domingo, 20 de outubro de 2019

O SUBSTITUTO


     Deveria ser óbvio que somente a educação do povo irá transformar a nação em que vivem. E não é nivelando por baixo que se terá um resultado imediato. Como bem diz o ditado, não existe solução fácil para problema complexo. É preciso de tempo e projeto. Planejamento, execução e pessoas comprometidas. Coreia do Sul, Tailândia, China, Chile... exemplos positivos não faltam.
     Está em cartaz, no Teatro Café Pequeno, o espetáculo O Substituto.  Texto de Daniel Porto. Como um dia de aula, chega o professor substituto para oferecer (impor?) a sua forma de ensinar, totalmente diferente do que se vem fazendo. Tendo por base as frases, entrevistas, comentários e projetos do que se está apresentando atualmente no governo brasileiro (em alguns casos no federal, estadual e municipal), o texto é um grande desafio. Falar tudo o que está sendo dito sem precisar apontar o dedo com a indicação de que “isto é certo” ou “isto é errado” é a grande sacada. O texto já mostra e cabe à plateia tomar partido – sem trocadilho! – de qual lado está: opção pela queima de livros, a autoridade sem liberdade, a “biblificação” da palavra, o desprazer pela história, a negação do passado. Ou a opção por achar isto tudo um absurdo e lutar contra esta onda nefasta. Amanda Bastos é a consultora de História que auxilia nos fatos.
      No palco, o cenário de Karlla de Luca opta por uma carteira sem encosto – escolas sucateadas – e um piso plotado (ou desenhado? Fiquei na boa dúvida!) com giz contendo as palavras de ordem da nova educação proposta. Karlla também assina o figurino cinza, sem cor, sem vida, sem alegria, bastante pertinente para o momento. A luz de Paulo Denizot recorta, aponta, ilustra, cria sombras caricaturais, fazendo a sua crítica ao que está sendo dito, mas também deixando a plateia decidir.
      Alexandre Lino é o professor substituto que carrega os nomes dos presidentes da época da ditadura no Brasil. Sim, houve ditadura. Sim, a terra é redonda. Extremamente seguro e sem expressar o que pensa, Lino consegue dar vida ao professor que chega para “mudar isto tudo que está aí, talquei?” mas sem questionar. Apenas impor a sua visão de dono da verdade, acuando, inibindo, pressionando, e – por que não? – torturando os alunos com seu jeito de ensinar a sua visão dos fatos. É realmente um ótimo trabalho. Lino tira forças para acreditar naquela verdade sem deixar que a sua verdade interior interfira no seu trabalho.
     Maria Maya dirige o espetáculo, como sempre com a delicadeza de quem tem um DNA de respeito! Foco na palavra, força na interpretação, atenção à luz, respeito ao público. Inegável seu amadurecimento a cada trabalho apresentado. Capricho e simplicidade no mesmo tom.
     A peça causa revolta, incômodo, dúvida, reflexão. E é esta a função do teatro. Mesmo nas comédias mais rasgadas ou nos musicais chorosos, fazer o público conversar, pensar e tomar atitudes é a tarefa da arte. O Substituto faz isto com competência. Após o espetáculo, o bate-papo com a plateia enriquece o todo. Os mais revoltados vão embora, ou por identificação, ou por desacordo. Mas certamente irão pensar sobre o que assistiram. Nada melhor do que mostrar a situação, seja com lente de aumento ou com distanciamento, para se ter a real noção daquilo que se vive, e O Substituto é desses espetáculos necessários para que se apresente o que está acontecendo com o ensino publico brasileiro e, principalmente, possamos decidir se é isto que queremos para o futuro da nação. Eu já fiz a minha escolha. E não é a atual diretriz que eu acredito que seja a correta.
     Este espetáculo precisa ficar em cartaz o máximo de tempo possível. Muitas pessoas precisam assistir. Aqueles que votaram neste regime de governo por falta de opção, ou se isentaram de escolha, até mesmo quem acredita que é o atual caminho é correto, precisam assistir para que possam entender a situação, ouvir o outro lado, dialogar, achar um denominador comum, pois, caso contrário, muito em breve, não teremos nem condições de apresentar mais teatro para a população brasileira. Aplausos de pé.

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