Sou muito fã de espetáculos de teatro que derivam de livros. O casamento de literatura e teatro, bem como cinema, traz obras primas para a cultura mundial. “Sapiens – uma breve história da humanidade” (2014), do professor e filósofo Yuval Noah Harari é um best-seller que trata sobre a revolução cognitiva (capacidade humana de criar e transmitir informação), agrícola e científica e é o livro que dá origem ao espetáculo Ficções.
O release nos diz que “O grande diferencial do homem em relação às outras espécies é sua capacidade de inventar, de criar ficções, de imaginar coisas coletivamente e, com isso, tornar possível a cooperação de milhões de pessoas – o que envolve praticamente tudo ao nosso redor: o conceito de nação, leis, religiões, sistemas políticos, empresas etc. Mas também o fato de que, apesar de sermos mais poderosos que nossos ancestrais, não somos mais felizes que esses. Partindo dessa premissa, o livro indaga: estamos usando nossa característica mais singular para construir ficções que nos proporcionem, coletivamente, uma vida melhor?”
Ficções está no CCBB Rio até dia 30 de outubro. Idealizado pelo produtor Felipe Heráclito Lima e escrito e encenado por Rodrigo Portella, o texto é um grande recorte do livro. Como se estivéssemos com um controle remoto nas mãos, as cenas mudam aos nossos olhos: uma professora de biologia, uma palestrante futurista, uma esposa ao celular com o marido, dois artistas tocando piano, a mulher que desabafa, enfim, personagens que contam situações da vida humana e fazem a plateia refletir o tempo todo.
A cenografia de Bia Junqueira é uma imensa pedra “no meio do caminho” e um quadro metálico que nos leva ao passado e projeta ao futuro ao mesmo tempo. O ótimo figurino de João Pimenta é épico, atual, medieval, futurista. Paulo Medeiros ilumina tudo com competência.

Rodrigo Portella tem aqui um dos seus mais geniais trabalhos. Diretor do momento, sábio, criativo e moderno, Rodrigo nos apresenta um espetáculo dinâmico, profundo, sóbrio, sério, divertido, intenso, amoroso e empático. Está nos detalhes a qualidade do trabalho, como a singela presença do ponto no canto do palco, a delicada troca de roupas, as pausas, a troça com a plateia antes da entrada da atriz, o jogo com o público ao final do espetáculo. Tudo ali é coletivo. Deduzo que o maior mérito do espetáculo é a coletividade, o humano.

O dicionário diz que “Satisfeito, do latim satisfactum, é um adjetivo de quem se encontra contente, de quem se satisfaz; ou de quem está farto, saciado. Algo que se realizou ou se cumpriu”. Sobre Ficções eu digo sem medo de ser feliz: sim, estou satisfeito. Embora a vontade de mergulhar no livro – nos livros – de Yuval Harari seja imensa, para que eu fique saciado de sabedoria.
Ficções é um dos melhores espetáculos de teatro que já assisti na minha vida. Está no “Top 5”. Pelo assunto oportuno, pelos questionamentos, pela qualidade técnica, pela emoção e por servir de exemplo ao que se propõe uma obra teatral: incomodar, instruir, incentivar, oferecer.

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