
Pois não é que me vi dentro de um sonho ao assistir ao espetáculo "As Traças da Paixão"? É um sonho louco, uma brincadeira sobre uma verdade possível. Uma história tipo sessão da tarde com final feliz e o bom e velho The End. Alcides Nogueira, responsável por várias peças de teatro e programas de televisão, assina este sonho, esta loucura possivel, este devaneiro divertido.
A direção de Marco Antonio Braz entende que o caminho é da loucura do sonho gostoso e deixa os atores a vontade para criarem seus personagens e conduz o espetáculo para esta brincadeira gostosa. A utilização de todo o cenário pelos atores, a brincadeira com o teatro infantil e o teatrão das antigas e mal intrepretado, levam o espetáculo ao divertimento, principalmente ao divertimento dos atores.
O cenário e o figurino da Juliana Fernandes, junto com a direção de arte de Maíra Knox, são bem interessantes. Gosto muito do cenário do bar e principalmente da porta do bar que vira armário no quarto. Achei lindo o espelho com a luz embaixo iluminando o momento em que a princesa da rússia aparece no "sonho" dos persoangens. Só acho um pouco carnavalesca a entrada triunfal, quase no fim da peça, da propria princesa (ou seria rainha?) da rússia num carro alegórico totalmente carnavalesco e andando no palco, empurrado por um contra-regra. Não precisa. A menos que isto fosse um elemento existente no cenário, onde o palco, a alegoria, aparecesse, tipo o armário. Já o figurino é confortável e combina com o cenário do bar e do quarto, mas a camisa vermelha (rosa?) do ultimo terço da peça em diante nao combina com nada que se veio apresentando até aquele ponto. Ainda destaco o dorso nú do Maurício Machado que nao é necessário. Mas, como tudo é um sonho bom, cada um que sonhe de acordo com o seu inconsciente!
A luz do Roberto Cohen e Célia Pagan é LINDA. As vezes se faz de cenário, como na cena do galinheiro. Lindo. Divertido. Palmas para a criação e operação da luz. Destaco ainda o vermelho da gaiola do tamanduá. Lindo mesmo. A trilha sonora de Tunica pontua o sonho com belas canções, mas, já que é um sonho bom, senti falta de pequenos barulhinhos que ajudam a criar a comédia.
E são os atores os que mais brincam com este sonho. Lucélia está 100% à vontade. Se entrega, se distrai, abraça o personagem, sem medo de errar, "se joga" com prazer no sonho louco do bem que é este texto. E não menos importante, o Maurício Machado encara seu personagem como se fosse uma realidade possível. Ele fica bem mais a vontade quando entra no galinheiro e daí segue a loucura até o fim da peça, mas até chegar a este ponto, ele pode, e deve, brincar mais, se jogar mais, deixar este sonho bom tomar conta da história, e largar um pouco de mão a verdade com que interpreta o seu Paco inicial.
"As traças da paixão" é um grande sonho bom, uma sessão da tarde divertida, caprichada, onde, assim como os sonhos, pode ser que ao acordar você se lembre dessa história por pouco tempo. Mas se voltar a dormir, pode ser que a história continue no seu inconsciente, com outros personagens, outros nomes, outros finais felizes.
Um espetáculo divertido.