
Nãna sempre foi atual. Moderna, à frente de todos os tempos.
Quando partiu, sem autorização nossa, sem dizer adeus, me senti o mais órfão
dos amigos. Não briguei com ela por sua ida, por me deixar aqui sem respostas e
sem seu bacalhau na mesa de plástico da quitinete de Copacabana. Sabíamos que
era este seu desejo: descansar em paz. Assim, nos confortamos. Até hoje ouço
sua voz com o leve sotaque português ao pé do telefone: “Adivinha quem é?”. Sua
rouquidão era inconfundível.
Acredito que a energia gerada por quem partiu continue
presente, de outra forma. Hoje, sinto a presença da minha Nãna em pequenas frases
que digo, situações que vivo e objetos pessoais dela que guardei. Minha única
tristeza é a falta de notícias. O não poder vê-la (por enquanto) me deixa
triste. Um dia resolveremos isto!

Senti falta das amigas contarem como conhecer a falecida as
transformou. Como eram antes e como ficaram depois da chegada da amiga por suas
vidas? Nãna mudou minha forma de falar, de observar o mundo. Nãna me orientou,
trocamos confidências que me foram (e ainda são) úteis ao meu dia a dia social.
Somos a reunião de características de nossos amigos, parentes e personalidade própria.
Ao conhecer alguém novo, que fica na nossa trajetória, algo desta pessoa é incorporado
em nossa personalidade. O que ficou em cada uma das personagens?

Marcio Abreu dirige a peça sabendo dosar os momentos de tristeza,
tensão e gargalhadas com a exatidão para cada momento. Destaque para as interpretações
individuais das amigas cantando e para as conversas em torno do sofá e mesa de
centro. O discurso de agradecimento no velório é uma das cenas mais bonitas que
vi recentemente em teatro.

Com produção de José Luiz Coutinho e Wagner Pacheco, Nômades
é uma celebração da vida. Choramos, rimos, nos solidarizamos com a perda das amigas
em cena. A mensagem do espetáculo foi a escolha, das três, pela vida, pelo “seguir
adiante em memória aos bons momentos em que todas viveram juntas”.
E é com esta celebração da vida (que não me canso de exaltar
nesta peça) que recomento a todos que assistam este espetáculo para que possam lembrar dos
amigos que se foram, fazer um pensamento positivo para, onde quer que estejam,
olhem por nós. E que possamos seguir adiante em nossa história, até
quando pudermos encontrar nossos amigos novamente. Viva a vida! viva Nômades!
Nenhum comentário:
Postar um comentário