sexta-feira, 3 de abril de 2026

CAMINHO DE CASA

Sempre começo a escrever sobre uma peça que eu gostei, e recomendo, contando como o espetáculo se ligou na minha vida e porque merece estar neste blog - seleção de peças de teatro imperdíveis.

Deve existir algum estudo sobre comportamentos erráticos e perturbadores de pais com seus filhos, mães com suas filhas, quando jovens, que são devidamente explicados pelo desenvolvimento de alguma doença fisica desses pais na vida madura ou na terceira idade.

Não tive uma relação boa com meu pai, mas, no fim das contas, eu cuidei dele quando precisou. Na minha familia também existe caso de mãe que maltratava a filha, mas foi ela mesma quem cuidou da mãe no fim.

Sigo no TikTok uma nora que cuida da sogra com Alzheimer. A paciência da nora é maior do que a de Jó! O bacana do perfil é mostrar como agir em momentos de irritação, esquecimento e lembrança.

Está em cartaz na Arena do SESC Copacabana, Caminho de Casa. A peça é composta de recortes da vida entre mãe e filha. Mãe que perde a memória, fica confusa, agride, se desculpa, não reconhece, repete varias vezes a mesma coisa... e uma filha, que suporta o momento da mãe da melhor forma que pode. Em sua juventude, a mãe agredia verbalmente a filha, acusava de preferir ao pai, jogava na cara da filha o “tudo que fiz por você” o tempo todo. Vemos a evolução da doença, idas ao médico, embates, a paciencia da filha no limite, as cobranças e as mágoas. A filha tem tudo para abandonar a mãe, mas é ela quem cuida quando a mãe perde seu bem mais precioso, a sua memória.

O texto, de Renata Mizhari é ótimo. O inicio da mãe rememorando os numeros de telefone, já sabendo que irá esquece-los algum dia, o parcelamento dos momentos presente, passado, sala de espera de médico, faz com que a dramaturgia não siga uma linha lógica, mas isso pouco importa, pois a cada pequeno momento, a cada pequeno embate, a cada situação, temos uma micro-dramaturgia que se liga num todo. É de emocionar mesmo algumas falas ditas pelas personagens e Renata tem o dom de usar o dia a dia, o coloquial, de uma forma belíssima no teatro.

O cenário de Tuca Benvenutti é composto de objetos necessários para contar a história com uma ótima presença de um bebedouro que permite mostrar o esquecimento, acalmar os ânimos e, ao mesmo tempo, saciar a sede das atrizes!! Cadeiras e plantas são objetos da história: sala de espera, sala de casa, plantas são personagens. A mesa com o microfone parece aquele local onde os atendentes ficam sentados chamando o numero da senha do paciente e dizendo a sala do consultório a ser ocupada! – recentemente passei por isto com minha mãe, então a referência está mais que fresquinha na cabeça!!

O figurino de Teresa Abreu, único, é elegante, leve e ao mesmo tempo sóbrio para a mãe e branco para a filha, que reflete luz, ilumina, indica pureza. A iluminação de Nina Balbi ajuda a contar a história com corredores, focos e mudança de tom entre presente-passado-consultório. Ótimo trabalho. Temos ainda a luxuosa direção de movimento de Laura Sami que cria junto com as atrizes micro expressões faciais e ao mesmo tempo largos movimentos corporais. Azulllllll cria literalmente uma trilha sonora do começo ao fim. O som do dia a dia, o som da sala de espera, as músicas que trazem memória. Tudo funciona.

Miwa Yanagizawa é a diretora. Um trabalho minucioso, certeiro. Em vários momentos da peça observamos as atrizes seguras com o texto e uma dinâmica de cena bem construída para um espaço de arena. Tem duas cenas que me deixaram boquiaberto tamanha simplicidade e profundidade. A primeira, consultório de psicólogo. Embora narrado pela filha, duas plantas são colocadas lado a lado em frente à mesa de centro. Em determinado momento, é solicitado que a mãe saia para que a filha possa conversar com a psicóloga. Uma das plantas é trocada de local, sendo estacionada bem distante, como se a filha simplesmente estivesse re-arrumando a casa. Simbólico e consciente. Outra cena, a filha sentada na sala de espera aguardando a chamada da senha, olha e murmura para a mãe sentada distante. Gestos e palavras ditas apenas com os lábios, sem som. A cada chamado da filha, a mãe vira o rosto, como uma criança pirracenta. As duas se entendem, nós, público, entendemos tudo!! Uma beleza!! Sem falar na condução da história onde o afeto, carinho, raiva e mágoa estão presentes o tempo todo nas entonações e caminhadas. Um trabalho sensível e competente. Adessa Martins é a diretora assistente.

Juliana França é a filha. Tem aqui um desafio grande. Contracenar com a gigante Kelzy Ecard e dar vida à uma filha magoada, preocupada, dividida entre perdão e rancor, amor não correspondido e ao mesmo tempo doido para ser compartilhado. Juliana não se rende à personagem muito menos à colega de cena, encara os dois desafios com qualidade, técnica, sensibilidade e muita coragem. Um ótimo trabalho de composição. (No fim da peça, ficou clara a sua dedicação e angústia quando ela correu para abraçar a propria filha que estava na plateia. Neste gesto ela se desmonta e ao mesmo tempo faz o que a personagem queria que sua mãe tivesse feito com ela). Belíssimo trabalho.

Kelzy Ecard é a gigante da hora. Vindo de grandes e diferentes trabalhos no teatro – ora cantando Chico Buarque, ora ao lado de um marido/namorado que encara uma doença terminal – Kelzy se firma como uma das grandes e melhores atrizes deste momento. Nesta peça, ela, a mãe, varia entre gargalhada e choro compulsivo. Muda drasticamente entre um esquecimento para uma lembrança através de uma música. Não reconhece a filha e trata uma desconhecida como tal. A cena em que se perde na rua, esquece o Caminho de Casa, é minimalista, forte, séria, emocionante, tensa e a plateia fica atônica, doida para ajudar aquela senhora perdida – em todos os sentidos. Kelzy traz uma verdade poucas vezes vista em teatro ultimamente. Ela não interpreta, vive. Sofre verdadeiramente. E é essa verdade intensa que faz deste espetáculo um de seus trabalhos mais marcantes na sua trajetória de 35 anos de carreira como atriz. (Ela não se lembra, mas a conheci no Projac. Eu, analista de projetos, ela, produtora de artes. Ali ela já era essa mulher amada por todos e competente).

Aplausos ainda para as produtoras Christina Carvalho e Natália Dias, neste projeto do Teatro de Nós Produções Artísticas; Catharina Rocha e Paula Catunda sempre com bons espetáculos nas mãos na assessoria de imprensa; Nathália Alves nas Mídias Sociais, e Janaina Ferreira na Identidade Visual.

A gente sabe quando um trabalho é construído com amor e união. Sabemos quando uma peça foi pensada desde a primeira leitura até a estreia nos mínimos detalhes. O que vem do palco para o público é forte, intenso e real. O abraço coletivo da equipe na hora dos aplausos diz tudo.

Caminho de Casa nos faz pensar em como estamos cuidando dos nossos parentes que estão perdendo as memórias, suas lembranças, e faz com que aprendamos a ter paciência e tornar a vida deles menos confusa. É o teatro que eu gosto: verdadeiro, humano, vivo, que traz reflexão e aponta caminhos. Imperdível, impecável e inesquecível. Aplausos de pé. Viva o teatro!!


terça-feira, 10 de março de 2026

ÓPERA DO MALANDRO

Senta que lá vem textão.

Em 2003 assistir à Ópera do Malandro, no Teatro Carlos Gomes (RJ) me causou fortes emoções. Comprei o CD da peça e sei as músicas de cor. Em 2014 assisti a outra montagem, basicamente só com homens. E agora marquei presença na montagem de Ópera do Malando, em São Paulo, sob a batuta e visão de Jorge Farjalla, reafirmando o musical brasileiro como um dos melhores de todos os tempos.

É impressionante como, a cada tempo que passa, a obra fica mais perto da vida real! Máfia entre os deputados, traficante na Faria Lima, bicheiro entre vereadores... a cada novo vazamento do celular de um tal dono de banco novamente preso, detalhes sórdidos de planos de espancamento de jornalista e funcionária e chantagens com ministros supremos e presidentes de partidos, aparecem na mídia e conferem à Ópera do Malandro o selo de “Brasil como ele é”.

O saguão do Teatro Renault está totalmente instagramável e tem uma lojinha para comprar memória física! A sala de apresentação tem um cenário à vista, uma grande porta de galpão onde acontecerá a história, incluindo aí as letras em vermelho formando o título da peça. 

Ao começar, um personagem se abaixa e saúda o seu orixá. Suas palmas abrem caminhos, pedem autorização. De certa forma o som lembra as cajadadas de Molière. É um pedido, “nos abençoe”, “nos proteja”.

A porta se abre e vemos a cenografia com escadas e caixas que se movem, atendendo perfeitamente ao propósito da peça. O cenário é assinado por Cris Azner, com adereços e objetos de Clau Carmo. A arte gráfica é de Kelson Spalato .

E já no primeiro número musical chega o elenco num figurino de muito bom gosto, moderno, criativo e cheio de cores, referências, criação de Úga Agú e Jorge Farjalla. O que chama a atenção é o visagismo de Sinome Momo com rostos pintados de base branca e cores fortes nos olhos e bocas. A referência ao teatro brechtiano é clara. A maquiagem funciona como uma máscara, tornando os personagens meio humanos, ajudando a segurar a iluminação, mantendo as expressões dos atores visíveis mesmo a distância. Gabriele Souza é a designer de luz que assina com competência e qualidade a iluminação do que assistimos. 

Na direção musical, Gui Leal nos oferece logo na abertura um mix do que virá somado a “O Sino da Igrejinha” e “Vai Malandra”. Somos brindados com os malandros dançando tango com Vogue de Madonna. Vem daí uma rica referência não só da icônica apresentação de Madonna no MTV Awards com o início do movimento vogue das casas de travestis e trans – como podemos ver no seriado Pose. Folhetim e Muchachas de Copacabana são tocadas na sequência, valorizando não só Fichinha como todas as garotas do bordel. 

Falar dos malandros é aplaudir Isaac Belfort por seu Barrabás, Mateus Ribeiro, ótimo com voz de fumante Phillip Morris, Patrick Amstalden como o bebum Johnny Walker, Paulo Viel por seu Big Ben e Hipólyto por seu General Eletric. Falar das muchachas é aplaudir Marya Bravo por sua Dóris Pelanca, Ana Luiza Ferraira pela divertida Fichinha, Larissa Grajauskas por Jussara Pé de Anjo, Marina Mathey por sua Dorinha Tubão – que administra o bordel, Carol Botelho por sua Mimi Bibelô e Giu Mallen por Shirley Paquete.

A direção coreográfica de Leilane Teles nos faz querer estar no palco e dançar com o elenco.

Com a inclusão duas músicas de Chico Buarque na história, “Atrás da Porta” e “Tatuagem”, em um belíssimo dueto entre Lúcia (Andrezza Massei) e Teresinha (Carol Costa), Jorge Farjalla traz a antiga namorada para o primeiro ato, mostrando que o malandro a dispensa para ficar com filha do cafetão. Isso é ótimo, pois “faltava” nas montagens anteriores a existência prévia de Lúcia na vida de Max (José Loreto). Ela aparecia “do nada” no segundo ato como uma “louca” dizendo que ele a abandonara e cantava as vantagens que ela tinha sobre ele duelando com Teresinha. Agora ficou completo! O designer de som é de Randal Juliano.

Valéria Barcellos nos traz a melhor Geni já vistas nos palcos brasileiros. Desde sua entrada com uma gigantesca bolsa de muambas, fazendo uma cena divertidíssima com Vitória Régia (Totia Meireles) e Fernandes Duran (Ernani Moraes), onde entuba um perfume meia boca dizendo que é o suprassumo da riqueza, e a nouveau riche (como diria minha avó), ou a emergente (como chamaria aquela colunista social carioca nos anos 90), cai como uma patinha. Sem falar no salamaleque que Geni faz para contar do casamento da filha do casal com o malandro Max. Seu número musical, talvez o mais icônico da peça, é plena emoção. Nunca ante na história deste país eu me levantei a plenos pulmões e gritei “bravo” e aplaudi de pé um número musical NO MEIO DA PEÇA!! Refaço os gritos e aplausos para Valéria Barcellos.

Nesta montagem, as mulheres se mostram muito mais poderosas que os homens. Teresinha (Carol Costa – sempre segura e firme, atenta, ágil, sábia, além de cantar que é uma beleza!) manda em Max e nos funcionários depois que ele foge; Vitória (Totia Meireles – perfeita, voz, atuação, canto... céus como sou fã!) manda no marido e nas meninas do bordel. Geni (Valéria Barcellos) manda em todo mundo. Fichinha (Ana Luiza Ferreira – ótima, engraçada e canta que é uma beleza!) manda em Max e sua chegada é de abalar quarteirão. Doris Pelanca (Marya Bravo – seu número cantado em Alemão é belíssimo!) se revolta, vai pra sarjeta e retorna por cima com uma mensagem importante. São todas as Pombas Giras presentes e homenageadas em cena.

Na parte masculina do elenco, Amaury Lorenzo nos engana com tamanha perfeição com seu delegado Chaves/Tigrão que ficamos na dúvida se era ele mesmo ou um ator substituto! Adorei isso! Que beleza de atuação! José Loreto é o Max Overseas que podemos ver em qualquer esquina, rua, calçada da Lapa carioca. Loreto se estiver caracterizado e andar pelo famoso bairro, vão achar que é um dos milhares de personagens conhecidos da região e isto é um grande mérito do seu trabalho. Ernani Moraes é o proprio mafioso Fernandes Duran com sua voz de trovão e humor debochado mandando em todos, menos nelas! São o povo da rua, os Exus.

A visão, direção, proposta, talento, estudos de Jorge Farjalla para esta montagem é o que torna o espetáculo um acontecimento único no teatro brasileiro. Mais seguro e firme, mais maduro e culto, embora as referências sejam imensas, nesta peça ele é objetivo e, embora não captemos todas as mensagens, 90% do que se passa em sua cabeça é abocanhado pelo público. E agora, para ele, o futuro espetáculo se torna um desafio maior ainda. Sempre subindo degraus cada vez maiores, a sua visão de Ópera do Malando é um salto grande em qualidade, competência e talento. Tudo que foi escrito neste texto é da cabeça dele, o mérito das belezas todas, é dele. O que virá depois? Um monólogo com uma cadeira e um pino de luz? 

Graças aos irmãos Daniella e Marco Griesi, parceiros do Farjalla em suas propostas artísticas, temos esta peça em cartaz em São Paulo até o próximo domingo. O patrocínio da Petrobras é a prova de que o Brasil sabe fazer musicais de qualidade igual e acima dos musicais da Broadway.

Finalizei este texto sem ler o programa da peça. Agora que o li, é exatamente o que lá está escrito por Jorge Farjalla e é exatamente o que eu vi no palco. Portanto... escrito em palavras e posto em cena! Agora é correr pro Teatro Renault pois só tem mais um fim de semana. Assista e me agradeça depois. Viva o teatro musical brasileiro! Vida longa à Ópera do Malandro! Viva o teatro!