Quatro vezes na minha vida tive a mesma sensação: não estou sozinho no mundo.
Fora de ordem, aqui estão: quando assisti ao comício do meu candidato à presidência da república e vi que pensamos todos iguais no coletivo; quando entrei para a associação de produtores culturais e vi que todos sofremos igual como produtores; quando entrei pela primeira vez em uma boate LGBT e vi que existiam pessoas iguais a mim; e ontem, ao assistir ao espetáculo Hétero Sigilo e senti novamente várias emoções (que eu tinha guardado só comigo) e vi que eu não passei por aquilo tudo sozinho. Aconteceu também com outras pessoas exatamente as mesmas coisas!
Depois da temporada de estreia de grande sucesso, o monólogo Hetero Sigilo está em cartaz no Teatro Gláucio Gil em curta temporada. Corram!
Com texto e atuação de Bernardo Dugin, a peça conta a história de um menino que se descobre feliz, se envergonha e aprende que sua liberdade é vigiada, aceita e age como a sociedade ordena, sofre, vira o oposto do que sua natureza manda, sofre, se engana, acha um caminho de fuga para viver duas vidas paralelas, sofre, se revolta, mas... aos poucos... começa a descobrir que o amor e a liberdade de ser quem se é, é maior e mais prazeroso do que seguir o que a sociedade, pais, família, irmãos te obrigam a ser.
Uma vez em um jantar em família, uma tia me perguntou: E as namoradas? E eu respondi: a senhora é cega ou está me sacaneando? A gargalhada dos primos parceiros, a vergonha dos adultos, a minha segurança, a confiança dos meus primos menores em mim, a aprovação de tios modernos, a desconversa, o meu empoderamento naquele dia foram sentidos por todos.
O texto de Hétero Sigilo é muito bem escrito. Contado em parcelas de anos-faixas de idades, Bernado Dugin (autor) traz uma dramaturgia que vai crescendo ao longo da história do personagem, onde as mudanças são vistas, sentidas a presenciadas por todos. Sabemos onde vamos chegar, mas não sabemos como nem o fim da história. O famoso arco dramático tão falado nos livros de roteiro, a mesma imagem do início igual a do fim da peça, a construção das frases, a linha da história, os pequenos conflitos, tudo é muito bem amarrado, pensado e escrito. Ótimo o texto.
No palco, um gigantesco espermatozoide ao fundo, duas cadeiras, uma mesa com rodinhas e objetos compõem a cena. Nello Marrese (mestre!) assina a cenografia e o figurino, composto por roupas leves e confortáveis, em tom neutro, valorizando o corpo e a história. A luz de Daniela Sanches traz recortes, quadrados, focos e colorido muito bem casada com cenografia e direção. A trilha sonora de Frederico Puppi é sempre elegante, certeira e necessária.
João Fonseca é o diretor. (Acho que João Fonseca é o diretor de teatro mais citado neste blog-opinião... seria ele um dos meus favoritos?). Em Hetero Sigilo, João traz aquela direção que eu admiro: respeitosa, calma, marcas leves e necessárias para contar a história da evolução do personagem. Cadeiras que viram personagens e bancos de carro, a ocupação do espaço permitindo uma movimentação justificada. É delicado e preocupado com a verdade cênica. Lindo. Junto com João, é destaque também a direção de movimento de Vanessa Garcia com as ótimas coreografias de danças, briga e sexo. André Celant é o assistente de direção e ajuda a amarrar as pontas para que a peça fique redondinha.
Bernardo Dugin é o ator. Sua atuação é segura, tranquila, confiante e conta uma história importante. A mudança do personagem percebemos ao longo da peça. De criança-viada a adolescente problema, de hétero agressivo a hétero sigilo, de homem social para homo defensor da sua natureza. É linda a cena da descoberta do amor no amigo igual na escola e a dor de ter excluído o amigo por pressão social. É divertida a cena de roubar a namorada do desafeto. É intensa a cena do seu personagem brinquedo-sexual-fuga. É comovente a sua liberação do pai. É emocionante a sua descoberta do amor. Bernardo não tem pressa para contar a história. Ele vibra ao poder passar cada pedacinho da história com a certeza de que a mensagem chegou ao público. Sua atuação é merecedora de aplausos de pé.
Na produção, O Delirante Produções. Azul Scorzelli na assistência de produção, Paula Catunda e Catharina Rocha na assessoria de imprensa sempre com ótimos espetáculos à mão.
Hetero Sigilo é um pseudônimo muito comum em salas de batepapo, aplicativos de encontros, redes sociais voltadas para alivio imediato sexual. É fetiche recorrente, antigo e atual. E é também título de um espetáculo de teatro onde mostra que não se está sozinho no mundo silenciado pela sociedade. É tudo verdade. Entendedores entenderão! Vida longa a Hétero Sigilo! Aplausos de pé. Viva o teatro!
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