
Graças a Deus existem formas de se protestar contra
o consumismo que vem abarrotando a nova classe emergente - junto com sua falta
de educação. Uma das melhores respostas é o espetáculo “O CARA”, que está em
cartaz no Teatro dos Quatro. A peça faz um belíssimo
registro do momento atual. Com muita ironia, humor e abusando dos jingles de anúncios,
Miguel Thiré acerta em tudo. Brinca com os comerciais mais famosos da televisão
brasileira, com o IBOPE, com a valoração do consumo e mostra o que acontece
quando o “Meu, meu, meu. Quero, quero, quero. Posso, posso, posso” chega ao
limite. No fim do espetáculo, aquilo que mais amo em teatro aconteceu
novamente: sair pensando no que assisti, com vontade de discutir o assunto à
exaustão. A pergunta que não cala é “basta ter tudo na vida?” E outra “Você não
se sente sozinho depois que conseguiu o que queria?”
Ainda Miguel Thiré assina uma direção muito
competente, rápida, rígida e eficiente para seu texto. Encaixa o necessário à
trama (um cabide, uma cadeira e um microfone) às necessidades dos personagens.
Como se tudo fosse um documentário, com depoimentos, cenas longas, flashback e
rapidinhas para acelerar a vida. Explora totalmente o palco e faz um casamento
perfeito entre o ator e a plateia. A luz e o figurino (único) estão de acordo
com a necessidade proposta pelo diretor. Belissimo trabalho de texto e direção.
Agora, pra melhorar isso tudo, temos em cena Paulo Mathias
Jr. Um ator que fica imenso no palco, embarca na onda do diretor, se deixa conduzir e cria personagens totalmente reais e diferentes. Sua expressão facial e corporal são fabulosas! Uma ousadia até.
Paulo usa mãos e pés, quase se joga de costas no palco. É um mímico, um pândego.
Interpreta e executa com perfeição as marcas e as falas. Paulo não economiza,
se entrega. Entendemos todos os fonemas. Sai exausto do seu espaço de trabalho, que domina com
perfeição. A plateia que está no teatro para receber e oferecer parceria ao
ator nem respira. Aplausos de pé.
Felizmente a nova classe emergente agora pode ir ao
teatro. Mas, infelizmente, no dia que assisti ao espetáculo, alguns representantes
desta classe não estavam a fim de se envolver com a história, mas sim gastar dinheiro, mostrar que podem consumir o teatro, ainda com a ideia de que
ir ao teatro dá status. Teatro dá cultura e conhecimento! Fiquei - e ainda
estou - pensativo sobre o consumismo, sobre o “aproveitar a vida em vez de se
dedicar exclusivamente ao trabalho”. Sobre o que se está fazendo com a nova
classe emergente. É espetáculo para ver e conversar muito depois. Fiquei muito
feliz em ver no palco esta dupla de sucesso: Paulo Mathias Jr, um ator que admiro, respeito e sou fã; e Miguel Thiré, que desde “2 pra viagem” respeito e sigo. “O CARA” é teatro
que fica. Não é descartável. É assunto atual, é vida real. Recomendo muito.
Obrigatório.

