renato e Rico Vilarouca. Outra
coisa a comentar: os personagens fumam em cena, mas os cigarros não são acesos.
As fumaças estão na projeção!
E ainda temos direção musical (Marcelo Alonso Neves) e músicos! Os
atores cantam com dignidade. Destaco Daniela Fontan cantando no programa da
rádio nacional e Andrea Veiga, cantando nas boites, berços da Bossa Nova.
E o elenco, não menos importante, é composto por Andréa Veiga, Bianca
Byington, Daniela Fontan, Diego de Abreu, Leandro Castilhos e Matheus Lima.
Seria um pecado falar de cada um individualmente. E também seria uma heresia
não elogiar um a um. Todos se entregam a este sonho, a estes flashes e momentos
de 1958, com muita garra e competência. Todos têm seus momentos de protagonista
e são generosos com os colegas no momento da cena do outro. Todos brilham individualmente
e no conjunto. Aplausos de pé!
Este musical é inovador, com uma forma diferente de contar uma
história. É verdadeiramente uma comédia musical. Gargalhei e atrapalhei os
atores, mas era impossível segurar o riso. Cantei e me emocionei com os jingles
que não escutei na época, mas que conheço bastante. Sonhei este sonho junto com
o diretor e as Andreas. Tive flashes da minha história. E no final da peça
fiquei com aquela sensação de ter acordado depois de um sonho com gargalhadas, e
pude continuar rindo por um bom tempo. Espetáculo imperdível.

