
Em cartaz no Teatro Gláucio
Gil o espetacular ”Aos Domingos”, texto
da Julia Spadaccini. A história gira em torno de um almoço dominical. A família
será reunida após um longo tempo, pois o irmão, que mora longe, chega para ver a
irmã e o pai. Resumindo a história desta família, seus pais se separaram e os
filhos pequenos ficaram com a mãe. Aos domingos, o pai os visitava, mas na
verdade era de 15 em 15 dias. O menino ja observava a sacancagem do pai ao
mentir para a filha, mas mantinha na irmã a esperança da chegada do pai naquele
domingo da falta. Os anos passaram, o irmão viaja para o exterior deixando a
irmã cuidando da mãe. Esta morre. A filha casa “com um qualquer” para afastar a
solidão. Pai e filha passam a se ver, aos domingos, para um almoço burocrático.
O marido da irmã só pensa em si e no trabalho. Eis que neste domingo
específico, além do pai, a irmã receberá o irmão, que volta para visita-la, e, de
surpresa, um amigo de infância.

“…
JOÃO - E você?
ANA - Eu?
JOÃO - Tudo bem?
ANA - Ah, Johnny! Tudo é muita coisa, não acha?
João ri.
JOÃO - Está feliz?
ANA - Feliz? Feliz de felicidade?
JOÃO - Tem feliz de outra coisa?
ANA - Ah, Johnny, felicidade é pra quem tem pouca lembrança,
coisa de 20 anos.
…”
Dá o que pensar, não é? Pois assim é todo o espetáculo.
Discussões acaloradas, reconciliações, revelações sobre passado e presente.
Sempre com humor, mas enfiando o dedo bem fundo nas feridas que não param de
lacrimejar.
A direção de Bruce
Gomlevsky é inteligente, explorando os diálogos e as situações que o texto
já oferece de bandeja. Tira partido das boas
atuações do elenco e explora ao máximo a movimentação ansiosa daquela mulher, a
futilidade e indiferença do marido, a insegurança do irmão, o constrangimento
do amigo e a ausência do pai.
No palco, o ótimo cenário
de Nello Marrese e Natália Lana pode ser uma cozinha aberta para um jardim com
árvores decepadas, um alpendre, uma varanda, onde os objetos necessários estão
ali para caracterizar a época do espetáculo, como a tv pequena. Ao fundo, três
grandes panos, parecendo roupas penduradas no varal, dão transparência para uma
cozinha e uma sala. O figurino é de Flávio Souza que impõe uma elegância no
amigo, despojamento no irmão, uma roupa de trabalho para o marido e um vestido
simples, mas que já foi de festa, para a irmã. A luz de Luiz Paulo Neném é
eficiente.

Aos Domingos é um espetáculo inteligente,
divertido, que faz pensar. Nos envolvemos naquela história do princípio ao fim
e não queremos que a peça acabe. Ficamos revendo momentos do espetáculo,
passando o texto na cabeça, após a apresentação, encontrando frases geniais
para repeti-las depois. Um ótimo programa, excelente teatro. Imperdivel