
Inscrever projetos em editais também requer paciência e aprendizado. Lidar com certidões, contratos sociais, xérox autenticadas, protocolos e encadernações é muito cansativo para quem tem que criar o texto, o cenário, a programação visual, tudo ao mesmo tempo agora.
Gargalhei com a peça Comédia Russa, quando, no início, um dos personagens sofre para entrar em seu primeiro dia de trabalho em uma repartição publica russa qualquer. A burocracia o irrita, mas ele leva na maciota até conseguir um lugar ao sol. Junto a esta vida cotidiana de esquemas, ordens, desmandos, jeitinhos, começa uma série de assassinatos em seqüência.
Prezada Agatha Christie, li todos seus livros. Gostei muito de alguns, de outros achei o final muito improvável. Mas, no todo, a senhora é muito, mas muito boa, no gênero assassinatos.
Pedro Bricio, autor da peça Comédia Russa, segue o estilo de Agatha e nos deixa com a pulga atrás da orelha catando o assassino. Se é que houve assassinato, pois o suicídio sempre é uma hipótese válida. Mas num determinado ponto da peça, a gente percebe que... bem... não devo contar. Mas falta um final à altura do espetáculo. Fica uma grande duvida no ar e nenhuma novidade é criada para garantir a atenção do publico. No último terço da peça, eu perdi o fio de meada e não entendi muito bem o que rolou por lá. Vou ter que ver novamente para mudar esta história.

O elenco de 11 pessoas – Alexandre Pinheiro, Cristina Mayrink, Daniela Olivert, Filomena Mancuzo, Marcos Correa, Natália Lage, Ricardo Souzedo, Roberto Lobo, Rodrigo Nogueira, Rose Abdallah e Thelmo Fernandes - funciona muito bem em conjunto, com um ou outro se sobressaindo numa cena, mais que o colega. E não é uma peça de grupo? Pois este é muito bom.
O cenário do Nello Marrese é incrivelmente criativo. Admirável trabalho. Há pouco escrevi que achava seu “Maria do Caritó” seu melhor trabalho. Isso até ver Comédia Russa. Este sim é o seu melhor trabalho. Muito criativo mesmo. Cenografia de primeira categoria. O figurino de Rui Cortez abusa dos vermelhos sabiamente e dos tons cinza, tudo com a elegância necessária. A luz de Daniela Sanchez é bonita, principalmente na cena final que falarei mais adiante. Ah, claro, a excelente e criativa musica do André Abujamra. Tudo a ver.
Na direção, o João Fonseca. Vejo tudo dele. Acredito que seja um dos melhores diretores atualmente no teatro carioca. Esta é minha opinião, olha o ciúme, hein? Em Comédia Russa, João brincou de pique com seus amigos. Deixou-os a vontade. Talvez um pouco a vontade demais da conta. As duas cenas do casal tomando sorvete precisam de algo mais. Senti falta de cenas mais marcadas, quase coreografadas, que João faz em outras peças. A repetição das cenas de coreografia com musica – tanto coreografia quanto musica são ótimas - as vezes fica um pouco de mais. Mas, calma. Eu gostei muito. Principalmente da movimentação, da opção pela brincadeira, quase um Vaudeville.

Aplausos!