terça-feira, 10 de março de 2026

ÓPERA DO MALANDRO

Senta que lá vem textão.

Em 2003 assistir à Ópera do Malandro, no Teatro Carlos Gomes (RJ) me causou fortes emoções. Comprei o CD da peça e sei as músicas de cor. Em 2014 assisti a outra montagem, basicamente só com homens. E agora marquei presença na montagem de Ópera do Malando, em São Paulo, sob a batuta e visão de Jorge Farjalla, reafirmando o musical brasileiro como um dos melhores de todos os tempos.

É impressionante como, a cada tempo que passa, a obra fica mais perto da vida real! Máfia entre os deputados, traficante na Faria Lima, bicheiro entre vereadores... a cada novo vazamento do celular de um tal dono de banco novamente preso, detalhes sórdidos de planos de espancamento de jornalista e funcionária e chantagens com ministros supremos e presidentes de partidos, aparecem na mídia e conferem à Ópera do Malandro o selo de “Brasil como ele é”.

O saguão do Teatro Renault está totalmente instagramável e tem uma lojinha para comprar memória física! A sala de apresentação tem um cenário à vista, uma grande porta de galpão onde acontecerá a história, incluindo aí as letras em vermelho formando o título da peça. 

Ao começar, um personagem se abaixa e saúda o seu orixá. Suas palmas abrem caminhos, pedem autorização. De certa forma o som lembra as cajadadas de Molière. É um pedido, “nos abençoe”, “nos proteja”.

A porta se abre e vemos a cenografia com escadas e caixas que se movem, atendendo perfeitamente ao propósito da peça. O cenário é assinado por Cris Azner, com adereços e objetos de Clau Carmo. A arte gráfica é de Kelson Spalato .

E já no primeiro número musical chega o elenco num figurino de muito bom gosto, moderno, criativo e cheio de cores, referências, criação de Úga Agú e Jorge Farjalla. O que chama a atenção é o visagismo de Sinome Momo com rostos pintados de base branca e cores fortes nos olhos e bocas. A referência ao teatro brechtiano é clara. A maquiagem funciona como uma máscara, tornando os personagens meio humanos, ajudando a segurar a iluminação, mantendo as expressões dos atores visíveis mesmo a distância. Gabriele Souza é a designer de luz que assina com competência e qualidade a iluminação do que assistimos. 

Na direção musical, Gui Leal nos oferece logo na abertura um mix do que virá somado a “O Sino da Igrejinha” e “Vai Malandra”. Somos brindados com os malandros dançando tango com Vogue de Madonna. Vem daí uma rica referência não só da icônica apresentação de Madonna no MTV Awards com o início do movimento vogue das casas de travestis e trans – como podemos ver no seriado Pose. Folhetim e Muchachas de Copacabana são tocadas na sequência, valorizando não só Fichinha como todas as garotas do bordel. 

Falar dos malandros é aplaudir Isaac Belfort por seu Barrabás, Mateus Ribeiro, ótimo com voz de fumante Phillip Morris, Patrick Amstalden como o bebum Johnny Walker, Paulo Viel por seu Big Ben e Hipólyto por seu General Eletric. Falar das muchachas é aplaudir Marya Bravo por sua Dóris Pelanca, Ana Luiza Ferraira pela divertida Fichinha, Larissa Grajauskas por Jussara Pé de Anjo, Marina Mathey por sua Dorinha Tubão – que administra o bordel, Carol Botelho por sua Mimi Bibelô e Giu Mallen por Shirley Paquete.

A direção coreográfica de Leilane Teles nos faz querer estar no palco e dançar com o elenco.

Com a inclusão duas músicas de Chico Buarque na história, “Atrás da Porta” e “Tatuagem”, em um belíssimo dueto entre Lúcia (Andrezza Massei) e Teresinha (Carol Costa), Jorge Farjalla traz a antiga namorada para o primeiro ato, mostrando que o malandro a dispensa para ficar com filha do cafetão. Isso é ótimo, pois “faltava” nas montagens anteriores a existência prévia de Lúcia na vida de Max (José Loreto). Ela aparecia “do nada” no segundo ato como uma “louca” dizendo que ele a abandonara e cantava as vantagens que ela tinha sobre ele duelando com Teresinha. Agora ficou completo! O designer de som é de Randal Juliano.

Valéria Barcellos nos traz a melhor Geni já vistas nos palcos brasileiros. Desde sua entrada com uma gigantesca bolsa de muambas, fazendo uma cena divertidíssima com Vitória Régia (Totia Meireles) e Fernandes Duran (Ernani Moraes), onde entuba um perfume meia boca dizendo que é o suprassumo da riqueza, e a nouveau riche (como diria minha avó), ou a emergente (como chamaria aquela colunista social carioca nos anos 90), cai como uma patinha. Sem falar no salamaleque que Geni faz para contar do casamento da filha do casal com o malandro Max. Seu número musical, talvez o mais icônico da peça, é plena emoção. Nunca ante na história deste país eu me levantei a plenos pulmões e gritei “bravo” e aplaudi de pé um número musical NO MEIO DA PEÇA!! Refaço os gritos e aplausos para Valéria Barcellos.

Nesta montagem, as mulheres se mostram muito mais poderosas que os homens. Teresinha (Carol Costa – sempre segura e firme, atenta, ágil, sábia, além de cantar que é uma beleza!) manda em Max e nos funcionários depois que ele foge; Vitória (Totia Meireles – perfeita, voz, atuação, canto... céus como sou fã!) manda no marido e nas meninas do bordel. Geni (Valéria Barcellos) manda em todo mundo. Fichinha (Ana Luiza Ferreira – ótima, engraçada e canta que é uma beleza!) manda em Max e sua chegada é de abalar quarteirão. Doris Pelanca (Marya Bravo – seu número cantado em Alemão é belíssimo!) se revolta, vai pra sarjeta e retorna por cima com uma mensagem importante. São todas as Pombas Giras presentes e homenageadas em cena.

Na parte masculina do elenco, Amaury Lorenzo nos engana com tamanha perfeição com seu delegado Chaves/Tigrão que ficamos na dúvida se era ele mesmo ou um ator substituto! Adorei isso! Que beleza de atuação! José Loreto é o Max Overseas que podemos ver em qualquer esquina, rua, calçada da Lapa carioca. Loreto se estiver caracterizado e andar pelo famoso bairro, vão achar que é um dos milhares de personagens conhecidos da região e isto é um grande mérito do seu trabalho. Ernani Moraes é o proprio mafioso Fernandes Duran com sua voz de trovão e humor debochado mandando em todos, menos nelas! São o povo da rua, os Exus.

A visão, direção, proposta, talento, estudos de Jorge Farjalla para esta montagem é o que torna o espetáculo um acontecimento único no teatro brasileiro. Mais seguro e firme, mais maduro e culto, embora as referências sejam imensas, nesta peça ele é objetivo e, embora não captemos todas as mensagens, 90% do que se passa em sua cabeça é abocanhado pelo público. E agora, para ele, o futuro espetáculo se torna um desafio maior ainda. Sempre subindo degraus cada vez maiores, a sua visão de Ópera do Malando é um salto grande em qualidade, competência e talento. Tudo que foi escrito neste texto é da cabeça dele, o mérito das belezas todas, é dele. O que virá depois? Um monólogo com uma cadeira e um pino de luz? 

Graças aos irmãos Daniella e Marco Griesi, parceiros do Farjalla em suas propostas artísticas, temos esta peça em cartaz em São Paulo até o próximo domingo. O patrocínio da Petrobras é a prova de que o Brasil sabe fazer musicais de qualidade igual e acima dos musicais da Broadway.

Finalizei este texto sem ler o programa da peça. Agora que o li, é exatamente o que lá está escrito por Jorge Farjalla e é exatamente o que eu vi no palco. Portanto... escrito em palavras e posto em cena! Agora é correr pro Teatro Renault pois só tem mais um fim de semana. Assista e me agradeça depois. Viva o teatro musical brasileiro! Vida longa à Ópera do Malandro! Viva o teatro!

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