
Em cartaz no Teatro Poeira, O Pena Carioca, primeiro
clássico nacional montado pela Cia Atores de Laura, nos traz três bons exemplos
do brilhantismo de Martins Pena. Como curiosidade, entre os anos de 1844 e
1846, nada mais, nada menos, que 17 espetáculos seus foram encenados. Em O Pena
Carioca, “A Família e a Festa na Roça”, “O Caixeiro da Taverna” e “Judas em
Sábado de Aleluia” ilustram a obra do escritor, que é Patrono da cadeira 29 da Academia
Brasileira de Letras, escolhido pelo teatrólogo Artur de Azevedo. Ou seja, não
é pouca coisa não!
Além do humor e do retrato da sociedade, observamos alguns elos
entre as peças. Um deles é que tudo se justifica em nome do amor. E quando o
assunto acontece dentro das famílias, é furdunço certo. Na primeira peça curta
apresentada, um jovem retorna à cidade depois de formado em medicina e, junto
com a filha do fazendeiro, tramam para ficarem juntos. Na segunda, o ambicioso Caixeiro
trama casar-se com a dona do estabelecimento onde já trabalha para virar sócio
e viver feliz da vida com sua outra mulher! Na terceira história, o mocinho
tem-se que passar por Judas a ser espancado no Sábado de Aleluia para escapar
do pai-policial da moça, mas descobre falsificação de dinheiro, corrupção e que
a menina é mais rodada que disco de vinil dos anos 80!
O cenário de Fernando Mello da Costa faz uma homenagem aos
muitos personagens de Martins Pena, e os bonecos-manequins estão ali servindo
de côro, biombo, cabide e figurantes. O figurino de Antônio Guedes é muito
bonito e bem confeccionado, totalmente adequado para as cenas e de excelente
qualidade. A iluminação de Aurélio de Simone é muito bonita, destaque para a
cena final. A trilha sonora de Leandro Castrilho completa todo o clima de humor.
Os Atores de Laura, aqui quase completos, são Ana Paula
Secco, hilária até não poder mais; Gabriela Rosas (atriz convidada pela Cia para
esta montagem), ótima em todas as mocinhas; Anderson Mello, o pai fazendeiro fácil
de ser enganado; Leandro Castilhos, ótimo como o mocinho-espantalho; Luiz André
Alvim, mostrando sua versatilidade entre o médico-mocinho e o pai-policial;
Marcio Fonseca, muito bem como policial e do pretendente da dona do
estabelecimento; e Paulo Hamilton, igualmente hilário como a vidente espanhola,
o caixeiro e o velho corrupto. Todos, sem medo de errar, estão ótimos. Bem
dirigidos, confiantes e certos de que estão realizando um trabalho honesto e
digno.
Daniel Herz dirige este espetáculo usando toda sua
criatividade na expressão corporal dos atores – que até parapeito de janela eles
viram! – e, principalmente, dando atenção à palavra, aos ótimos textos Martins
Pena. É bastante acertada as inclusões, entre as cenas, de pequenas frases
contidas em vários textos de Martins Pena, o que mostra a atualidade de seus
personagens e a última frase do espetáculo, onde o próprio Martins Pena declara
seu amor ao teatro.
O Pena Carioca é mais um trabalho excelente dos Atores de Laura que merece ser visto por todos que gostam do teatro, pois Martins Pena, que é muito pouco encenado no Rio, escreveu sobre a sociedade carioca, cidade onde vivemos, e merece nossa reverência pelo seu bicentenário. Viva Martins Pena e os Atores de Laura!