Sempre começo a escrever sobre uma peça que eu gostei, e recomendo, contando como o espetáculo se ligou na minha vida e porque merece estar neste blog - seleção de peças de teatro imperdíveis.Deve existir algum estudo sobre comportamentos erráticos e perturbadores de pais com seus filhos, mães com suas filhas, quando jovens, que são devidamente explicados pelo desenvolvimento de alguma doença fisica desses pais na vida madura ou na terceira idade.
Não tive uma relação boa com meu pai, mas, no fim das contas, eu cuidei dele quando precisou. Na minha familia também existe caso de mãe que maltratava a filha, mas foi ela mesma quem cuidou da mãe no fim.
Sigo no TikTok uma nora que cuida da sogra com Alzheimer. A paciência da nora é maior do que a de Jó! O bacana do perfil é mostrar como agir em momentos de irritação, esquecimento e lembrança.
Não tive uma relação boa com meu pai, mas, no fim das contas, eu cuidei dele quando precisou. Na minha familia também existe caso de mãe que maltratava a filha, mas foi ela mesma quem cuidou da mãe no fim.
Sigo no TikTok uma nora que cuida da sogra com Alzheimer. A paciência da nora é maior do que a de Jó! O bacana do perfil é mostrar como agir em momentos de irritação, esquecimento e lembrança.
Está em cartaz na Arena do SESC Copacabana, Caminho de Casa. A peça é composta de recortes da vida entre mãe e filha. Mãe que perde a memória, fica confusa, agride, se desculpa, não reconhece, repete varias vezes a mesma coisa... e uma filha, que suporta o momento da mãe da melhor forma que pode. Em sua juventude, a mãe agredia verbalmente a filha, acusava de preferir ao pai, jogava na cara da filha o “tudo que fiz por você” o tempo todo. Vemos a evolução da doença, idas ao médico, embates, a paciencia da filha no limite, as cobranças e as mágoas. A filha tem tudo para abandonar a mãe, mas é ela quem cuida quando a mãe perde seu bem mais precioso, a sua memória.
O texto, de Renata Mizhari é ótimo. O inicio da mãe rememorando os numeros de telefone, já sabendo que irá esquece-los algum dia, o parcelamento dos momentos presente, passado, sala de espera de médico, faz com que a dramaturgia não siga uma linha lógica, mas isso pouco importa, pois a cada pequeno momento, a cada pequeno embate, a cada situação, temos uma micro-dramaturgia que se liga num todo. É de emocionar mesmo algumas falas ditas pelas personagens e Renata tem o dom de usar o dia a dia, o coloquial, de uma forma belíssima no teatro.
O cenário de Tuca Benvenutti é composto de objetos necessários para contar a história com uma ótima presença de um bebedouro que permite mostrar o esquecimento, acalmar os ânimos e, ao mesmo tempo, saciar a sede das atrizes!! Cadeiras e plantas são objetos da história: sala de espera, sala de casa, plantas são personagens. A mesa com o microfone parece aquele local onde os atendentes ficam sentados chamando o numero da senha do paciente e dizendo a sala do consultório a ser ocupada! – recentemente passei por isto com minha mãe, então a referência está mais que fresquinha na cabeça!!
O figurino de Teresa Abreu, único, é elegante, leve e ao mesmo tempo sóbrio para a mãe e branco para a filha, que reflete luz, ilumina, indica pureza. A iluminação de Nina Balbi ajuda a contar a história com corredores, focos e mudança de tom entre presente-passado-consultório. Ótimo trabalho. Temos ainda a luxuosa direção de movimento de Laura Sami que cria junto com as atrizes micro expressões faciais e ao mesmo tempo largos movimentos corporais. Azulllllll cria literalmente uma trilha sonora do começo ao fim. O som do dia a dia, o som da sala de espera, as músicas que trazem memória. Tudo funciona.
Miwa Yanagizawa é a diretora. Um trabalho minucioso, certeiro. Em vários momentos da peça observamos as atrizes seguras com o texto e uma dinâmica de cena bem construída para um espaço de arena. Tem duas cenas que me deixaram boquiaberto tamanha simplicidade e profundidade. A primeira, consultório de psicólogo. Embora narrado pela filha, duas plantas são colocadas lado a lado em frente à mesa de centro. Em determinado momento, é solicitado que a mãe saia para que a filha possa conversar com a psicóloga. Uma das plantas é trocada de local, sendo estacionada bem distante, como se a filha simplesmente estivesse re-arrumando a casa. Simbólico e consciente. Outra cena, a filha sentada na sala de espera aguardando a chamada da senha, olha e murmura para a mãe sentada distante. Gestos e palavras ditas apenas com os lábios, sem som. A cada chamado da filha, a mãe vira o rosto, como uma criança pirracenta. As duas se entendem, nós, público, entendemos tudo!! Uma beleza!! Sem falar na condução da história onde o afeto, carinho, raiva e mágoa estão presentes o tempo todo nas entonações e caminhadas. Um trabalho sensível e competente. Adessa Martins é a diretora assistente.
Juliana França é a filha. Tem aqui um desafio grande. Contracenar com a gigante Kelzy Ecard e dar vida à uma filha magoada, preocupada, dividida entre perdão e rancor, amor não correspondido e ao mesmo tempo doido para ser compartilhado. Juliana não se rende à personagem muito menos à colega de cena, encara os dois desafios com qualidade, técnica, sensibilidade e muita coragem. Um ótimo trabalho de composição. (No fim da peça, ficou clara a sua dedicação e angústia quando ela correu para abraçar a propria filha que estava na plateia. Neste gesto ela se desmonta e ao mesmo tempo faz o que a personagem queria que sua mãe tivesse feito com ela). Belíssimo trabalho.
Kelzy Ecard é a gigante da hora. Vindo de grandes e diferentes trabalhos no teatro – ora cantando Chico Buarque, ora ao lado de um marido/namorado que encara uma doença terminal – Kelzy se firma como uma das grandes e melhores atrizes deste momento. Nesta peça, ela, a mãe, varia entre gargalhada e choro compulsivo. Muda drasticamente entre um esquecimento para uma lembrança através de uma música. Não reconhece a filha e trata uma desconhecida como tal. A cena em que se perde na rua, esquece o Caminho de Casa, é minimalista, forte, séria, emocionante, tensa e a plateia fica atônica, doida para ajudar aquela senhora perdida – em todos os sentidos. Kelzy traz uma verdade poucas vezes vista em teatro ultimamente. Ela não interpreta, vive. Sofre verdadeiramente. E é essa verdade intensa que faz deste espetáculo um de seus trabalhos mais marcantes na sua trajetória de 35 anos de carreira como atriz. (Ela não se lembra, mas a conheci no Projac. Eu, analista de projetos, ela, produtora de artes. Ali ela já era essa mulher amada por todos e competente).
A gente sabe quando um trabalho é construído com amor e união. Sabemos quando uma peça foi pensada desde a primeira leitura até a estreia nos mínimos detalhes. O que vem do palco para o público é forte, intenso e real. O abraço coletivo da equipe na hora dos aplausos diz tudo.
Caminho de Casa nos faz pensar em como estamos cuidando dos nossos parentes que estão perdendo as memórias, suas lembranças, e faz com que aprendamos a ter paciência e tornar a vida deles menos confusa. É o teatro que eu gosto: verdadeiro, humano, vivo, que traz reflexão e aponta caminhos. Imperdível, impecável e inesquecível. Aplausos de pé. Viva o teatro!!
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