Justifico este longo e tenebroso
verão da minha ausência nos comentários. O trabalho está árduo neste pós-folia
e início de novo ano “letivo”. Chegamos a Salvador para o Lê Pra Mim? na
sexta-feira 01 de março, aniversário do meu RJ. Em cartaz na cidade a peça “Caixa
de Areia”, do talentoso Jô Bilac, com Taís Araújo no elenco. Fomos assistir. Também tive a oportunidade de ver “Namíbia Não”, com direção de
Lázaro Ramos. O casal Lazaro-Tais dominava os principais palcos da cidade! Para
fechar com chave de outro, revi, pela sétima vez, o brilhante “A Bofetada” com
a Companhia Baiana de Patifaria.
Escrever sobre um
espetáculo de teatro, como se fosse um crítico, não é das tarefas mais fáceis.
Por isso, aqui neste espaço, digo que são “opiniões de um leigo” - pois não
estudei teatro - sobre o que vi no palco. Tenho uma escala mental de 0 a 10 e
se o espetáculo assistido se encaixa no eixo “de 5 a 10” costumo fazer comentários
favoráveis, mesmo que eu não tenha gostado muito, mas sempre encontrando algo
de importante que mereça ser valorizado na montagem. Afinal tem uma equipe
imensa trabalhando e não cabe a mim derrubar espetáculo de ninguém. Quando a
escala é abaixo de 5, eu reprovo o comentário e ele fica apenas na minha
cabeça. Aprendi, faz um certo tempo, que se não é para falar bem, melhor não
falar nada.
“Caixa de Areia” estreou nos palcos cariocas no confortável Teatro do SESI,
centro do Rio. Este texto, segundo li nas matérias publicadas, faz parte de uma
trilogia (“Savana Glacial” e “PopCorn”) deste autor já premiado. Gosto muito do
jeito e da inteligência do Jô Bilac. A peça fala sobre uma critica de teatro que vê a sua vida como
se não fosse sua. Como se assistisse de fora os acontecimentos, do presente e do passado, que envolve mortes e fazem com que a crítica de teatro
reflita sobre a sua própria vida.
Jô Bilac realmente tem o dom de nos surpreender com suas tramas rebuscadas,
contando a história em pedaços para juntar tudo depois. Como se nos desse em doses homeopáticas todas as peças do
quebra-cabeça. Confesso que minha capacidade de compreender o
espetáculo naquela sexta-feira da viagem estava abaixo da crítica. Prestei
atenção, reuni as peças do quebra-cabeça mas, “ou o texto esta muito rebuscado
ou eu sou uma perfeita anta”, pensei. Após o espetáculo, na mesa do
restaurante, expus minhas hipóteses sobre o assistido. E, junto com
os amigos, chegamos as respostas sobre o fio condutor da história contada. Foi
ótimo ficar conversando, durante a pizza de peperoni, sobre o espetáculo, arrumando
todas as informações que Jô Bilac havia nos dado. Tal qual investigadores num
livro de suspense.
No palco, o maravilhoso - repito: maravilhoso - cenário de Flávio Graff,
composto de móveis antigos, armários, um conjunto de cadeiras empilhadas e
folhagens secas, nos faz passear pelo universo de uma casa antiga, onde
histórias aconteceram e plateia de teatro onde a personagem critica de teatro
passa sua vida a limpo. O figurino de Patrícia
Muniz é lindo pra caramba e cheio de detalhes de bom gosto. A luz de
Adriana Ortiz aproveita o espaços entre os móveis, explora com beleza as cores
do cenário e dá o tom de mistério ao espetáculo. Além de trilha sonora bastante competente de
Samantha Rennó.
A direção é do próprio autor que, junto com Sandro Pamponet, sabem do seu
desejo de jogar as peças para que a plateia as junte em sua cabeça, tem total domínio
das possibilidades de movimentos e utilização do palco e cenário a favor do
espetáculo. E soma-se a isto a direção de movimento da competente Viétia
Zangrandi
No elenco, todos estão muito bem, se posicionando diante do desafio desta montagem
com respeito ao novo autor/diretor, se entregando aos seus papéis com confiança
e segurança. Tais Araújo - aliás linda de cabelos curtos a lá Halle Belle - e Luiz
Henrique Nogueira encabeçam o elenco com segurança. Cris Larin e Julia Marini
chegam a roubar algumas cenas para si tamanha a entrega; e Jaderson Fialho
completa o elenco dando vida a outros papéis masculinos.
Sem dúvidas, Caixa de Areia é uma produção de alta qualidade, de alto nível de
competência de toda equipe. Depois de passar por algumas cidades brasileiras, é
uma opção para quem gosta de desafios de quebra-cabeça e, principalmente,
aprecia o talento de Jô Bilac.