Maria, mãe de Jesus. A Santa, a mãe de Deus. Aquela que tem vários nomes na terra, milhares de igrejas. A nossa senhora. Nossa. De todos. Virgem santa. Padroeira. A bendita entre as mulheres pois gerou o filho de Deus. Isso tudo nós já sabemos. Quem não sabe a oração “Ave Maria”? Sabemos que tem mais aves-marias no terço do que pais-nossos. Isto mostra o poder da oração de Maria? Não. Isso mostra que pra cada um pai-nosso, são necessárias 10 aves-marias... Cadê o equilíbrio de forças?
A bíblia foi escrita por homens. E ao longo do tempo, homens modificam a história, traduzindo, com releituras. Existe 5 bíblias diferentes: a judaica, a hebraica, a católica, a ortodoxa e a protestante. Todas escritas e traduzidas por homens. Onde está a voz feminina na história de religião?
Vivemos – graças a força feminina – em uma época em que as mulheres estão começando a ter seus direitos mais respeitados. São recentes – comparadas à existência humana na terra - as conquistas das mulheres, como a Lei Maria da Penha, o voto feminino, o fim da absolvição dos homens “em nome da honra”, só pra citar algumas.
Está em cartaz – apenas 8 apresentações – no Teatro Adolpho Bloch, o monólogo “Em Nome da Mãe”. A concepção, dramaturgia e atuação de Suzana Nascimento. Com base no livro de mesmo nome, do autor Erri de Luca, a peça nos mostra o lado de Maria, a mulher, a cidadã, aquela que, ainda jovem, não casada e que, por um anjo que veio do céu, se torna grávida de uma hora pra outra. A mulher tem que enfrentar o medo de ser mãe, a desconfiança da vizinhança, o susto do parceiro, e, além disso tudo, a preocupação com a justiça, que condena a mulher sempre que o assunto é traição.
Suzana nos traz um texto bem escrito, atual, e que mistura a atriz que o interpreta, a mulher moça Maria e a mãe de Jesus pós nascimento. Destaque para a carta que lê, juntando todos os tipos de mães de todas as religiões, num mesmo texto (a carta), trazendo referências das diversas religiões que têm mulheres como seres fortes. Lindo momento da peça. Suzana nos faz ver o lado da mulher, da moça, que não pediu para ser abençoada, que não foi adultera na relação, que não sabe com cuidar de uma criança e que implora para que seu filho, ao nascer, seja apenas um homem comum, do povo.
No palco temos a direção de arte, figurino e cenografia de Desirée Bastos e Jovanna Souza, que preenchem os espaços com tecidos de voil para dar profundidade e também servir de tela para projeções, com figurinos pendurados, as diversas faces da mulher, muitos potes de barro, mesa e cadeiras que parecem ser de uma casa antiga e ao mesmo tempo de fazenda. Ótima a ideia de usar tachos de barro como a barriga de Maria que vai crescendo.
A luz de Ana Luzia Molinari de Simoni e Hugo Mercier, criam desertos, céu, cometa... sabem bem o que estão fazendo. Criam focos de luz que transformam Maria em uma santa só com a luz. Frederico Puppi é um mago na trilha sonora.
Miwa Yanagisawa empresta seu talento para conduzir a peça usando todo o palco disponível, sendo decisiva a sua cena final em que os objetos de cena “vão sendo tirados de Maria”, assim como seu filho foi sumariamente tirado da mãe e transformado em filho de Deus. Miwa dá à cena final a importância deste espetáculo. O fato de tudo ser retirado mostra o imenso “roubo” e vazio que Maria sofreu por ser descreditada como mulher e, principalmente, como a mãe. Maria deixa de se tornar a mulher que enfrentou uma vida em nome de seu filho para ser “apenas” a barriga de aluguel do filho – homem – de Deus – homem. Destaque ainda para a direção de movimento de Denise Stutz.
Além de idealizar e escrever, Suzana Nascimento atua como Maria. Impecável trabalho de uma atriz que estudou bastante o assunto, a mulher, a história cristã, para dar vida, mesmo sem ter tido seus próprios filhos, à mãe da figura mais importante do imaginário religioso. Suzana está segura, firme, emotiva e atual neste espetáculo. Ao misturar-se como atriz e Maria, mudando em pequenos gestos de olhares e mover de cabeça, Suzana traz para o público a verdade cênica e a verdade da mulher. Defende a personagem e sua própria vida, fazendo desta peça um alerta, um relato, uma constatação de que, apensar das conquistas, ainda há muita estrada para que mulheres estejam de igual para igual com os homens. Um trabalho impecável.
“Em Nome da mãe” é de grande importância para o teatro. Falar de mulher usando a mãe de Jesus como âncora cênica faz com que todas as mulheres se sintam defendidas e homenageadas. Da evangélica à umbandista. Da católica à espírita. Todas são Marias. A peça está no limite entre a religião e a humanidade, sem ser agressiva.
Corram para assistir “Em Nome da Mãe”, se solidarizar com Maria, abraçar Suzana e Miwa, aplaudir de pé este trabalho impecável de entrega, denuncia e respeito. Viva Maria, Viva o Teatro!