terça-feira, 10 de julho de 2012

O CARA


Atualmente estamos vendo o crescimento de uma população que antes consumia apenas o necessário para sobreviver. Hoje têm poder de compra maior do que há 10 anos. Televisões de plasma, ar condicionados, TVs por assinatura, viagens para lugares nunca antes pensados. Nunca antes na história deste país viu-se tanta oferta por geladeiras, fogões e móveis nas grandes lojas de departamento com IPI zero. Se a estratégia dos dirigentes da nação está certa ou não, fica para uma outra discussão. O que proponho é: basta ter tudo sem saber como usar educadamente? Rádios transmissores aos gritos na rua, pessoas falando ao celular como se estivessem em casa, viajantes gritando pelos corredores dos aeroportos, amigos conversando durantes filmes e peças de teatro. De que adiante dinheiro, sem educação? Instrução é possível, mas e a educação, onde fica? Não fica. Aqui no Rio pelo menos, “educação” está caindo em desuso.

Graças a Deus existem formas de se protestar contra o consumismo que vem abarrotando a nova classe emergente - junto com sua falta de educação. Uma das melhores respostas é o espetáculo “O CARA”, que está em cartaz no Teatro dos Quatro. A peça faz um belíssimo registro do momento atual. Com muita ironia, humor e abusando dos jingles de anúncios, Miguel Thiré acerta em tudo. Brinca com os comerciais mais famosos da televisão brasileira, com o IBOPE, com a valoração do consumo e mostra o que acontece quando o “Meu, meu, meu. Quero, quero, quero. Posso, posso, posso” chega ao limite. No fim do espetáculo, aquilo que mais amo em teatro aconteceu novamente: sair pensando no que assisti, com vontade de discutir o assunto à exaustão. A pergunta que não cala é “basta ter tudo na vida?” E outra “Você não se sente sozinho depois que conseguiu o que queria?”

Ainda Miguel Thiré assina uma direção muito competente, rápida, rígida e eficiente para seu texto. Encaixa o necessário à trama (um cabide, uma cadeira e um microfone) às necessidades dos personagens. Como se tudo fosse um documentário, com depoimentos, cenas longas, flashback e rapidinhas para acelerar a vida. Explora totalmente o palco e faz um casamento perfeito entre o ator e a plateia. A luz e o figurino (único) estão de acordo com a necessidade proposta pelo diretor. Belissimo trabalho de texto e direção.

Agora, pra melhorar isso tudo, temos em cena Paulo Mathias Jr. Um ator que fica imenso no palco, embarca na onda do diretor, se deixa conduzir e cria personagens totalmente reais e diferentes. Sua expressão facial e corporal são fabulosas! Uma ousadia até. Paulo usa mãos e pés, quase se joga de costas no palco. É um mímico, um pândego. Interpreta e executa com perfeição as marcas e as falas. Paulo não economiza, se entrega. Entendemos todos os fonemas. Sai exausto do seu espaço de trabalho, que domina com perfeição. A plateia que está no teatro para receber e oferecer parceria ao ator nem respira. Aplausos de pé.

Felizmente a nova classe emergente agora pode ir ao teatro. Mas, infelizmente, no dia que assisti ao espetáculo, alguns representantes desta classe não estavam a fim de se envolver com a história, mas sim gastar dinheiro, mostrar que podem consumir o teatro, ainda com a ideia de que ir ao teatro dá status. Teatro dá cultura e conhecimento! Fiquei - e ainda estou - pensativo sobre o consumismo, sobre o “aproveitar a vida em vez de se dedicar exclusivamente ao trabalho”. Sobre o que se está fazendo com a nova classe emergente. É espetáculo para ver e conversar muito depois. Fiquei muito feliz em ver no palco esta dupla de sucesso: Paulo Mathias Jr, um ator que admiro, respeito e sou fã; e Miguel Thiré, que desde “2 pra viagem” respeito e sigo. “O CARA” é teatro que fica. Não é descartável. É assunto atual, é vida real. Recomendo muito. Obrigatório.

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