
Fui apresentado a Franz Kafka pela eterna Nana Pirez, minha amiga que já não está entre nós. Me deu A Metamorfose e ordenou: leia. Urgente. Li. Conversávamos horas sobre isto. Ela me alimentava com cultura e conhecimento. Sua vida eu levei aos palcos. Éramos simbióticos.
Está em cartaz no Teatro 2 do CCBB o espetáculo musical “Kafka e a boneca viajante”. A história, resumidamente, nos conta sobre cartas que Franz escreveu a uma menina que chorava no parque por ter perdido sua boneca. Ele se diz “carteiro de bonecas” e passa a alimentar diariamente o imaginário da menina dizendo que a boneca está viajando pelo mundo através de cartas. Nossa Senhora da Criatividade baixou nele! Mas... quem alimentava quem? A simbiose entre os dois, ela que recebia e esperava pela próxima, ele que as “psicografava” e contava uma história, era o que mantinha Kafka vivo neste período, e também mantinha a menina viva depois de muitas perdas e abandonos (da boneca, do pai...). Na peça Rafael Primot adaptou o livro pros palcos e temos personagens sólidos que se misturam com os atores em sua realidade e que se alimentam das gargalhadas, aplausos e murmúrios da plateia. Esta, sentada em estado de absorção, se alimenta do que o palco oferece. Simbiose palco-povo.
A cenografia, de Nello Marrese, nos apresenta um imenso pêndulo-móbile que, ora pra frente, ora para trás, gira contando as horas, marcando a passagem dos anos. Ainda temos pufes com selos, muitas gavetas cheias de histórias e papéis. Lindo trabalho. O figurino, de João Pimenta é colorido para a boneca e sóbrio para os demais. Os sonhos sempre coloridos!! A luz de Paulo Cesar Medeiros abraça o espetáculo.
João Fonseca, mestre na direção de espetáculos sensíveis, nos apresenta um trabalho de excelente qualidade. Humor, quebras de ritmo pensadas, números musicais com conteúdo, ocupação do palco e ritmo empregado nas cenas, mostra que a pandemia serviu para que voltasse com mais gás ao seu trabalho de direção. Gosto muito de ver sua mão conduzindo cada elemento para que o todo seja, no mínimo, mágico. João desmonta a quarta parede, humaniza os atores. A colaboração de dois gigantes parceiros: Márcia Rubim na direção de movimento e Johayne Ildefonso na assistência de direção são fundamentais para que a história seja contada. O trabalho da boneca é impecável, assim como o voo da gaivota, a dureza do soldadinho de chumbo, a fragilidade pela doença de Franz, a meninice doce de dona da boneca.
Tony Lucchesi assina a direção musical com ótimos arranjos. A opção de escolher músicas conhecidas do mundo da música Pop é atual: o filme Moulin Rouge, os seriados Briedgerton e Charlotte (Netflix), nadam de braçadas no pop mudando ritmos. Em “Kafka e a boneca viajante” o sentido é o mesmo: de Rita Lee a Macarena, passando por Lenine e Raul Seixas, é muito benéfico para todos e traz parte da história contada por versos previamente existentes no imaginário coletivo! Adorei!
Carol Garcia é a menina que recebe as cartas e, depois, se torna a mulher modificada. Ótimo seu trabalho como criança.
André Dias é Sr K. (Kafka) que nos mostra a fragilidade do homem no fim da vida, mas que ganha forças quando conhece a menina e se joga nas cartas para se manter vivo. André canta muito bem e sua presença cênica é marcante.
Dora de Lilian Valeska é, ao mesmo tempo, esposa de Sr. K e a gaivota. Uma beleza cênica ver Lilian flanando, voando e cantando com sua personagem. Que voz, senhores! Que voz!
E ela, a magnética e impecável Alessandra Maestrini, que volta aos musicais de forma exuberante. A primeira vez que a vi foi em Mamãe Não Pode Saber e dali em diante fiquei encantado com seu trabalho. Sou mais que seguidor, um fã e admirador. Tive o prazer de levá-la ao palco do projeto As Cantrizes por duas vezes e seu talento me deixou marcas profundas! Agora, como a boneca, Alessandra está perfeita: corpo, voz, expressão facial. Quisera todas as bonecas do mundo cantassem e tivessem a beleza e maturidade cênica desta Brigida criada por ela.
Só quem tem sensibilidade artística pode ter um insight de transformar um livro em uma peça musical. Aqui, Felipe Lima teve esta idealização e junto com uma equipe de primeira, da Tema Eventos Culturais e Sevenx Produções, nos presenteia com um espetáculo sensível, de alto nível e cheio de mensagens para qualquer público.
A minha criança interior ficou extremamente feliz com tudo que viu. Mergulhei neste universo de cartas, literatura, de simbiose, parcerias, de ensinamentos, que mostra que nada substitui o contato humano.
Como diz parte do texto da peça “Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente”. Até hoje escuto os saraus de música na varanda da casa de praia onde passava férias, as conversas sem fim com Nana Pirez sobre a vida e o mundo, os ensinamentos dos mestres da faculdade e do primário. Era simbiose. Era amor.
Vida longa a “Kafka e a boneca viajante”. Que cada um faça a sua viagem interior, conheça novas culturas, leia muitos livros e corra para o teatro 2 do CCBB para aplaudir este trabalho excelente de todos. Viva o Teatro!
Um comentário:
Nada ou palavra alguma poderia ter sido tão clara e tão objetiva, com ternura e emoção profundas como as desse artigo crítico, verdadeiro e pungente! Disse tudo que encantou o público da estreia no CCBB-Teatro II, em cuja plateia me encontrava, e não poderia convidar melhor outras plateias do que com essas observações de quem conhece literatura e teatro e tem sensibilidade para absorve-los. Parabéns!
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