terça-feira, 6 de agosto de 2019

EU SEMPRE SOUBE



     Os relatos estão por toda parte. A mídia noticia a todo momento. Os números impressionam. As políticas públicas de apoio e suporte aos homoafetivos estão, cada dia mais, sendo demolidas. O STF criminaliza a homofobia, mas cadê o “cumpra-se”? Presidentes pelo mundo são homofóbicos assumidos. Quando se tem a autoridade máxima de um país que incita a violência, porte de armas, agressões a mulheres, índios, LGBTQI+, não se pode esperar outra coisa além do aumento da violência contra as minorias. Ninguém escolhe ser homoafetivo. Se é. Nasce. Pode-se reprimir, lutar contra a natureza, mas é impossível deixar de ser.

     “Eu Sempre Soube”, que já está na segunda temporada, agora na Casa de Cultura Laura Alvim, é o espetáculo recente do diretor e dramaturgo Marcio Azevedo. Conversou com 92 mulheres, mães de homoafetivos, e reuniu os relatos em um espetáculo teatral tocante, sensível, forte, humano e extremamente verdadeiro. Histórias de assédio moral, agressões físicas, preconceito velado e às claras, problemas de saúde mental e física, comportamentos de uma sociedade doente – e sem previsão de cura – são expostos sem dó nem piedade no palco. Incontáveis crimes brutais que, mesmo com leve toques de humor, não atenuam o horror das situações vividas.

     No palco, o cenário de José Carlos Vieira preenche o espaço e, de cara, revela ser uma palestra. A luz de Aurélio de Simone se utiliza dos tecidos para colorir e ilustrar momentos tensos, alegres, tristes e angustiantes. O figurino de Anderson Ferreira é perfeito para a personagem palestrante. Tauã de Lorena cria e executa a agradável trilha sonora que embala os relatos, ameniza dores e sublinha o suspense.

     Márcio Azevedo, por ser o autor, sabe o que quer: mostrar, relatar, contestar, gritar, discutir tudo o que as mães passam, o que os filhos passam, antes, durante e depois de se assumirem homoafetivos. Márcio não se prende ao cenário, foge do convencional, libera a emoção da atriz/personagem para que deixe fluir o que de mais importante o espetáculo precisa: emoção verdadeira.

     Rosane Gofman é uma atriz completa. Seu trabalho neste espetáculo é delicado, sincero, intenso, profundo e, principalmente, comunica com a plateia. Rosane olha no olho do espectador, vive as histórias intensamente como se fossem suas, mesmo sem sair do personagem “jornalista famosa palestrante”. Ela se empresa, se doa, sem amarras. Foge do roteiro, melhora uma fala dita ao acaso, sublinha medos e angústia, faz do palco a plataforma política necessária para contar a história.

     “Eu Sempre Soube” é um espetáculo obrigatório para os dias atuais.  Nos faz ter empatia pelo outro, traz amor verdadeiro, coloca o dedo na ferida aberta, explica, denuncia, mostra que é possível viver numa sociedade com mais amor e respeito ao próximo. O futuro não mostra soluções para o que estamos passando. O mundo anda cruel e dividido. As partes não se vêm com todo. Não existe soluções fáceis para problemas difíceis, mas é preciso relatar, registrar, gritar, fazer-se ouvir, para que, em algum momento, chegue a hora da virada. É com diz Millôr Fernandes, no prólogo de sua tradução de Antígona: “Ainda não acreditamos que no final, o bem sempre triunfa. Mas já começamos a crer, emocionados, que, no fim, o mal nem sempre vence”. Vida longa e “Eu Sempre Soube”.

domingo, 23 de junho de 2019

DISTORÇÕES



Empatia. Substantivo Feminino. Capacidade de projetar a personalidade de alguém num objeto, de forma que este pareça como que impregnado dela. Disse o Google! Mais ainda: “Capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo.” Assim falou Zaratustra.

Além disso, a espiritualidade nos diz que a energia da pessoa fica nas roupas que ela veste. Ora. Não duvido disso. Passo minha alegria para as roupas que eu faço doação. Sempre. Como sugestão, lave as roupas e passe-as (se assim o tecido permitir) e limpe bem os objetos que ganhou de outra pessoa, antes mesmo de usá-los.

E é isso que a peça Distorções, em cartaz no teatro 1 do SESC Tijuca nos mostra. No princípio, tudo era água... ou ar... ou energia. Vá saber? O que conta o espetáculo, de uma forma simpática e criativa, escrito por Fabrício Branco, é a vida dos personagens através das suas roupas. De um capote a um guarda-pó, do romance de uma camisa regata com uma gola rolê (que me lembrou a música Eduardo e Mônica), passando pela desconfiança da farda e mostrando o triste fim da camisa da seleção brasileira de futebol.

No palco, o cenário de Carlos Alberto Nunes nos lembra as lavanderias modernas que temos hoje em cada esquina da cidade. O figurino de Nivea Faso, além de vestir, é personagem principal da história. Iluminando tudo, Ana Luiza de Simoni, cujo sobrenome famoso nas artes de iluminação prova que DNA, talento e vocação estão presentes em sua carreira. A trilha sonora de Marcello H contribui imensamente para o caminhar da história. E o visagismo e a maquiagem de Diego Nardes é sempre sinônimo de qualidade.

Eduardo Vaccari assina uma direção competente e elegante. Em meio a tantas roupas e assuntos, Eduardo consegue passar verdade com os figurinos-personagens, se utiliza do cenário para fazer janela com cortina, máquina de lavar, muros. Abre a peça com palco vazio e monta o cenário – recurso que eu gosto muito. Na atuação, permite às atrizes uma compreensão perfeita do texto e se preocupa com as expressões faciais e o ritmo da peça.

Carmen Frenzel e Mariana Consoli, atrizes da melhor safra e da melhor qualidade, empresam seu caráter humano aos personagens. Conheço, respeito e admiro ambas não só pelos seus trabalhos mas por suas condutas de vida, simpatia, força, garra e respeito ao próximo. Dois talentos da arte dramática que precisam muito estar em cena para nos alegrar com seus brilhos, suas luzes. Carmen e Mariana não economizam. Se utilizam de ferramentas de interpretação e voz para contar as histórias da peça, que pode ser banal, mas cuja mensagem é importantíssima nos dias de hoje.

Não só de empatia fala Distroções. Somos todos protagonistas das nossas histórias e, portanto, olhe para o outro e veja que ele também é protagonista da história dele e que isso merece ser respeitado. Alguém ao seu lado pode estar passando por um problema e você nem sabe. Respeito, amizade, solidariedade e vida. É disso que estão falando!

Muitas vezes distorcemos a verdade para caber nela, para que a vida seja mais colorida quando a realidade é sem cor. Seja qual for a sua verdade, corra já para o SESC Tijuca e receba esta “lufada” de amor, competência e talento.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

IRMA VAP


Foi no século passado que fui com minha mãe e irmã ao Teatro Casagrande, antes do shopping, assistir ao sucesso da temporada. Sentamos em cadeira extra, na lateral. E foi mágico. Quando acabou a apresentação eu estava consciente de que era disso que eu queria viver. Foi por causa desta peça que a paixão pelo teatro surgiu.

Corta para 2018. Quando soube da nova montagem, fiquei eufórico e faria de tudo para assistir. Partiu São Paulo. E a magia se refez.

A história é uma comédia com pitadas de terror e suspense. Dois atores se revezam em 6 papéis e o grande desafio é a rápida troca de roupas.

Seria impossível refazer o espetáculo, que é uma comédia clássica, nos tempos atuais. Repetir a fórmula seria compará-la ao “original”, e as criticas seriam imensas. Então, o diretor Jorge Farjalla, conhecido por montagens inovadoras, re-inventou Irma Vap.

Nos dias de hoje, vemos televisão, seriado, usamos o celular, alternamos entre aplicativos, digitamos e ouvimos música, tudo ao mesmo tempo. Farjalla usa isso para modernizar Irma Vap. Temos humor, critica política, enxurrada de referências de cinema e de memes, homenagens, música e inteligência. Se na montagem original o mérito era de Marco Nanini e Ney Latorraca (dirigidos por Marília Pera), nesta versão o mérito é de Jorge Farjalla (que dirige Luis Miranda e Mateus Solano). Farjalla brinca com os atores e surpreende a plateia com uma direção segura, criativa, moderna e inovadora. A grande referencia é um trem fantasma, que dá vida ao cenário. Um parque de diversões tanto para o elenco quanto para o público.

Marco Lima assina a cenografia excelente que encaixa como uma luva na ideia do diretor. Karen Brusttolin criou um figurino criativo, recheado de conceitos, que vão desde Drácula de Bram Stoker até Priscilla a Rainha do Deserto, mas que precisa ser de rápida troca. Cesar Pivetti ilumina toda a cena com perfeição, como um show, como teatro. E a trilha sonora de Gilson Furushima é um personagem à parte! Que equipe, senhores! Que equipe!

Farjalla acerta também quando acrescenta ao espetáculo quatro atores-músicos-bailarinos. Greco Trevisan, Fagundes Emanuel, Thomas Marcondes e Kauan Scaldelai são corvos, ratos, conta-regras, músicos, camareiros, ponto eletrônico... uma infinidade de atividades que faz o espetáculo ficar mais rico.

Luis Miranda e Mateus Solano são os atores desta terceira montagem (Marco Nanini e Ney Latorraca na primeira, Cassio Scapin e Marcelo Medicis na segunda). Inegável o imenso talento dos dois. Luis com seus brilhantes personagens de Terça Insana e Sete Contos, se utiliza das suas construções conhecidas do público e as empresta para os personagens desta peça. Mateus Solando, gênio, usa as referencias de Dois para Viagem e Selfie, acrescenta um trabalho de corpo impecável e minucioso, e vive os personagens de Irma Vap sabendo da responsabilidade que é esta remontagem.

Impossível dizer que o mérito do sucesso desta nova Irma Vap é de uma só pessoa. Os produtores Marco Griesi, Priscila Prade, Daniela Griesi e Fernando Trauer acertaram na escolha da equipe toda. Acreditaram na ideia trazida por Jorge Farjalla e embarcaram neste trem-fantasma, nesta brincadeira, neste espetáculo genial, nesta aventura cujo sucesso é garantido.

Desejo que Irma Vap 2019 tenha tanta vida quanto a primeira montagem, que ficou 11 anos em cartaz. O teatro brasileiro precisa deste espetáculo. Novas plateias precisam ser formadas e Irma Vap tem tudo para levar de volta às salas de espetáculo o público que se afastou. Irma Vap mostra ainda aos empresários e patrocinadores que o teatro está vivo e é um ótimo investimento.

Fiquei muito feliz e emocionado em rever os personagens, em voltar a acreditar que o teatro é importante para a cultura nacional. E, mais que tudo, fiquei impressionado por saber que é possível remontar um espetáculo clássico de uma forma ainda melhor. Jorge Farjalla reinventou o teatro de comédia com esta versão de Irma Vap. Aplausos e gritos de Bravo são pouco para este espetáculo. Por favor, assista. Não perca esta oportunidade. Vida longa a Irma Vap!!

quarta-feira, 8 de maio de 2019

QUEBRANDO REGRAS

Raul Seixas já cantou ”Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade.” 

Evelyn Castro tinha um sonho: fazer uma peça em homenagem a Tina Turner. Chamou João Fonseca pra dirigir. Kacau Gomes tinha um sonho: fazer um tributo a Tina Turner. Chamou João Fonseca pra dirigir. Não. Eu não repeti a frase. Eram sonhos idênticos, mesmo diretor. João contou pra Kacau que Evelyn tinha feito a mesma proposta a ele. Banho de água fria? Jamais. Uma ligou pra outra e... Vamos fazer juntas esse sonho? Assim nasceu “Quebrando Regras”, tributo a Tina Turner, que estreou no Teatro Clara Nunes. 

Stella Maria Rodrigues escreveu a história que conta o desespero de duas fãs para entrar no show que Tina Turner está fazendo no Maracanã, em 1988. Além das vidas das duas se cruzarem no portão, naquela realização frustrada de um sonho, Stella conta um pouco da história de glória, comédia e tragédia da “rainha do rock internacional” da época, e nos dá um pitaco sobre a vida brasileira, com jingles de comerciais, comportamento e política. Um texto hábil e conciso, escrito por alguém que sabe muito de musicais.

João Fonseca, imprime a sua marca desde a escolha da equipe de sucesso – cenário ótimo do Nello Marrese simulando a entrada do Maracanã com estátua de Bellini, as colunas e o gradil; figurino do Marcelo Marques totalmente de acordo com a época e homenageando a cantora tema; visagismo do Beto Carramanhos que nos faz lembrar da Tina Turner sem apagar as expressões das atrizes; luz do sempre ótimo Paulo Cesar Medeiros; e as divertidas coreografias do Alex Neoral (que nos lembra as dancinhas de Tina e o que fazíamos na pista de dança da época!) – até seu desenho do espetáculo, alternando números musicais, comédia e “momento mensagem para pensar em casa”. Adoro a cena em que as duas fãs contam parte de suas vidas amparadas em duas músicas extremamente fortes de Tina Turner. Gosto muito de ver Bellini se transformar em repórter. João sabe que tem duas divas dos musicais nas mãos, ambas ávidas em homenagear Tina Turner e deixa as atrizes, embora marcadíssimas, livres e unidas para contar a história.

Todo musical precisa de duas coisas importantes: boas vozes e ótimos músicos. Tony Luchesi assina a direção musical com sabedoria, pois usa os arranjos de sucesso das músicas de Tina Turner, que temos no inconsciente, e se apropria das vozes das duas cantoras-atrizes para dar um pouco mais do que só canto: a interpretação das canções.

Evely Castro e Kacau Gomes. Kacau Gomes e Evelyn Castro. Sonho que se sonha só... é um sonho só. As duas sonharam e estão juntas. Evelyn tem uma timbre mais parecido com Tina Turner. Kacau tem uma extensão vocal inacreditável! Evelyn tem o gestual de Tina na veia. Kacau tem a emoção te Tina à flor da pele. Evelyn e Kacau estão unidas, fortes, seguras e inteiras em cena. Uma dupla que entendeu que a união faz, sim, a força. Sonho que se sonha junto, é realidade. Saulo Segreto interpreta todos os personagens masculinos. Sua presença é carismática e divertida. Ele sabe que as duas atrizes ao seu lado são divas e ele reverencia ambas com sua competência e generosidade de colega.

A equipe de “Quebrando Regras” se empresta, se doa, se entrega a este musical que chega em ótima hora. Momento em que o público está sumindo e o patrocínio minguando, mostrando que a cultura e a qualidade da cena teatral carioca jamais irá morrer. Este espetáculo nos serve de lição: juntem-se. Formem grupos com pessoas que estejam dispostas a seguir uma caminhada com amor e suporte. O trajeto será mais curto e a viagem menos dolorosa. 

Quem não se lembra da Regina Casé como Tina Pepper da novela Cambalacho? “Você me incendeia, meu corpo serpenteia. E me deixa louca, com água na boca...”. Foi com muita água na boca que saí do teatro. Vontade de assistir de novo e cantar várias vezes Tina Turner. Tenho certeza que Tina Turner está muito bem homenageada. Espetáculo obrigatório!